Por que a incidência de câncer entre jovens adultos está aumentando?

Quando a chef de sushi Beatriz Suzuki começou a sentir os primeiros sintomas do câncer de intestino, ela não acreditou que pudesse estar com a doença. “Aos 22 anos, jamais imaginava que ia ter qualquer doença do tipo. Como o sangramento [ao evacuar] acontecia só de vez em quando, ignorei”, lembrou ela durante o XXVI Congresso Brasileiro de Oncologia Clínica (SBOC 2025).

Só aos 24 anos ela buscou investigar o problema, depois de começar a sentir fadiga e a perder peso sem motivo. Sem qualquer caso deste tipo de câncer na família, Beatriz foi diagnosticada aos 25, quando estava atuando como chef de buffet e à beira de encaixar de conseguir um estágio em um escritório de advocacia. A partir daí, sua jornada como paciente oncológica teve muitos desafios.

O caso de Beatriz reflete uma tendência global: dados internacionais indicam um aumento de quase 80% na incidência global de novos casos de câncer entre adolescentes e jovens adultos (de 15 a 39 anos) nas últimas três décadas, geralmente sem que tenham história familiar da doença.

São diversos os fatores de risco relacionados. “Estamos observando um retorno do tabagismo, com a utilização de cigarros eletrônicos e vape pela população jovem, que também está tendo acesso à ingestão alcoólica muito precocemente. Aliam-se a isso fatores como sedentarismo e obesidade, este último diretamente relacionado a 13 tumores, entre eles câncer de mama, de endométrio e de intestino”, afirmou a oncologista e Dr. Cristian Resende, um dos diretores da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC).

Comumente, os diagnósticos precoces de câncer em pessoas mais jovens são associados a fatores genéticos, como mutações nos genes BRCA1 e BRCA2, ligadas ao câncer de mama. No entanto, na maioria dos pacientes adolescentes e jovens adultos, os tumores não estão relacionados à predisposição genética. O tema foi destaque no primeiro dia do congresso.

Os chamados casos esporádicos de câncer, como o de Beatriz, ocorrem sem uma causa genética clara ou história familiar documentada da doença. Eles representam a maioria dos diagnósticos de tumores — de 85% a 90% do total.

Os tipos de câncer mais comuns

No Brasil, são quatro os tumores com maior incidência entre adolescentes e jovens adultos: câncer de mama, de colo de útero, de tireoide e colorretal. Dados apresentados no congresso da SBOC pela Dra. Beatriz de Camargo, ex-diretora de oncologia pediátrica do A.C.Camargo Cancer Center e pesquisadora do Instituto Nacional do Câncer (INCA), informam que, na última década, a incidência mediana de câncer nessa população foi de 23,4 por 100 mil habitantes no Brasil.

Relativamente aos quatro tipos mais comuns nessa faixa etária, estudos populacionais realizados na década de 2010 pelo INCA indicam que a incidência masculino/feminino de câncer colorretal varia de 4,8 a 9 por 1 milhão de habitantes. Em relação ao câncer de mama, a incidência mediana entre pessoas de 15 a 29 anos variou de 13,2 a 23 por 100 mil. Quanto ao câncer de colo de útero invasivo, foi de 3,6 por 100 mil em 2016.

“Os dados sobre o câncer de colo de útero refletem um período importante, que vai desde a ampliação da vacinação contra o HPV, em 2014, ainda no modelo de duas doses. Considerando que a primeira dose obteve apenas 50% de cobertura do público, é um número muito baixo”, avalia a Dra. Beatriz.

De fato, de acordo com a Universidade Aberta do Sistema Único de Saúde (UNA-SUS), até agosto de 2015, cerca de 2,5 milhões de meninas de 9 a 11 anos haviam sido vacinadas contra o HPV, o que representava 90,4% do público-alvo. Desde então, as taxas de cobertura vacinal contra o HPV no Brasil têm apresentado flutuações e algumas quedas significativas, intensificadas durante a pandemia de covid-19.

ara a Dra. Beatriz, entre os quatro tipos de câncer com maior incidência, o de mama é o mais preocupante. “Ele tem muita importância, porque é o mais agressivo, por isso o rastreamento está se antecipando. Antes [começava-se a] feito aos 50 anos e agora é feito aos 45. Sendo um câncer muito letal, diminuiu muito o risco de morte se detectado precocemente”, disse a oncologista pediátrica.

