O que muda com o novo consenso internacional sobre câncer de pulmão

Apesar dos avanços acumulados na última década, o câncer de pulmão ainda é a principal causa de morte por neoplasias no mundo. Embora a sobrevida tenha melhorado de forma consistente em países de alta renda, cerca de 70% das mortes ainda ocorrem em nações de baixa e média rendas, onde o diagnóstico tardio, a baixa incorporação de biomarcadores e o acesso desigual a tratamentos inovadores continuam a limitar o impacto real do progresso científico.

É nesse contexto que o consenso internacionalGlobal advances and future directions in lung cancer care: expert consensus and strategic priorities, publicado no periódico ESMO Open, propõe não apenas uma atualização conceitual, mas uma mudança concreta na forma como o cuidado do câncer de pulmão deve ser organizado, da prevenção ao tratamento avançado.

Resultado das discussões do New York Lung Cancer Foundation Summit 2025, o documento reúne especialistas de diferentes continentes e explicita um diagnóstico incômodo: hoje, o principal obstáculo para o cuidado do câncer de pulmão não é a falta de evidências científicas, mas a dificuldade de transformar esse conhecimento em decisões clínicas efetivas, oportunas e acessíveis. Diferentemente de consensos anteriores, o texto não se limita a revisar evidências ou atualizar recomendações, mas organiza essas lacunas em prioridades operacionais, explicitando o que precisa mudar para que o avanço científico se traduza em impacto clínico real.

Na avaliação da presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), Dra. Clarissa Baldotto, esse deslocamento de foco é central para compreender o momento atual da oncologia torácica. “O consenso evidencia que as maiores barreiras hoje não são científicas, mas estruturais. No Brasil, temos regiões com acesso à medicina de precisão e outras onde o diagnóstico ainda é tardio e incompleto”, afirma ela, que também é membro da European Society for Medical Oncology (ESMO).

Para a Dra. Clarissa Mathias, oncologista da Oncoclínicas, líder do Cancer Center Santa Izabel e uma das participantes da elaboração do consenso, o papel do Brasil nas discussões foi justamente o de evidenciar os dilemas de países de renda média. “O processo de construção do documento envolveu a análise de casos concretos e o esforço de alinhar estratégias que pudessem ser adaptadas a realidades muito distintas, sem perder de vista a equidade de acesso. Essa perspectiva ajudou a deslocar o debate do que funciona em cenários ideais para o que pode ser implementado de forma responsável em sistemas de saúde heterogêneos”, diz.

Por que o rastreamento só funciona junto da linha de cuidado

Um dos pontos mais enfatizados no consenso é o rastreamento do câncer de pulmão com tomografia computadorizada de baixa dose. Atualmente, programas de rastreamento estão ativos em mais de 40 países, com taxas de falso-positivo inferiores a 5% em iniciativas maduras e clara antecipação do diagnóstico para estágios potencialmente curáveis.

A mudança prática, porém, está menos no exame em si e mais no modelo de implementação. O documento é categórico ao afirmar que o rastreamento só reduz mortalidade quando integrado a uma linha de cuidado contínua, que inclua definição da população-alvo, financiamento do rastreamento e do manejo subsequente, acesso ao diagnóstico confirmatório e início oportuno do tratamento. Sem essa estrutura, o rastreamento perde impacto clínico. Essa ênfase na implementação marca uma diferença relevante em relação a consensos anteriores, que abordavam o rastreamento predominantemente sob a ótica da eficácia do exame, e não da organização do cuidado necessária para que ele funcione na prática.

Na avaliação da Dra. Clarissa Baldotto, esse é um dos pontos mais sensíveis para a realidade brasileira. Embora o país disponha de centros tecnicamente capacitados para realizar rastreamento e diagnóstico, ainda há grande dificuldade para implementar essa estratégia de forma organizada e equitativa, especialmente no Sistema Único de Saúde (SUS). “Sem uma linha de cuidado, o rastreamento perde impacto. Não se trata apenas de detectar um nódulo, mas de garantir acesso ao diagnóstico confirmatório e ao tratamento em tempo oportuno”, ressalta.

Essa lógica sistêmica se estende ao diagnóstico molecular. O consenso defende a testagem molecular ampla e reflexa como pré-requisito para decisões terapêuticas adequadas, uma vez que escolhas feitas sem o conhecimento do perfil molecular do tumor tendem a gerar menor eficácia clínica e desperdício de recursos, além de expor pacientes a tratamentos caros e potencialmente inadequados. Ao tratar a testagem como parte estrutural do fluxo assistencial e não como etapa opcional ou tardia, o documento apresenta uma mudança significativa em relação a diretrizes anteriores.

