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  • Daniele Aparecida Lopes dos Santos Fernandes - Câncer Colorretal
    Lutar sempre...até o fim.
Era outubro de 2012. Minha mãe foi ao médico, pois havia percebido sangue em suas fezes. A princípio a médica desconfiou que ela pudesse estar com hemorróidas. Foi solicitado, então, que ela realizasse uma colonoscopia, que foi marcada para o dia 10 de outubro. Com a realização do exame foi detectado um tumor no reto e foi pedido uma biópsia, para que soubessem se era um tumor benigno ou maligno. O médico disse que o resultado sairia no outro dia. Minha mãe estava com uma viagem programada para o interior, pois era feriado. O médico disse para que ela viajasse tranquila que ele queria conversar com ela apenas na segunda-feira, dia 15. Acredito que nessa situação (descobrir que está com um tumor que PODE ser maligno) não existe uma pessoa que conseguiria viajar tranquila, mas mesmo assim ela seguiu a orientação do médico e viajou. Eu sou filha única, moro em Belém e ela em São Paulo. Na quinta-feira mesmo ela me contou como tinha sido a consulta. Confesso que fiquei apavorada com a hipótese, mas me controlei e passei toda tranquilidade para ela. Afinal, deixá-la apavorada não ajudaria em nada. Nesse final de semana estava acontecendo em Belém o Círio de Nazaré. Eu nunca havia participado, mas dessa vez senti vontade e fui. É uma emoção indescritível. São inúmeras demonstrações de fé. Achei que era um excelente momento para pedir pela saúde de minha mãe e foi isso que fiz. Porém, no momento em que fui pedir a Deus, não tive coragem de pedir apenas que o tumor fosse benigno, que não fosse nada grave. Nesse momento tive uma vontade enorme de pedir a Deus que nos desse força e nos amparasse para enfrentar o que fosse necessário. Tive medo de pedir isso, eu tinha muita esperança de que realmente não fosse nada, mas tinha algo dentro de mim que me fez pedir essa força. E, infelizmente, eu estava certa. Na segunda-feira, dia 15 de novembro, minha mãe foi ao médico e recebeu o diagnóstico. O tumor era maligno, ou seja, ela estava com um câncer no intestino. Ela recebeu a notícia ao lado de meu pai. O médico foi muito atencioso, deu respostas para todas as perguntas que ela fez e se colocou a disposição para qualquer outra ajuda que ela precisasse. Ela teve muito medo de me contar. Afinal, como uma filha única, que mora tão longe reagiria a tal notícia? Mas ela criou coragem e me ligou. Quando ela me falou o que o médico tinha dito, eu me calei. Senti meu coração disparar, fiquei fraca, com a mão gelada, achei que não aguentaria, mas sabia que teria que ser forte por ela e foi o que fiz. Falei tranquilamente com ela, tentei acalmá-la, disse que não era para ela ter medo, pois o próprio médico disse que ela havia descoberto no início e que era nova, por isso seria tratado facilmente. Falei isso pra ela com toda convicção, mas quando desliguei o telefone desabei. Não sei dizer se desabei por conta da doença, se por medo de perdê-la, se por vontade de estar ao lado dela nesse momento, mas acho que foi pela junção de todas essas coisas. Depois desse dia passamos a nos falar todos os dias, várias vezes ao dia. A minha vontade era largar tudo, trabalho, casa e marido, e ir correndo pra lá, ficar ao lado dela como ela sempre fez comigo, mas eu precisava me controlar. Sabia que mais tarde ela precisaria de mim e por isso eu preferi dar todo o apoio necessário de longe. Começamos a tal batalha contra o câncer. Apesar do desconforto de saber que está com uma doença tão estigmatizada, ela continuava bem, não sentia nenhuma dor, nenhum sintoma, apenas o sangue que vez ou outra ainda aparecia nas fezes. Pesquisei