Câncer de pâncreas: mais comum que antes, entenda por que ele é desafiador

Já reparou que estamos a ouvir falar cada vez mais de cancro do pâncreas? Vejam só o último fim de semana. Na sexta-feira, dia 6, doença levou o jornalista André Miceli, apresentador da Jovem Pan. No sábado, o ator Leandro Lima, no ar em “Três Graças”, da Globo, revelou que tinha um tumor. De madrugada deste sábado, porque pai tem este tumor. Devi ainda a grande mensagem sobre a importância de não ignorar a perda de peso sem motivo, que é um dos sintomas. E no domingo, um cancro no pâncreas foi a causa da morte do ex-ministro Raul Jungmann.

No ano passado, soubemos que o guitarrista dos Titãs e escritor Tony Bellotto e a chef de cozinha Edu Guedes receberam o mesmo diagnóstico — ambos tratados e aparentemente a passar bem agora.

Mas o que estará a acontecer para um cancro de que mal ouvíamos falar no passado, de repente, se tornar uma figurinha comum nos noticiários?

O oncologista Paulo Hoff, que é professor catedrático da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) e presidente da Oncologia D’Or, consegue apontar duas explicações. “Uma delas é que há, de facto, um crescimento da incidência de cancro do pâncreas nos últimos tempos. Mas não se pode afirmar conclusivo”, considera. Ou seja, tanta notícia de gente conhecida com esta doença concentrada apenas nos últimos dias não deixa de ser uma terrível coincidência.

O país espera, de acordo com dados do Inc (Instituto Nacional de Cancro), 11 mil novos casos este ano. E isso significa um aumento de 15% em relação ao que acontecia há 20 anos. Esta diferença, segundo o professor Hoff, deve-se ao facto de o diagnóstico da doença também ter aumentado. “É difícil medir, mas antes havia mais pessoas com este cancro que, sem exames, definhavam e morriam de causa não muito estabelecida”, conta. Por outras palavras, morriam devido ao pâncreas, sem saber.

A segunda explicação do médico é que os tratamentos andaram mais eficientes. “Com isso, embora a letalidade continue elevada, encontramos mais indivíduos a viver mais tempo com a doença e eles juntam-se a quem acaba de descobrir o tumor, dando essa impressão nas pessoas de que está muito grande prevalência”, pensa. Mas reconhece a razão de termos reparado a ouvir falar do assunto: “Esta é uma das doenças mais difíceis de tratar em oncologia."

Crescimento silencioso

Está a ver a imagem desta coluna? As “bolotas” que aparecem a roxo são células malignas do pâncreas, com uma superfície irregular — ora, não se pode esperar a perfeição, como todo o cancro, se multiplicam depressa e de qualquer maneira — e formando grupos desorganizados, uma aqui, três ali… Um dos problemas é que surgem a sorrateiras.

“Quando o cancro do pâncreas dá sintomas, já está muito avançado”, afirma o professor Paulo Hoff. Uma das pistas mais comuns é a icterícia, isto é, a pessoa vai ficando com a pele e os olhos amarelados. Isto porque ficam obstruídos os canalículos, pigmento amarelo que sobra quando o fígado se rompe e excreta os glóbulos vermelhos envelhecidos. A molécula amarela seria deitada fora com a bílis, mas por vezes um tumor do pâncreas já grande comprime o canal que despejaria esse suco digestivo da vesícula para o intestino.

Outro sintoma é uma dor profunda. Ela não vai e volta. Fica, provocando uma sensação de aperto ou ardor na parte superior do abdómen que se piora, irradiando pelas costas e, por vezes, incomodando a zona lombar, lá em baixo.

A perda de peso que acontece de nada é outro sintoma. O professor Hoff explica: “O pâncreas é um órgão ligado à digestão, quando tem um cancro, altera a produção de enzimas que afetam o aproveitamento dos alimentos numa tentativa, não muito racional, de eliminar a fonte de energia e segurar o crescimento do tumor.”

A digestão das gorduras, por exemplo, fica prejudicada. Com isto, o próprio estômago demora mais tempo a esvaziar-se e a fome desaparece com a sensação de barriga cheia. “Além disso, pode acontecer a caquexia, uma condição que vemos em vários tipos de cancro e que, especificamente no do pâncreas, é frequente.”

Na caquexia, o cancro liberta substâncias que mexem com o metabolismo e fazem com que o organismo consuma músculo e gordura para obter energia, mesmo que a pessoa esteja a alimentar-se. Resultado: o corpo definha.