A recomendação atual do INCA e do Ministério da Saúde é que o rastreamento com mamografia seja iniciado aos 40 anos, especialmente para mulheres com maior risco.

Especificidades genéticas dos adultos jovens

Embora geralmente a maior parte dos casos de câncer sejam esporádicos (de 85% a 90%) e apenas 10% sejam mais associados a fatores genéticos, no caso de adolescentes e jovens adultos o fator hereditário pode alcançar um percentual um pouco maior – de até 12%.

“Para uma paciente jovem com câncer de mama, por exemplo, as chances de herança são muito maiores”, afirmou o Dr. Andreas Souza, membro do Comitê de Oncogenética da SBOC. “Esses casos podem ser relacionados a síndromes específicas, como a de BRCA, em que há de 30% a 50% de chance de desenvolver câncer de mama, além de até 20% nos seus ramos não solicitadores.”

Normalmente, os tumores hereditários são mais agressivos, com pior prognóstico e maior chance de metástase. “Uma das mutações mais conhecidas é a da síndrome de Lynch. Muitos não sabem que quando o gene BRCA está associado à reserva ovariana menor, o que faz com que essa paciente tenha menopausa mais precoce. Em função disso, é importante fazer diagnóstico precoce e, em alguns casos, realizar cirurgias redutoras de risco, como mastectomia profilática e retirada de ovários e trompas, tal como foi amplamente divulgado após o anúncio público da atriz Angelina Jolie”, explicou o médico.

Assim, a análise genética realizada todo paciente com diagnóstico de doença até os 35 anos, independentemente de história familiar, deveria fazer o teste genético para identificar mutações associadas ao câncer, segundo ele. “Hoje em nem sempre é possível identificar essas pessoas pela história familiar.”

“Eu tenho uma paciente com câncer de mama [diagnosticado] aos 28 anos, cuja mãe morreu aos 44 com câncer de mama bilateral. Ela tem oito casos de tumores hereditários com a doença. E atingem geneticamente tanto no encontro de câncer de mama, que esse teve índice de 100% de certeza! Não porque havia fator externo, mas porque essa paciente nasceu com a mutação, porque herdou”, disse o Dr. Andreas.

A oncologista enfatizou ainda as principais síndromes hereditárias em adultos jovens, as quais estão relacionadas a genes. Para o câncer de mama, estão as mutações nos genes BRCA1 e BRCA2; no de ovário, endométrio e pâncreas, nas síndromes de Lynch. Essas mutações podem representar 30% dos casos no Brasil. “Embora apenas de 8% a 12% dos tumores sejam associados a síndromes genéticas, há outras que ainda não são sabidas. Nesses índices, o percentual é de 30%, e estamos à frente da média mundial, que é de 12%”, afirmou o Dr. Andreas.

O câncer colorretal, por sua vez, está relacionado a mutações dos genes MLH1, MSH2, MSH6 e PMS2. E sabe também pode afetar três dos tumores de endométrio, ovário, estômago e intestino delgado.

Transição

“Para o câncer se desenvolver no adolescente ou no jovem adulto, é preciso que haja um fator de risco na infância que começa a atuar lá atrás. Quando um adolescente tem câncer aos 15 anos, por exemplo, ele traz o sedentarismo e a obesidade dessa infância inteira, porque o câncer não é assim imediato”, ressaltou a Dra. Beatriz.

Um dos principais entraves está na transição entre infância e adolescência, qual especialista procurar se houver suspeita de câncer?

“Estamos falando hoje de uma nova subespecialidade. Essa já era uma lacuna de décadas, porque há muitos adultos que pacientes que têm repercussões. Do ponto de vista biológico, não é o mesmo câncer da criança nem do adulto, embora tenha semelhanças. É um adolescente e ele precisa de acompanhamento específico, pois tem necessidades próprias e, no Brasil, ainda não há nenhum projeto no cuidado”, avaliou a Dra. Viviane Sonaglio, ex-coordenadora de Oncologia Pediátrica da Rede D’Or de São Paulo.

