Permanência

Recebi o diagnóstico de câncer de mama enquanto ainda amamentava o meu filho caçula. Em meio às mamadeiras, noites mal dormidas e rotina intensa de cuidar de três filhos, veio uma notícia capaz de desmontar qualquer chão: a doença já havia chegado no fígado e nos ossos.

De repente, eu que estava vivendo o puerpério precisei aprender o significado de palavras difíceis demais para alguém só deveria estar escolhendo roupinhas, organizando horários e tentando sobreviver ao cansaço da maternidade: Metástase, Tratamento paliativo, Quimioterapia, Exames. Incertezas.

Muita gente acredita que cuidados paliativos significam desistência. Mas para mim é exatamente o contrário. Há 13 anos, transformo cada dia em resistência. Treze anos de consultas, medicações, dores silenciosas, recomeços e adaptações. Treze anos conciliando o papel de paciente com o papel que nunca deixou de existir: mãe.

Vi meus filhos crescerem enquanto também eu aprendia a crescer dentro da minha própria dor. Participei de aniversários que, talvez muitos acreditassem que não veria. Aplaudi conquistas escolares, dei conselhos, enxuguei lágrimas e continuo sendo colo, mesmo quando também preciso desesperadamente de um.

O câncer mudou muitas coisas em minha vida, mas não roubou minha capacidade de amar, de lutar e de existir além da doença. Porque por trás dos protocolos, exames e estatísticas, existe uma mulher inteira. Uma mulher que segue vivendo apesar do medo, apesar das limitações e apesar de um diagnóstico que, há 13 anos, parecia definir um tempo muito menor.

Minha história não é sobre “vencer” o câncer no sentido romantizado que costumam impor aos pacientes oncológicos. Minha história é sobre permanência. Sobre continuar vivendo mesmo quando a vida muda completamente de direção. Sobre encontrar sentido nos dias comuns, mesmo carregando um tratamento contínuo e paliativo.

E talvez essa seja uma das formas mais profundas de coragem: seguir vivendo quando ninguém consegue prometer o amanhã, mas ainda assim escolher amar, cuidar, sorrir e permanecer presente.

Vanessa Costa, bióloga, integrante do Comitê de Pacientes Oncoguia, mãe do Gabriel, da Luisa e do Heleno.

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