Talvez você também precise descansar
Despertador! Acorda rápido. Olha o celular. Ele inaugura uma sequência de urgências: notificações, mensagens, prazos, compromissos. Café! E-mais. Mais café. Já deixou de ser pausa, virou combustível. Deu a hora. Fim da aula. Busca na escola, isso não espera. Almoço. E o combinado? Desculpas. Post atrasado. “Não se preocupe, a gente anda tão acelerada”. “Vamos descansar, promete?”
A constatação não é individual. Ela reflete um padrão coletivo, especialmente entre nós mulheres. Nesse contexto, descanso ainda é luxo, eu sei. E já aviso, vamos precisar andar na contramão, mais uma vez, e trazer o descanso para o lugar de necessidade e não mais de privilégio.
Dados do IBGE confirmam o que a gente já sabia. As mulheres dedicam quase o dobro do tempo dos homens às multitarefas e ao cuidado de outras pessoas. Isso significa menos tempo livre, menos possibilidade real de descanso, piora da qualidade do sono e sobrecarga mental. Do ponto de vista da saúde, a privação de descanso adequado tem impactos físicos e emocionais relevantes.
No contexto do tratamento oncológico, o cansaço não é apenas uma sensação passageira, é uma fadiga profunda, reconhecida pela medicina, que atravessa o corpo e a mente. É cansativo ter câncer. Tudo cansa. Exames, tratamento, acompanhamento. Descansar passa a ser necessidade, ainda que contrarie o ritmo externo.
E você que me lê, anda exposta a tantos padrões inatingíveis de descanso, que pode precisar ressignificar o descansar. Aquela imagem da blogueira na Europa parece o nível pleno e perfeito do descanso. Mas, antes que a gente se compare, pausar de verdade exige intenção. Dormir até acordar, sem despertador, reduzir estímulos, silenciar notificações, desconectar, desacelerar o ritmo da respiração. Tomar café com calma, sentindo o gosto, e não só para aguentar tanto esforço. Olhar mais para o céu e menos para o cel.
Nesse processo, a natureza surge como uma aliada acessível, trazendo uma boa dose de remédio que eu chamo de “tarja verde". Pode ser perto de casa, praças, árvores, caminhadas simples. Os pets ajudam nessa hora. Nos forçam gentilmente a caminhar com eles. Minha Meg, que está fazendo 14 anos, senta e contempla. Do seu jeito teimoso e com sua pedagogia silenciosa, se recusa a apressar o que não precisa. É quando ela usa toda a força do seu corpo e trava, toda vez que eu insisto em voltar rápido para casa. Como quem diz: “Calma! Sinta essa brisa. Olhe em volta. Isso faz bem”.
Parar não é falhar. O descanso é um princípio, é um passo importante para reorganizar prioridades. Parar é parte do próprio funcionamento saudável da vida. Descansar também é um ato de resistência numa sociedade que valoriza a exaustão. Pode não ser possível mudar toda a rotina de uma vez. Vá aos poucos. Faça o que der. Porque se vamos seguir cuidando, guiando e acolhendo, o descanso será cada vez mais urgente e necessário. Se cuida! ♡
Quézia Queiroz é Jornalista, Voluntária do Oncoguia, e já entendeu que precisa de pausas e “tarja verde" para seguir guiando e acolhendo pacientes com câncer Brasil à fora.
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