Biobancos: para que servem coleções de amostras de câncer?

Se, há uns trinta anos, você perguntasse a um oncologista o nome exato de um determinado câncer, ele não confundiria a sua cabeça com uma resposta longa. O câncer de pulmão, por exemplo, ou seria de pequenas células ou adenocarcinoma ou, ainda, um tumor de células escamosas. Existiam esses três tipos, três nomes apenas, e ponto.

Se o jeito de chamá-los era um pouco diferente, o tratamento desse trio acabava sendo quase igual. Só que alguns tumores de pulmão respondiam bem melhor à quimioterapia do que outros. Por que razão? Essa era a pergunta que atormentava os médicos. O mesmo questionamento surgiu no câncer de intestino, no de mama, e o que fosse.

Hoje, porém, na maioria das vezes os oncologistas sabem o motivo por que um tratamento dá certo aqui e não dá certo ali. A resposta passou a ser traçada graças ao surgimento, nos anos 1990, de biobancos nos Estados Unidos e na Europa. Na América Latina, o primeiro deles não tardou a aparecer: foi criado em 19

Um biobanco é um repositório de amostras de pacientes”, resume o médico patologista Victor Piana, CEO do A.C. Camargo. “Cada amostra está ligada a uma série de dados: eu sei de quem ela era, que câncer essa pessoa tinha, qual o estágio daquele pedacinho de tumor quando ele foi coletado, se era pequeno ou avançado. Ou ainda já metástase, isto é, quando a doença se espalhou pelo corpo, a amostra vem com a informação do órgão onde ela estava. Tudo isso compõe um conjunto que representa um tesouro para a ciência.”

Fique claro: um biobanco nunca pertence a esse ou àquele lugar. Qualquer instituição de pesquisa em câncer pode solicitar suas amostras contanto que pague um livre em uma biblioteca pública, desde que siga um regulamento bastante rígido. E, dessa maneira, o tesouro inestimável é principalmente para os pacientes. Afinal, todos os novíssimos testes, assim como os tratamentos mais certeiros só foram possíveis examinando o material guardado neles.

É por causa da investigação das amostras em biobancos, aliás, que agora os tumores de pulmão do nosso exemplo “têm mais sobrenomes do que uma princesa”, brinca o doutor Piana. “Existe o adenocarcinoma de pulmão com mutação X no gene EGFR no lugar tal”, exemplifica o patologista. “Ao ouvir isso, o médico entende que é um subtipo supersensível a um remédio, o qual nem adiantaria ele dar se a mutação fosse diferente.”

Ou seja, norteia um câncer ajuda a definir o tratamento que terá maior chance de sucesso. Talvez você pergunte: e como os tais biobancos ajudaram a batizar os subtipos de tumores? Vale a pena matar essa curiosidade.

Nos cofres gelados do biobanco

Cada biobanco pode ter o seu modo de trabalhar. No A.C. Camargo, a gente sempre guarda, além do fragmento do câncer, um pouco do tecido sadio ao seu redor e um tubo de sangue”, diz o doutor Piana. Tudo para comparar, depois, as células doentes com as normais, assim como o câncer com os leucócitos, glóbulos brancos que estavam no tubo de sangue.

O patologista justifica: “A gente consegue extrair o DNA dos leucócitos, que continua normal, para fazer o sequenciamento genético dele e do tumor. Dessa maneira, saltará aos olhos o que existe de diferente no DNA do câncer.”

Este, aliás, é o pulo do gato: hoje existem tecnologias que mostram as mutações genéticas presentes nas células tumorais. Esse conhecimento foi o que levou aos “sobrenomes” de subtipos. Os tumores de pulmão do nosso exemplo, olhados assim na intimidade, não têm mais só três nomes, mas cerca de vinte!

Olhar para o futuro daquele tumor guardado

Geralmente, o médico coleta um fragmento de 5 milímetros do tumor. Imediatamente, ele é acomodado em nitrogênio líquido, a 180º Celsius negativos, para preservar o pedacinho de câncer nesse frio de lascar. Mas entenda: o tempo não fica congelado, pois o melhor de tudo é ver o que acontece com o paciente ao longo dos anos seguintes.

No biobanco pioneiro do A.C. Camargo, que hoje já soma mais de 200 mil amostras, existem aquelas que foram coletadas logo após a sua inauguração. “Mas eu consigo saber quais delas são de pessoas que ficaram bem nesses 29 anos e que tratamentos elas fizeram”, diz o médico. Dessa maneira, ele e seus colegas percebem o tipo de tumor para o qual determinada terapia parece ser muito bem indicada.

