Brasil perde ritmo no acesso a inovações em saúde, alertam especialistas

A inovação em saúde vai muito além da descoberta de novos tratamentos. Para que ela de fato transforme vidas, é preciso que as terapias cheguem com agilidade a quem precisa, algo que ainda esbarra em entraves regulatórios, burocracia e falta de previsibilidade no Brasil. Essa foi a tônica do Meet Point Estadão Think “Os caminhos para acelerar a inovação em saúde”, promovido pelo Estadão Blue Studio com patrocínio da Interfarma, no último dia 19.

Mediado pela jornalista Camila Silveira, o encontro reuniu Renato Porto, presidente executivo da Interfarma, e Luciana Holtz, presidente do Instituto Oncoguia. A discussão destacou que a inovação só se concretiza quando há acesso, regulação eficiente e compromisso coletivo entre governos, indústria, profissionais de saúde e sociedade civil.

A demora para que novos medicamentos sejam disponibilizados à população é um dos principais obstáculos à inovação no País. Segundo Porto, o processo de desenvolvimento de um fármaco pode levar mais de 15 anos e envolver bilhões de dólares em investimentos. No entanto, mesmo após a aprovação, os pacientes seguem enfrentando um cenário de espera prolongada.

“A Anvisa tem excelência técnica, mas o tempo de análise ainda é alto. E, após a decisão do governo de incorporar um medicamento ao Sistema Único de Saúde (SUS), a média para que ele chegue à população é de 17 meses. Isso é inaceitável”, afirmou. Na avaliação de Porto, esse gargalo regulatório compromete o ciclo da inovação e impulsiona a judicialização do acesso à saúde.

Do ponto de vista dos pacientes, a falta de transparência nos processos de aprovação e incorporação de tecnologias também agrava o cenário. Luciana Holtz lembrou que o impacto da demora não é abstrato: significa perda de tempo de vida. “Hoje temos cerca de 20 tecnologias oncológicas já incorporadas ao SUS que ainda não estão disponíveis. Duas delas, para câncer de pulmão, aguardam implementação há 11 anos”, alertou.

Propriedade intelectual e acesso

A discussão sobre patentes, muitas vezes envolta em desinformação, também foi abordada pelos especialistas como um ponto sensível, mas indispensável. Para Renato Porto, a proteção da propriedade intelectual é o que viabiliza o ciclo da inovação — e não o contrário.

“A patente não encarece o produto. Ela garante que o investimento feito no desenvolvimento de novas terapias seja recuperado e reinvestido. Sem esse mecanismo, não há sustentabilidade para a pesquisa científica”, argumentou. Ele destacou que, a cada medicamento inovador lançado, o setor gera uma média de três cópias após a expiração da patente, como os genéricos.

Luciana concordou com a importância da proteção intelectual, mas ressaltou que é preciso ampliar o letramento em saúde e combater a desinformação que distorce o debate. “Precisamos tirar esse tema dos congressos técnicos e aproximá-lo da população. Quando um paciente recebe um diagnóstico e ouve um ‘não’ do plano ou do SUS, é aí que ele percebe como tudo isso o afeta diretamente”, afirmou. Ela também criticou o espaço ocupado por promessas falsas, como curas milagrosas, que alimentam um mercado paralelo de desinformação.

O papel da colaboração

Ambos os participantes apontaram que o avanço da inovação em saúde exige engajamento coletivo. Não basta que a indústria desenvolva medicamentos: é necessário que o poder público, os profissionais de saúde, os órgãos reguladores e a sociedade estejam comprometidos com a incorporação ágil e responsável das novas tecnologias.

“Hoje, o Brasil corre o risco de ficar para trás. Sem segurança regulatória e sem previsibilidade, deixamos de ser prioridade nas primeiras ondas de lançamento de medicamentos e pesquisas clínicas”, alertou Porto.

Para Luciana, o único caminho possível é a colaboração. “Se acreditamos que a inovação entrega o que promete, então precisamos garantir que ela chegue a quem precisa. Isso só será possível com o envolvimento de todos: indústria, governo,profissionais da saúde e sociedade civil”, defendeu.

Compromisso com a ciência

Ao fim da conversa, a mensagem foi clara: inovar é garantir acesso. E esse processo começa por valorizar a ciência como ferramenta de decisão. “A saúde não pode ser tratada apenas como uma conta financeira. Estamos falando de vidas”, concluiu Porto.

Holtz reforçou a urgência de assumir responsabilidades. “Temos ciência suficiente para salvar vidas que estão sendo perdidas. Não estamos falando de números ou relatórios,mas de pessoas reais. O compromisso com o acesso é para agora.”

Matéria publicada pelo Estadão Saúde em 26 de agosto de 2025

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