muito, muito mesmo, sobre a doença, tratamentos, possibilidades, pessoas e familiares que já haviam passado por isso. Dei a ela toda a informação possível, queria que ela se sentisse a vontade para falar comigo de todos os seus medos, de todas as dúvidas que pudessem surgir e ela talvez tivesse vergonha de perguntar ao médico. Procurei sempre passar as boas informações para ela. Toda vez que eu lia alguma coisa ruim que pudesse acontecer eu chorava muito, mas filtrava a informação e tentava passar para ela como uma lição de vida. Eu me sentia muito forte quando falava com ela, mas me sentia frágil como uma criança quando estava sozinha. Foi muito difícil passar essa segurança para ela, mas acho que isso foi fundamental. Dia 19 de novembro ela começou o tratamento. O médico indicou que ela fizesse 28 seções de radioterapia e 10 seções de quimioterapia (cinco na primeira semana da radio e cinco na última). Ele queria diminuir ao máximo o tamanho do tumor para realizar a cirurgia, para que não fosse necessário fazer colostomia. Ela teve muito medo da colostomia, e eu também. Ela sempre foi muito vaidosa e para ela seria difícil se adaptar a esta ideia, mas o médico disse que o caso dela tinha tudo para dar certo e que isso não seria necessário. Nem o cabelo dela cairia, pois a quimioterapia seria fraca. Bom, ela deu início ao tratamento. A primeira semana foi de radio e quimio. Foi bem difícil, pois eram em lugares muito distantes e todo o trajeto, mais o tratamento, era muito cansativo. Meu pai ficou ao lado dela todos os dias. Foi a todas as consultas e todas as seções. Ela descobriu um lado dele que, mesmo ela já tendo 25 anos de casada, nunca tinha visto. Ele, que sempre foi muito fechado, foi muito atencioso e companheiro em todos os momentos. Passada a primeira semana, que foi muito difícil por conta da quimioterapia, ela seguiu muito bem o tratamento. Teve prisão de ventre algumas vezes, outras vezes teve diarreia, mas era tudo controlado pela médica que estava acompanhando o caso. Segundo a médica isso tudo era normal. Ela se dedicou muito ao tratamento. Fez toda a dieta indicada, todos os cuidados passados pelo médico. Minhas duas tias, irmãs dela, se revezaram durante as semanas de tratamento para dar todo o apoio necessário em casa. Chegamos na última semana com muita esperança. Ela já estava muito cansada do tratamento, mas se manteve forte. Fazia contagem regressiva para o término do tratamento. A cirurgia seria realizada um mês após o fim do tratamento e aí sim a vida voltaria ao normal. Porém, na última semana ela estava se sentindo muito mal. Sentia muitas dores abdominais, enjoos e diarreia. Os médicos disseram que isso era completamente normal, pois estava no final do tratamento. No dia 23 de dezembro ela viajou para o interior, ela passaria o natal com a família e voltaria para no dia 26 fazer a última seção de radioterapia. Chegando no interior ela estava se sentindo muito mal, com muitas dores e muito enjoo e foi ao médico. Lá ela tomou soro, remédio, fez alguns exames e explicou sua situação para o médico. Foi constatado que eram apenas os efeitos colaterais do tratamento. Nesse dia liguei para ela, mas ela não queria falar comigo, estava se sentindo muito fraca e não queria que eu percebesse, mas forcei e ela falou comigo. Falou muito pouco, mas eu não a deixei perder as esperanças. Disse que estávamos no final e que logo logo tudo isso acabaria. Foi o último dia que eu ouvi a voz dela, dia 23 de dezembro de 2012. No dia 24 ela voltou para São Paulo e foi ao hospital novamente. Dessa vez teve que ficar internada, pois precisava ficar no soro e em observação. Os médicos refizeram exames, o médico que cuidaria da