Há casos em que o adolescente ou jovem enfrenta dificuldades até para conseguir diagnósticos. “Hoje, na pediatria, quando o paciente é diagnosticado precocemente e chega na adolescência, ele já está mais estável para a transição. No entanto, se ele for diagnosticado mais tarde, especialmente entre os 18 e 20 anos, há um abismo assistencial. Precisamos de mais estudos para entender as especificidades desses jovens e conseguir oferecer um tratamento otimizado”, afirmou a Dra. Viviane.

Para a médica, é preciso conectar as práticas de diferentes áreas. “A oncopediatria e a oncologia clínica têm modelos diferentes de atendimento, sendo uma centrada na família e outra mais nos elementos do paciente. Então, a conexão entre elas será o modelo ideal”, conclui.

No Brasil, a Autorização de Procedimentos Ambulatoriais de Alta Complexidade (APAC) — documento eletrônico do SUS para registro de tratamentos de alta tecnologia e custo elevado — autoriza a oncopediatria a receber pacientes oncológicos com idade até 19 anos, às vezes podendo se estender mais. A partir dos 20, os pacientes são geralmente encaminhados para o atendimento oncológico adulto.

Ressignificando a doença

Assim que soube do câncer de intestino, a primeira coisa que a chef Beatriz fez foi abrir suas redes sociais e procurar alguém com o mesmo diagnóstico. “Não achei ninguém”, diz a paciente. “Quis esse pessoal pra me dar esperança, pra me inspirar, pra eu ter uma dúvida sobre o processo do tratamento? Durante todo o tratamento, eu segui sozinha, com o amparo de pacientes com outros tipos de câncer”, relembra.

Ela iniciou o tratamento em 2018, no Hospital de Câncer de Barretos (SP). Seu tumor, localizado no reto, foi descoberto após uma colonoscopia de rotina anual. “Quando acordei sedada, fiquei pensando como seria a minha vida dali em diante. Lembro que o médico explicou sobre a necessidade de retirar parte do intestino e fazer a bolsa de colostomia. Durante a recuperação, precisei mesmo suspender o tratamento quimioterápico, e daí veio a insegurança dessa pausa. Mas segui o tratamento e hoje posso me considerar uma paciente em remissão.”

Beatriz lembra que se chocou ao meio diálogo com as médicas por se referirem a ela como “jovem oncológica”. “Demorei para me enxergar assim, e só fui realmente entender o que significava quando comecei a conhecer outras pessoas e suas famílias. Eu criei um lema: estou aqui com grupo de pessoas reais, com histórias diferentes, mas todas com o mesmo objetivo de sobreviver com qualidade de vida”, diz a chef.

Em 2019, ela foi boda de ostomia, e fez a reversão e iniciou o processo de reabilitação, que, embora desafiador, trouxe de volta a autoestima e a segurança.

Outro paciente jovem sobreviveu ao câncer, o profissional de educação física e doutorando Thiago Nunes Nascimento, de 36 anos, mora em Uberlândia (MG) e é diagnosticado com câncer há 13 anos. “Meu primeiro diagnóstico foi aos 23 anos, com histórico familiar de doença. Tive metástase nos dois pulmões e na região do abdômen.”

Estava no auge dos sonhos, no início da faculdade e no serviço militar, já trabalhando em academia. De repente, fui impedido de seguir esses projetos. Naquele momento, fiquei com medo e achei que ia morrer", relembra. "Perdi massa muscular, me tornei frágil e dependente do alimentador, mas me reergui. A jornada do paciente oncológico envolve muitos sentimentos. Precisamos do apoio familiar, de estratégias nutricionais, apoio psicológico."

Após um ano de tratamento, entre a quimioterapia e algumas cirurgias, Isaac voltou para a faculdade, conseguiu se formar e se especializou em oncologia.

A maior ameaça da doença, lembra ele, era a interferência na sua capacidade reprodutiva, uma vez que precisaria se pel. Assim, antes mesmo de começar a quimioterapia, em 2008, decidiu congelar o sêmen. "Durante a quimioterapia, pode acontecer de ficar infértil", diz. "Então, preservamos esse material e pacientes jovens e meus clientes, que querem manter esse sonho ativo, que é possível. Basta a orientação médica."

Por meio da fertilização in vitro, Isaac é hoje pai de um menino de três anos. Conhecido nas redes sociais como Isaac Wellness, ele fundou o Clube Oncológico, programa online voltado para a reabilitação de pacientes que estão em tratamento contra o câncer.

Fonte: Medscape

 

 

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