Herança

Era um domingo como outro qualquer, fazendo comidinhas de domingo, como meu marido costuma chamar: galinha caipira cozida, purê de batatas e macarronada. Ah, e como lembrei dos almoços de domingo, na época de infância! Minha mãe costumava fazer salada de maionese, galinha e macarronada. Sim, a minha mãe saída do sertão tinha aprendido a fazer macarronada em São Paulo. Refletindo sobre isso e lembrando de um documentário que assisti recentemente falando sobre a introdução da comida italiana nos Estados Unidos, por exemplo, demorou para ser incorporada pelas famílias, diferente daqui do Brasil. Se pensarmos que há cem anos, 71% da população de origem italiana estava no Estado de São Paulo, isso explica muita coisa: culinária, sotaque, costumes. 

Mexendo a galinha caipira na panela, olho as minhas mãos. Mãos que lembram as de minha mãe, veias protuberantes, algo que eu quando criança me entristecia daquele aspecto tanto nas mãos como nos pés. Hoje, a menina aqui agradece as veias fáceis de achar (e os enfermeiros também). Os pés com veias saltadas diziam, eram de tanto eu correr e pular corda. Hoje olho e são a única semelhança física com dona Maria, minha mãe. 

A mulher do sertão que tinha mãos macias, do olho castanho esverdeado como os do avô dela e como os de meu filho. Uma mulher bonita para sua época, vaidosa dentro do que ela dispunha; óleos vegetais para os cabelos ficarem macios, especificamente o de mamona, que também besuntava os meus cabelos “fuá” para ficarem lisos, iguais os de minha prima. Enfim, aquela fala carregada de um racismo que foi reproduzido desde os antepassados, afinal era o que se dizia “cabelo bom e cabelo ruim”. Ela, de cabelos ondulados e longos, sempre a retocar a raiz do cabelo que insistia embranquecer aos quarenta. Eu, ainda menina, ficava com essa missão de cabeleireira oficial. Várias vezes ouvi elogios sobre a beleza da minha mãe que se achava queimada do sol e magra demais_ ela tinha 1,58 m e 60 kg. Praticamente no peso ideal, porém para ela que viveu em outra época, em que magreza era sinônimo de doença e fome, aceitar o que o mundo hoje acha bonito era inaceitável. Eu mesma, pra ela fiquei mais bonita quando minhas “saboneteiras”¹ desapareceram em meio ao colo mais gordinho.

E revisitando essas lembranças, sejam no pensamento ou nas diversas fotografias que eu ainda menina adorava ver, a lembrança dos momentos dos almoços de domingo, eu menina com meus irmãos mais velhos já noivos ou casados, meu primo que morava conosco também noivo. Épocas de máquinas analógicas, onde um filme era adquirido e guardado a sete chaves para registrar a arrumação da mesa, o café da manhã, aquele passeio à Aparecida, depois as fotos dos sobrinhos e, rezando para que nenhum registro fosse perdido. Era tudo mais difícil, mas a gente tinha essas lembranças palpáveis, a mão. 

Sempre fui uma apaixonada por história, por história das pessoas “Eu enquanto educadora” hahhahaha. Olho as fotos antigas, de pessoas que foram nossos vizinhos, alguns que já faleceram como meus pais e penso: _ Quando eu não estiver aqui, será que os meus filhos, meus netos vão saber quem são ali, será que nossas almas não ficarão perdidas e esquecidas tal qual o avô de Miguel Rivera, da animação da Disney “Viva a vida é uma Festa”? Para tanto, eu venho contando histórias, revisitando, escrevendo, pensando até em deixar registrado digitalmente, para que as gerações futuras da família Evangelista da Silva, saibam de onde vieram e pra onde vão. 

Herança maior pra mim não há: lembranças, legado, exemplo a seguir. E você, qual a herança que você quer deixar para os seus?

Marta Maria da Silva a filha de Dona Maria e de Seu Estevão, que apesar de ter nascido numa família de gente que não sabe abraçar, sabe que foi amada e quer passar esse amor por onde vá, membro do Comitê de Pacientes do Instituto Oncoguia. 

¹- saboneteira- osso da clavícula

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