Além dos avanços científicos, valorização do estilo de vida também redefine o cuidado com o câncer de mama

A última edição do San Antonio Breast Cancer Symposium (SABCS), o maior congresso mundial dedicado ao câncer de mama, realizada em dezembro de 2025, trouxe importantes novidades em medicamentos, estratégias de tratamento e dados sobre eficácia, segurança e impacto clínico. Mas também foi possível observar uma tendência que vem se consolidando nesses grandes eventos: um olhar cada vez mais humanizado para a paciente.

Além das inovações científicas fundamentais para o avanço do cuidado, o simpósio abriu espaço para compreender melhor as necessidades das mulheres e discutir como o estilo de vida influencia a prevenção, o tratamento e as taxas de sobrevivência. Durante o evento, diversas pacientes participaram de debates, compartilhando experiências que ajudam a entender como os tratamentos afetam sua rotina e qualidade de vida.

Prevenir o câncer de mama envolve escolhas feitas todos os dias, como foi debatido no congresso. O consumo de álcool é um exemplo claro disso. Qualquer quantidade de álcool representa uma exposição, e o risco não depende apenas da frequência. A forma como se bebe também importa. Episódios de consumo elevado em curto período de tempo fazem parte desse contexto.

Esse padrão é especialmente comum em fases mais jovens da vida. Festas frequentes, open bar, comemorações sucessivas e momentos em que o consumo elevado é socialmente incentivado costumam ser vistos como transitórios e sem consequências. No entanto, essas experiências não ficam restritas às memórias pessoais. Elas compõem a história de exposição do organismo e se somam ao longo dos anos, influenciando o risco futuro de várias doenças.

Escolhas feitas no cotidiano importam
Para o câncer de mama, esse risco  se mostrou mais evidente com o consumo elevado de bebidas alcoólicas, acima de uma a duas doses diárias. Escolhas cotidianas, portanto, podem ter impacto ao longo da vida, inclusive no risco de desenvolver câncer de mama em suas formas mais agressivas.

O excesso de peso também entra nessa conta. A obesidade altera o equilíbrio hormonal, especialmente após a menopausa, e quando se soma a outros fatores, como o consumo regular de álcool, aumenta ainda mais o risco de desenvolver câncer de mama.

A alimentação equilibrada, por outro lado, é uma aliada poderosa. Vegetais crucíferos como brócolis, couve, couve-flor, repolho, rúcula e agrião ajudam a regular processos inflamatórios e metabólicos envolvidos no desenvolvimento tumoral. Como sua mãe provavelmente dizia, coma as suas verduras no prato. Esse conselho simples, que atravessou gerações, encontra hoje sólido respaldo científico.

Conforme apresentado no congresso, mulheres que consomem esses vegetais entre cinco e seis vezes por semana apresentam menor risco de câncer de mama, inclusive em suas formas mais agressivas. Essas escolhas diárias se articulam com fatores genéticos e com os diferentes tratamentos disponíveis, demonstrando que a prevenção e o manejo do câncer de mama exigem uma abordagem integrada.

Novas perspectivas para o tratamento
As discussões durante o SABCS mostraram que a avaliação genética se consolidou como uma aliada importante para tornar o tratamento mais individualizado. Por meio desses exames, é possível identificar mulheres que apresentam alterações em genes específicos, como o BRCA, envolvidos nos mecanismos que fazem o reparo do DNA das células.

Quando esses genes estão alterados e não funcionam como deveriam, as células acumulam danos e passam a depender de outras formas menos precisas para continuar vivas e se multiplicar. Mas aquilo que parece apenas uma falha do tumor acaba se tornando também o seu ponto fraco e o alvo para tratamentos mais direcionados.

Foram apresentados resultados animadores para mulheres com tumores iniciais e mutação no gene BRCA. Esta mutação se tornou mais famosa após a atriz Angelina Jolie divulgar que era portadora da alteração. O uso do medicamento olaparibe antes da cirurgia da mama, mesmo sem quimioterapia, levou a taxas elevadas de resposta completa, situação em que, após o tratamento, não se encontra mais célula cancerígena no material retirado na cirurgia.

Esse resultado foi observado em cerca de 68% dos tumores de menor risco e em aproximadamente 80% dos casos de maior risco, quando o medicamento foi associado à imunoterapia, um tipo de tratamento que atua estimulando o próprio sistema imunológico a reconhecer e combater as células do câncer. Embora essa estratégia ainda não faça parte do tratamento padrão, os resultados são promissores e reforçam a importância de personalizar o cuidado para cada paciente.

Em mulheres já operadas de câncer de mama, o tratamento adjuvante (feito após a cirurgia) busca reduzir o risco de recorrência e aumentar as chances de cura. Tradicionalmente, pacientes com tumores do tipo luminal (que possui receptores de estrogênio e/ou progesterona e não tem a proteína HER-2 em excesso na superfície das células cancerosas) utilizam terapias hormonais como tamoxifeno ou inibidores da aromatase (como anastrozol, letrozol e exemestano), que são eficazes, mas frequentemente associados a efeitos colaterais que impactam a adesão.

Nesse contexto, o estudo LIDERA avaliou o giredestranto, um SERD (classe de terapia) oral que bloqueia e destrói o receptor de estrogênio, mostrando uma redução de cerca de 30% no risco de recorrência, com menor incidência de sintomas como dores articulares e rigidez muscular em comparação com os tratamentos hormonais clássicos. Isso se traduziu em maior conforto e menor impacto na rotina diária.

Durante o congresso, destacou-se o uso dos anticorpos droga-conjugados, uma classe de medicamentos que combina um anticorpo específico a uma droga quimioterápica, permitindo que o tratamento atinja preferencialmente as células tumorais. Assim como no Cavalo de Troia, em que algo aparentemente inofensivo consegue entrar na fortaleza antes de revelar sua verdadeira função, o medicamento é levado até o interior da célula do câncer e só então libera sua ação.

Entre eles, o trastuzumabe deruxtecana (T-DXd) tem papel central no tratamento do câncer de mama HER-2 positivo e HER-2 baixo, mantendo eficácia mesmo em doença avançada e com impacto limitado na qualidade de vida, especialmente quando combinado ao pertuzumabe. Estudos mostraram que cerca de 87% das pacientes relataram nenhum ou apenas leve desconforto com o tratamento.

No controle da doença metastática, as terapias de manutenção também se mostraram fundamentais. O tucatinibe, em combinação com outros tratamentos anti-HER-2, prolonga o controle da doença com poucos efeitos colaterais. Já o palbociclibe, que atua na divisão celular, ajuda a manter o câncer sob controle por mais tempo e reduz o risco de metástases cerebrais quando associado à terapia hormonal e a outros bloqueadores do HER-2. O palbociclibe está disponível no Brasil inclusive em forma genérica. O tucatinibe deve chegar ao Brasil este ano ainda.

Os debates feitos por especialistas do mundo todo nesse encontro de dezembro comprovam que, com o avanço científico, é possível garantir melhores desfechos e, cada vez mais, qualidade de vida para as pacientes com câncer de mama. O desafio continua sendo fazer com que as inovações cheguem a mais mulheres brasileiras, já que a maioria destes novos medicamentos ainda não está disponível no SUS.

Fonte: The Conversation

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