Minha história com o câncer e o Tesla azul

“Você precisa parar de escrever sobre câncer”, disse o médico em um tom mais firme, me olhando fixamente nos olhos. “Eu tenho um desafio para você: escrever sobre um Tesla azul a caminho do espaço, amarrado em enorme um foguete”.

Por anos, fiquei com este exercício em mente como uma meta a ser celebrada. Receber o diagnóstico de um câncer de mama aos 23 anos e ter hoje 37 anos me faz refletir profundamente sobre o tempo médio na jornada da minha vida onde o câncer não tenha sido pauta.

Historicamente e para reforçar a complexidade na mesma temática: eu, meus pais, irmão, avós paternos, avó materno e tios de ambos os lados. Todos pacientes oncológicos.

E o exercício de, mesmo em meio a tudo isso, não viver, pensar e falar sobre câncer. Para o médico, algo bem simples… Afinal, precisava me entregar profundamente nessa missão de desligar uma área da minha vida para seguir na construção de outra. Pra quem olha para o câncer com foco apenas em sua biologia, o famoso “vida normal” ou “seguir em frente”.

Não entendo como foram tempos tão difíceis. Bastava não falar do câncer enquanto me preparava para mais uma cirurgia preventiva. Nos exames semestrais de controle. Enquanto lidava com sequelas, como a falta de acesso no porto por conta da quimioterapia na terceira, quarta ou quinta “quimioterapia”, em veias que foram “queimadas” pelo tratamento, o único braço de acesso disponível para ser utilizado.

Não pensar no câncer vendo diariamente no espelho a coleção de cicatrizes que ele deixou no que é considerado, por muitos, o que existe de mais feminino em uma mulher.

Tinha que seguir para o próximo capítulo da vida enquanto virava a ampulheta do tempo, organizava e acelerava os planos de maternidade para retirada dos ovários. Afinal, existe o risco do câncer voltar lá, ali, aqui, acolá…

Brincar de organizar as peças em um tabuleiro de um jogo que não compreendi. Se, possível, entender que apesar de tudo isso, não faço mais parte dele.

E foi nessa angústia de não conseguir alcançar o mais perto que deveria ser pelo olhar do outro, não onde no singela mensagem gritante do próprio diagnóstico, que chega nos dizendo uma verdade absoluta: não falar sobre algo que passou é negar a própria existência na vida.

No final, sorrindo como quem consegue se desprender de ser algo inalcançável, sou uma grande porção de tudo isso: um livro repleto de capítulos lindos que carregam o presente, o passado e o futuro. Pilotando um potente Tesla azul, amarrada com uma corda frágil no foguete que me leva ao céu repleto de tsurus em busca de — cada vez mais — vida (apesar de).

Viva seu próprio universo com as cores que desejar.

Com amor,
Eve.

Evelin Scarelli é vice-presidente do Instituto Oncoguia

Fonte: Veja Saúde

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