Toxicidade financeira: o custo invisível (e alto) do tratamento do câncer

Imagine um paciente de 78 anos, com saúde fragilizada por problemas renais, diagnosticado com câncer agressivo. A terapia mais moderna só existe fora do país e sem cobertura. 

O médico recomenda o tratamento, e a família vende bens para custeá-lo. O remédio atrasa, o tumor avança, o paciente piora e morre após dias na UTI. Ficam a conta hospitalar e uma dívida tão grande que até o neto adia a faculdade para trabalhar, gerando impacto financeiro por décadas. 

O drama relatado ilustra um dos efeitos adversos mais severos e menos discutidos da oncologia atual: a toxicidade financeira. Invisível, ela representa o colapso do orçamento provocado pela doença. A jornada oncológica costuma unir queda de renda e aumento abrupto de despesas. 

Uma metanálise global de 2025 indica que 56,1% dos pacientes enfrentam gastos catastróficos. Nos EUA, o peso recai nas coparticipações. No Brasil, o SUS e a saúde suplementar oferecem coberturas amplas, mas existe o custo indireto: o motorista de aplicativo que precisa parar de trabalhar, o profissional que passa a depender do INSS com renda reduzida, ou a família que se afasta do emprego para cuidar — todos vivenciam esse desequilíbrio.

Além das despesas com transporte, medicamentos fora da cobertura, cuidadores. Somados, esses itens podem inviabilizar o tratamento.

Um estudo da American Cancer Society, publicado no periódico científico CA: A Cancer Journal for Clinicians, comprovou que a falta de recursos força os pacientes a retardarem exames e abandonarem orientações nutricionais ou de fisioterapia.

Além disso, pessoas com câncer têm 2,65 vezes mais risco de falência, e entre sobreviventes que quebram financeiramente, a mortalidade é quase 80% maior. Cuidadores informais também adoecem, comprometendo saúde mental e qualidade de vida.

A mesma pesquisa global de 2025 aponta que o ensino superior reduz em 82% o risco de catástrofe financeira. Ao sacrificar a educação hoje para pagar tratamentos não planejados, compromete-se a proteção econômica do amanhã.

Por isso, a equipe multidisciplinar, com destaque para o assistente social, deve antecipar riscos e custos invisíveis. Já presenciei casos em que ele precisou achar quem cuidasse do cachorro de uma paciente, auxiliar durante uma longa internação. Coordenar a indicação terapêutica com os riscos sociais antes da emoção ditar as regras surge como uma medida urgente.

O papel das empresas

As empresas também fazem parte desse ecossistema e pagam uma conta que ainda não compreenderam inteiramente. Os planos corporativos sofrem reajustes anuais de 20% a 30% porque o sistema está estruturado para financiar a doença, não a prevenção.

Quando um colaborador é diagnosticado, a rotina corporativa frequentemente agrava o problema: ele é afastado, isolado e tratado como inválido. O que muitos gestores ignoram é que, em diagnósticos precoces, esse profissional tem plena capacidade funcional.

Um retorno gradativo e estruturado, com home office nos dias de maior fadiga, por exemplo, devolve à companhia um colaborador engajado e reduz o impacto sobre a previdência social.

Prevenção e diagnóstico precoce como antídoto

A melhor forma de mitigar a toxicidade financeira é a prevenção e o diagnóstico precoce. Por exemplo, um tumor colorretal detectado em fase inicial tem tratamento rápido, alta taxa de cura e impacto mínimo na rotina. O mesmo tumor, no estágio IV (mais avançado), representa longos afastamentos e um custo direto 40 a 100 vezes mais elevado.

Precisamos também discutir a jornada desde o início, sua duração, complexidade e custos potenciais. Isso é fundamental para que pacientes e famílias possam se planejar. Não se trata apenas de prescrever o melhor tratamento do ponto de vista técnico, mas de garantir que ele seja viável na vida real. Nesse contexto, o papel da equipe multidisciplinar é central.

Ignorar a dimensão econômica do câncer não é mais uma opção. Chegou a hora de trazer empresas e pacientes para o centro desse diálogo, com mais transparência, planejamento e responsabilidade compartilhada. A toxicidade financeira não aparece nos exames, mas influencia diretamente nos desfechos clínicos.

Fonte: Veja Saúde

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