Na prática, isso significa deslocar a biologia molecular do momento da progressão para o início do fluxo diagnóstico, inclusive em doença inicial. A incorporação de terapias-alvo adjuvantes e a seleção adequada de pacientes para imunoterapia dependem diretamente dessa informação.

No Brasil, porém, a incorporação plena dessa estratégia ainda esbarra em múltiplos entraves. Persistem barreiras de financiamento, desigualdades regionais no acesso a laboratórios capacitados e dificuldades de interpretação dos testes por parte de alguns profissionais. “Não testar hoje um paciente com câncer de pulmão significa oferecer um tratamento menos eficaz, muitas vezes de alto custo, com resultados ruins não só do ponto de vista econômico, mas principalmente para o paciente”, afirma a Dra. Clarissa Baldotto. Levantamentos recentes indicam que mesmo entre oncologistas ainda há incertezas na leitura e aplicação clínica dos resultados moleculares, reforçando a necessidade de formação continuada e padronização dos fluxos diagnósticos.

Doença inicial e estágio III: sequência terapêutica importa mais do que ações isoladas
Uma das mudanças mais relevantes para a prática clínica no consenso é a consolidação de estratégias neoadjuvantes e perioperatórias com imunoterapia e quimioterapia em câncer em estágios iniciais e localmente avançado ressecável. Ensaios clínicos randomizados recentes demonstraram ganhos consistentes tanto em sobrevida livre de eventos quanto em desfechos intermediários clinicamente relevantes, como resposta patológica completa, além de consolidarem o uso de terapias-alvo adjuvantes em tumores com drivers moleculares específicos.

Esses dados sustentam a recomendação de que a cirurgia isolada deixou de ser suficiente para uma parcela relevante dos pacientes com doença inicial. Embora essas evidências já estivessem disponíveis, o consenso consolida de forma inédita a ideia de que a sequência terapêutica — e não apenas a intervenção isolada — deve orientar a tomada de decisão desde o diagnóstico, exigindo planejamento multidisciplinar precoce.

Essa mesma lógica de sequência e reavaliação se aplica a doença em estágio III. O consenso redefine a ressecabilidade como um conceito dinâmico, passível de reavaliação ao longo do tratamento. Dados apresentados no documento indicam que estratégias de conversão cirúrgica podem tornar operáveis até 70% a 80% dos pacientes com tumores inicialmente considerados irressecáveis, desde que avaliados em centros experientes e com reavaliações sistemáticas após resposta ao tratamento sistêmico.

Na prática brasileira, essa flexibilidade ainda é pouco incorporada. Como observa a Dra. Clarissa Mathias, muitas decisões continuam sendo tomadas de forma estática, no início do tratamento, sem reavaliações estruturadas ao longo do cuidado. “Para que a ressecabilidade se torne uma decisão revisável, seria necessário fortalecer a atuação de equipes multidisciplinares e estabelecer protocolos claros de reavaliação baseados na resposta ao tratamento”, afirma.

Desigualdade como variável clínica e o desafio de implementar o que já funciona

O DNA tumoral circulante detectável no sangue (DNAct) e a avaliação de doença residual mínima aparecem no consenso como ferramentas promissoras para guiar escalonamento ou descalonamento terapêutico, especialmente em doença inicial e perioperatória. 

Embora o valor prognóstico dessas estratégias já esteja bem estabelecido, o documento reconhece que sua aplicação clínica ainda é limitada e, em muitos contextos, permanece restrita à pesquisa. No Brasil, a adoção ocorre de forma pontual, concentrada em poucos centros, o que reforça o alerta de que a incorporação fragmentada de inovações, sem a estrutura completa prevista, pode gerar custos elevados sem benefício proporcional ao paciente.

Esse descompasso entre inovação disponível e capacidade de implementação não é exclusivo do DNAct. Ao longo de todo o documento, a desigualdade deixa de ser tratada como pano de fundo e passa a ser reconhecida como determinante direto de desfechos clínicos. Ao incorporar dificuldades de acesso e implementação e disparidades como elementos centrais e não periféricos, o consenso sinaliza uma mudança de paradigma em relação a documentos anteriores. 

Para a Dra. Clarissa Baldotto, esse talvez seja o ponto mais contundente do texto. “Reduzir desigualdades não é mais uma agenda paralela, é parte central do avanço em oncologia”, afirma. No Brasil, isso implica dialogar com gestores, reguladores e sociedade civil para evitar a coexistência de “várias oncologias”, uma altamente tecnológica e outra limitada a abordagens tardias e menos eficazes.M

Fonte: Medscape

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