“Por fim, um sintoma mais raro de cancro do pâncreas são as tromboses inexplicadas”, conclui o oncologista. É como se o tumor fizesse o sangue formar coágulos por qualquer disparate ou até mesmo sem motivo.

Não tem como rastrear

A localização do pâncreas não ajuda em nada. Os exames de imagem feitos de rotina, como a ecografia, não visualizam o pâncreas, que está escondido atrás do estômago e, para além disso, muitas vezes está “sob a sombra do fígado”, diz o professor. Nem a TAC acusa algo de estranho se o cancro é pequeno. “Os marcadores para esta doença também não são muito bons”, lamenta o professor Hoff. Tudo empurra para o diagnóstico tardio.

Pergunto, então, quem deveria ficar ainda mais esperto perante os sinais de um possível cancro do pâncreas. O oncologista enumera: “Quem tem obesidade ou sedentarismo; come carne ou gordura; a obesidade aumenta a resistência à insulina e, digamos, força a barra do pâncreas, obrigando-o a trabalhar para além da conta. Existe, inclusive, uma associação entre a diabetes tipo 2 e o risco aumentado desta doença maligna.

Além disso, segundo o professor Hoff, o tabagismo é um dos principais fatores de risco. Quando pensamos em cigarros, logo lembramos dos pulmões. Mas estão longe de ser vítimas isoladas. Pâncreas sofre — e muito — com as substâncias maléficas do tabaco.

Há fatores genéticos específicos que podem estar na origem do aparecimento de um tumor destes e pessoas com antecedentes de cancro em família, como mutações nos genes BRCA — aqueles de que ouvimos sempre falar quando o assunto é cancro da mama — poderiam ficar mais ligadas. “No entanto, apenas a minoria dos casos tem a ver com a genética”, informa o professor.

Porque é um enorme desafio

Não bastasse o diagnóstico tardio, que dificulta o tratamento de qualquer cancro, as células malignas do pâncreas são particularmente fininhas. “Elas são resistentes à quimioterapia. E, infelizmente, ainda não contamos com esse tratamento convencional quando o tumor já não está mais localizado”, conta o professor Hoff. “Ainda não existe terapia dirigida, nem imunoterapia para o cancro do pâncreas.”

Muitas vezes, quando um caso é detetado, um tumor de facto ainda não se espalhou pelo organismo, no fenómeno das metástases, mas é que os médicos mudam de “localização”. Por outras palavras, embora ainda não tenha saído do território de origem, é um bocado grande, espalhando em vasos importantes que por ali passam, como a artéria esplênica, que irriga o baço, o estômago e o próprio pâncreas. A ameaça de problemas é grande e a cirurgia, não raras vezes, torna-se inviável.

Já para não falar de uma triste ironia: “Os tumores na cabeça do pâncreas tendem a apresentar sintomas mais cedo, quando ainda são mais pequenos, só que esta região é difícil de operar”, conta a oncologista. Ora, esta parte mais larga e à direita do órgão, mesmo atrás do estômago, encaixa-se praticamente no duodeno. “Já os tumores do corpo, que é a parte central do pâncreas, e da cauda, seriam mais fáceis de operar se não fosse a sua localização; a doença apresenta sintomas tardiamente, quando já avançou bastante.”

Mudanças de cenário

Apesar da resistência das células doentes aos quimioterápicos, hoje existem fármacos um pouco mais eficientes e os resultados são ainda melhores quando são combinados à cirurgia.

Também surgiram novas técnicas. “Na Oncologia D’Or, temos a eletroporação, também conhecida por Nanoknife”, explica o professor Hoff. “Nela, passamos uma corrente elétrica que atinge regiões do pâncreas que, antes, eram impossíveis de serem alcançadas pelo bisturi em segurança. Esta corrente cria poros nas membranas celulares. As membranas saudáveis conseguem fechá-los. Mas as células doentes, não. Então, morrem.” Esta é uma opção de tratamento quando o cancro do pâncreas está localizado. Outra é a radioterapia, que foi feita de radiação externamente preciso e destrói o tumor.

De qualquer modo, o doente ainda faz seis meses de quimioterapia para caçar alguma célula maligna que, por azar, tenha escapado a estas tecnologias ou à cirurgia convencional.

Avanços como este permitem uma maior sobrevida e, sim, pode acontecer a cura. O professor Paulo Hoff já viu doentes livrarem-se do tumor do pâncreas. “Difícil nunca quis dizer impossível”, faz questão de recordar.

Fonte: Viva Bem UOL

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