cirurgia foi chamado, mas nada adiantava. Todos diziam a mesma coisa "São apenas os efeitos colaterais do tratamento”. A partir desse dia ela não queria mais falar ao telefone comigo, não queria demonstrar que estava fraca e eu respeitei. Eu passei a falar várias vezes ao dia com o meu pai, que me mantinha sempre informada. No dia 30 pela manhã a pressão dela subiu muito. E a médica desconfiou que pudesse ser uma infecção, e era. Ela foi transferida para UTI. Era um quadro de sepse, infecção generalizada. Isso era muito grave e assim que meu pai me ligou eu e meu marido fomos para São Paulo. Tudo que ela estava sentindo era por conta da infecção, mas ela não teve febre e não apareceu nada nos exames que ela fazia, por isso demorou tanto para que percebessem. Cheguei em São Paulo no dia 30 à noite, fomos direto para o hospital. Lá o médico nos disse que fora do horário de visita não poderia dar informações, mas que ela teve que ser entubada, porque a respiração estava falhando e já estava perdendo a consciência. Por isso, ela foi sedada e entubada. O quadro era muito grave, mas não podíamos perder a esperança. Todos os médicos diziam que ela era nova e sairia dessa. No outro dia voltamos no horário de visita. Conversamos com o médico e ele nos explicou detalhadamente tudo o que estava acontecendo. Ela estava com um quadro muito grave de infecção e por conta do tratamento contra o câncer a imunidade dela estava muito baixa. O próprio médico estava com medo da proporção que o quadro estava tomando. O ano novo foi muito difícil para mim, para meu marido e meu pai. Foi muito difícil deixar ela lá, sozinha no hospital. Dia 1° voltamos, nada havia mudado. Dia 2, a mesma coisa. Tive muito medo de perdê-la. Rezei muito nesse dia e pedi força para Deus. Todos os dias no horário de visita eu conversava muito com ela. Mesmo ela estando sedada e sem responder, eu passava uma hora todos os dias falando com ela. Sabia que ela estava me ouvindo. Eu não chorava quando estava ao lado dela. Tentava passar toda a confiança possível, para que ela não se entregasse. Dia 3 ela teve uma pequena melhora. A dose do remédio que estava controlando a pressão foi diminuída, a febre que ela havia começado a ter diminuiu um pouquinho, o batimento cardíaco que estava em 136 quando cheguei já tinha diminuído para 106. Era mínima a melhora, mas para nós tinha um significado imenso. No dia 5 nós precisamos voltar para Belém, precisávamos voltar ao trabalho. De noite meu pai me ligou dando ótimas notícias, as coisas tinham melhorado novamente. Dia 6 ela continuava sedada, mas tudo havia melhorado mais um pouquinho. Eu estava muito esperançosa. Mas no dia 7 quando o médico conversou com o meu pai as notícias já não eram tão boas. Por conta da melhora dela no final de semana, eles haviam retirado os sedativos, mas ela não estava respondendo. O médico disse que era pra ele ter muita fé, mas que era também para ele se preparar, pois o caso poderia ser irreversível. Mesmo ela não respondendo, os médicos não desistiriam, disseram que ela continuaria a ser medicada e que fariam mais algumas vezes todos os exames necessários. Dia 8 de manhã meu pai me ligou, disse que o médico tinha acabado de ligar para ele ir para o hospital e me pediu que eu voltasse para São Paulo. Fomos no mesmo dia. Meu pai falou com o médico e ele disse que a probabilidade do caso não ter volta era muito grande e que era aconselhável que eu fosse mesmo pra São Paulo. Chegamos tarde da noite. Como da outra vez o médico havia nos dito que à noite não poderia falar com os familiares, deixamos para ir no outro dia pela manhã. Dia 9, enquanto nos arrumávamos para ir ao hospital, o médico ligou nos chamando. Fomos