Do mesmo modo, sei quais amostras são de quem viu a doença voltar nesse período”, conta. “E sei quando ocorreu a recidiva, se foi um ano ou dois anos depois”. Assim, os médicos também notam quais tratamentos podem deixar alguém livre da doença por mais tempo. É um aprendizado. Aliás, um aprendizado sem fim. Também são coletadas amostras das metástases que, na sequência, são comparadas com a do tumor original.

“Isso porque um tumor nunca é estático”, explica Victor Piana. “Vamos supor que ele tinha 100 células malignas e que metade delas com a quimioterapia. As dez que sobraram provavelmente possuem vantagens genéticas, que lhes proporcionaram resistência às drogas. Quando voltam a crescer, eu terei um tumor que evoluiu, com 100% de células resistentes. Ou seja, teve um câncer com um comportamento diferente em relação ao do primeiro tumor.”

Nesses casos, as comparações com o material guardado nos biobancos continuam até que se compreendam essas diferenças, encontrando saídas para vencer os novos focos da doença.

Uma rede de biobancos

Para tudo funcionar pra valer, é importante a integração de biobancos espalhados por vários cantos. “Isso fica ainda mais claro no caso de tumores raros, como um ganglioma”, diz Victor Piana, referindo-se a uma doença que representa de ínfimo 0,5% a 2% de todos os cânceres e acometem o cérebro.

“Ora, como são poucos pacientes, eu devo ter, no máximo, dezessete amostras de ganglioma no biobanco do A.C. Camargo. É uma quantidade insuficiente para compreender essa condição. Mas, se um pesquisador juntar esses casos com os do biobanco do Inca (Instituto Nacional de Câncer) e com as amostras de outros países sul-americanos, talvez ele consiga 500 pacientes, o que favorecerá melhores testes e tratamentos.”

A moral é que um biobanco sozinho tem o seu valor. Porém, uma rede de biobancos vale muito mais. Isso foi muito discutido durante um workshop com pesquisadores da Universidade de Oxford, na Inglaterra, promovido pelo Ministério da Saúde e pelo governo americano, com a participação de representantes dos maiores centros de referência em pesquisa em câncer do nosso país. O encontro aconteceu na sede do A.C. Camargo, no final de março. Ali, o assunto foi a criação de uma rede para a criação de vacinas e testes mais simples e mais baratos para detectar a doença precocemente.

“Fortalecer a integração entre os biobancos é, de fato, fundamental para a gente descrever um tumor ou vários tumores com a mesma origem genética, juntando centenas ou milhares de amostras para achar aquilo que é comum nas células malignas e que só elas têm”, afirma o doutor Piana.

Esse ponto em comum, uma vez identificado, poderá se tornar o alvo de uma candidata à vacina, levando o sistema imunológico a reconhecer o “detalhe” para combatê-lo na sua mira. Já fragmentos da célula maligna com essa característica, que terminam sobrando na circulação, serviriam de base para um teste sanguíneo de rastreamento.

“Daria para repetir esse exame de sangue a cada seis meses em quem já teve a doença para fazer uma vigilância, sabendo se o câncer voltou ou não, mesmo quando as imagens ainda não acusarem nada. É o que chamamos de biópsia líquida”, conta o doutor Piana. “Ela, aliás, já é realidade para muitos cânceres, graças às comparações que fazemos a partir do material guardado nos biobancos.”

As vantagens de ser brasileiro

Na visão de Victor Piana, o interesse internacional em trabalhar com os biobancos brasileiros está ligado cada vez mais à diversidade da população do país. “Aqui, temos pessoas de origem alemã, japonesa, chinesa, italiana, polonesa, o que você quiser. E não são poucas”, observa o médico. “Sem contar a população negra, que é diversa em afrodescendentes americanos, e os povos originários.”

Por isso mesmo, dúvidas comuns a europeus e americanos dificilmente na Finlândia funcionaria para todo mundo podem ser respondidas com maior facilidade quando um biobanco brasileiro entra na jogada da ciência.

O desafio é entender o tamanho do que existe estocado nos freezers de biobancos pelo Brasil afora. “Mais do que a quantidade de amostras, precisamos saber o jeito como foram coletadas e até a temperatura com a qual foram armazenadas, se a menos 80º Celsius, o que serviria para alguns estudos, ou a menos 180º, o que daria para análises mais profundas”, explica Victor Piana.

Existe um esforço do Ministério da Saúde, como ficou claro no workshop em março, para tornar nítido o mapa dos biobancos brasileiros e do seu potencial. Esse é o caminho para termos exames de sangue capazes de detectar tumores, vacinas e tratamentos mais acessíveis, que agirão certeiro em seu alvo. O câncer precisa entrar nessa fria.

Fonte: VivaBem UOL

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