Metrô
Em mais uma de minhas idas à capital baiana, embarco no metrô. Observo aqueles que entram e saem a cada estação. Pessoas ali recostadas, com mochilas postas à frente, olhar cansado, celular as mãos. Mulheres que vejo muitas vezes com a touquinha a ser usada em restaurantes ainda no cabelo, crachá por vezes pendurado ou vestida com seu blazer azul e sandálias havaianas_ é, a mulher muitas vezes entre as correrias, vai “como dá”. Só em casa, ou muito depois, se atenta de estar com aquilo que lhe identifica como vendedora de sua força de trabalho neste mundo capitalista.
Eu mesma em vinte e poucos anos de trabalho, passei pelo menos 6 anos sem tirar férias de trinta dias e, conforme a tecnologia vinha chegando naquela cidade que o uso da internet ainda era via discada _contas caríssimas de telefone a Prefeitura pagava, era absorvida por mais e mais demanda de trabalho. Parece ironia, mas quanto mais tecnológicos, menos tempo e mais trabalho tivemos. Era aquela do “deixa que eu faço” e fui engolida pelas demandas... Vida lá fora não existia, tempo pra me cuidar ou estudar, somente aos finais de semana. Mas, até aí, era solteira, e depois do casamento e da maternidade, o peso de um sábado letivo era terrível, porque o sábado era pra arrumar a casa, lavar roupa, adiantar as refeições da outra semana!
O que facilitava o meu trabalho era morar numa cidade pequena, onde tudo era perto; dependi de transporte para trabalhar por pouco tempo, e foi duro demais pra mim. Longas distâncias, dificuldades de comunicação durante as horas de trabalho. Qualquer intercorrência com os meninos, ficava sem informação até a noite, quando retornava. Mas, mesmo assim, eu fui uma pessoa que procurei atendimento médico sempre que precisei: quando tive hanseníase por duas vezes, quando descobri os cálculos renais, a ectopia no colo do útero, a realização dos pré natais de forma regular, o atendimento as terapias de meu filho, os procedimentos odontológicos que necessitei e o meu acompanhamento e posteriormente, diagnostico de câncer. E que questiono, quantas de nós não deixam os cuidados com a saúde pra depois?
Ufa, um lugar vago no metrô, sento-me e continuo as minhas inúmeras reflexões. Lembro da Gi, minha amiga de infância, que teve câncer de mama quando seu filho tinha um ano e pouquinho. Ficou anos sem trabalhar, afinal ela era mãe e tivera câncer. O mercado de trabalho é cruel. Minha amiga estava se sentindo mal, querendo retomar a carreira, contribuir com as contas de casa, se sentir “útil” _infelizmente a gente que é mulher não tem reconhecido o trabalho doméstico. Enfrentou o mundo, conseguiu uma colocação no mercado, fraturou o pé enquanto se deslocava no metrô, e continuou a trabalhar e acarretou em lesões mais graves. Lembro de outra amiga que trabalhara tanto e, ao final da gravidez precisou ficar hospitalizada para conseguir finalizar a gestação e, pergunta se alguém perguntou se ela estava bem? Lembro da colega de trabalho que sofreu um AVC e para saber alguma notícia era uma dificuldade! Eu mesma, quem hoje procura saber como estou? Está claro né, ou quer que eu desenhe?
Quantas mulheres ali no metrô ainda não precisarão pegar mais um transporte para chegar em casa, e ainda fazer janta, colocar roupa pra lavar, olhar a lição do “menino” e dormir exausta pra no outro dia começar tudo de novo? E ser cobrada por chefes, por maridos e companheiros que poucas vezes colaboram!
E, aproximando-se do dia do Trabalhador, ainda tem quem ache que a vida do trabalhador não é difícil, que precisamos continuar engolidos por esse sistema, essa tecnologia que nos cobra mais e mais produtividade e formação para não ter substituída sua força de trabalho por uma máquina, equilibrando a vida numa escala de trabalho desumana. Que o diga o whatsapp que as vezes ultrapassa o horário comercial e o home office, que se você não souber separar a carga horária, você se perde e desespera.
Chego a estação final, aguardo meu ônibus para voltar pra casa distante ali mais de 400 km e sinto por mim que vivi a vida inteira imersa nas responsabilidades de casa e do trabalho, me apiedando de todos aqueles trabalhadores que ali naquele metrô cruzaram meu olhar ...
Marta Maria da Silva, a mãe, servidora pública municipal há 25 anos, membro do Comitê de Pacientes e Embaixadora da Rede de Pacientes Negros com Câncer do Instituto Oncoguia.
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