o mais rápido possível e com muito medo. Chegando lá o médico nos explicou os procedimentos. O sedativo foi retirado no domingo, dia 6, e ela não respondeu. Os exames foram feitos no domingo, na segunda e na terça e ela não respondeu a nenhum. Como protocolo, o certo era o médico dar o óbito e nos perguntar se gostaríamos de doar os órgãos, mas a doação não foi possível por conta da infecção generalizada. Nessa hora o médico disse que respeitaria a nossa vontade e só desligaria os aparelhos com a nossa autorização, mas que não tinha mais nada a ser feito. Foi muito difícil receber essa notícia. O médico poderia ter essa conversa com o meu pai na terça-feira, mas ele preferiu que eu estivesse junto, por isso esperou que eu chegasse de viagem. Me senti na obrigação de ser forte. Afinal, se o médico me esperou, é porque esperava isso de mim e o meu pai precisava dessa minha força. Depois de conversar com o médico entramos no quarto dela. A minha força acabou aí. Eu desabei. Ela estava roxa e com uma aparência muito cansada. Chorei muito. Vi ali o sofrimento da minha mãe. Meu pai não aguentou me ver chorar e desabou também. Meu esposo estava o tempo todo ao nosso lado, mas nessa hora ele não tinha força o suficiente por nós três. Começamos a rezar ao lado dela e fomos nos acalmando. Nesse dia eu não tive coragem de encostar nela e nem de ficar muito tempo ao lado dela. Nem conversar com ela como nos outros dias eu consegui. Eu só chorava e rezava. Quando me acalmei pedi para o meu pai para irmos embora, eu não aguentava mais aquele sofrimento, não suportava ver o sofrimento dela. Ele me pediu para ficar sozinho com ela por um minuto e eu deixei. Quando saímos do quarto voltamos a falar com o médico. Perguntei se ela ficaria assim para sempre e ele disse que não, que aos poucos os aparelhos já não seriam o suficiente e o coração dela pararia de bater. Então, pedimos para que ele não desligasse o aparelho. Deixaríamos que Deus pudesse realizar um milagre e o médico respeitou. Saímos do hospital e fomos à missa. Ir à missa nos fez muito bem, nos fortaleceu muito. Mas na missa eu senti a mesma coisa de quando ela descobriu o câncer. Eu não tive coragem de pedir apenas pelo milagre. Senti necessidade de pedir força para tudo suportar e força para o meu pai. Pedi para que Deus fizesse o melhor pra ela. Depois fomos almoçar. No almoço tivemos que tomar um choque de realidade e decidir algumas coisas que precisavam ser definidas, como velório, local de sepultamento (em São Paulo ou no interior onde ela nasceu), esse tipo de coisa. Deus nos deu uma força imensa, que nós não sabíamos que existia. Voltamos para casa e separamos uma roupa para ela. Eu descobri que eu tinha tanta fé, que eu estava me preparando para a vontade de Deus, independente de não ser a minha vontade. Voltamos ao hospital no horário de visita. Algumas pessoas foram também para ter notícias. O horário de visita era de 16 às 17h. Todos os familiares dos outros pacientes foram liberados para entrar, menos nós. Foi uma tortura aquela espera. Às 17:30h a enfermeira nos chamou. Dessa vez fomos só eu e meu pai. Demos as mãos, criamos coragem e fomos até o quarto. A enfermeira estava nos esperando na porta, o que nunca tinha acontecido. Antes de entrarmos ela disse: - Eu gostaria que vocês soubessem que nós fizemos todo o possível. Até o impossível nós tentamos. Ela está com uma diarreia sem controle. Estou avisando porque o odor está muito forte. Nós higienizamos ela por inúmeras vezes, mas não conseguimos controlar. Fizemos de tudo por respeito a ela e a vocês. Meus sentimentos. Apertamos nossas mãos e entramos. O cheiro estava muito forte, ela estava ainda mais roxa e com a aparência ainda mais sofrida. Dessa vez eu senti a dor de perdê-la. No aparelho que controlava os batimentos, já não marcava mais a pressão. Era somente um risco. Aquilo foi como o risco do final da linha. Eu entrei chorando e dizendo "Chega mãezinha, chega. Chega de sofrer. Vá para o lado de Deus. O sofrimento acabou, eu juro.” Meu pai não suportou me ouvir dizendo aquilo. Me abraçou e começou a chorar. Eu não aguentava mais, tinha chegado no meu limite. Ela já havia passado do limite dela. Não dava mais. Eu senti que precisava libertar minha mãezinha. Estava na hora de ela ir para o lado de Deus e eu não podia mais segurá-la ao meu lado. Falei isso para o meu pai e ele disse que confiava em mim e que era pra eu ter coragem de decidir o que fosse melhor. Que ele não conseguiria, mas que confiava em mim e na sabedoria que Deus me deu. Eu pedi para sair do quarto e conversar por um minuto com meu esposo e foi o que fiz. Eu precisava de força e apoio. Era uma decisão muito difícil de ser tomada. Meu esposo só me abraçou e disse que me amava e estaria do meu lado sempre. Voltei para o quarto. Meu pai disse que nessa hora ficou rezando a Deus para que eu voltasse. Esses minutos pareciam uma eternidade para ele. Ele já não tinha mais forças. E eu voltei. Chamei o médico e perguntei se era errado se eu pedisse para ele desligar os aparelhos. Ele disse que não, que se fosse alguém da família dele ele já teria feito isso e que eu era uma menina de muita coragem por tomar essa decisão. Foi aí que eu criei coragem e pedi para que ele acabasse com o sofrimento dela (segundo ele, ela já não estava mais sofrendo, pois já era considerado óbito e ela não sentia mais absolutamente nada). Pra mim o sofrimento dela também significava o sofrimento da alma. Eu precisava deixar ela descansar em paz. O médico perguntou se gostaríamos de permanecer na sala, mas nós preferimos sair. Saímos e fomos dar a notícia para os amigos e familiares que estavam aguardando. E mais uma vez eu preferi poupar meu pai. Eu mesma falei com as pessoas. Tive uma calma fora do comum. Era eu quem abraçava e acalmava as pessoas. Claro que dentro de mim estava tudo despedaçado, mas eu precisava me manter forte, todas aquelas pessoas dependiam disso. Quando o meu pai ficou mais calmo começamos a ligar para as pessoas e dar a notícia. Passamos então a ir atras da parte burocrática. É tanta correria, tanta coisa pra decidir, que fomos obrigados a manter o controle. Voltamos então para o hospital, onde seria o velório. Quando chegamos muitos amigos já estavam no local. Ficamos impressionados com a quantidade de gente. Ela era realmente muito querida e nós também nos sentimos acolhidos por todos os amigos que estiveram presente nesse momento tão difícil. Foi um profissional que arrumou tudo e ficou de nos chamar para dentro da sala quando estivesse tudo pronto. Falei para o meu marido que não iria aguentar ver a cena da minha mãe em um caixão. Ele me disse que entraria comigo e se eu não me sentisse a vontade, que era pra eu não olhar. Quando o técnico nos chamou meu esposo estava do lado de fora recebendo a mãe dele que havia acabado de chegar. Novamente, dei a mão para o meu pai, criamos coragem e entramos. Foi aí que pela primeira vez presenciamos um milagre. Sentimos a presença de Deus neste momento. Sentimos que não estávamos dando as mãos um ao outro, entre nós estava nosso Pai. Ele nos segurou, Ele nos deu forças, Ele nos acalmou. Eu, que a minutos atras não tinha nem coragem de entrar na sala, consegui olhar para ela. Para mim ela estava linda, estava serena, estava em paz, estava bem. Isso me tranquilizou de uma forma inexplicável. Nessa hora eu tive plena certeza de que ela estava ao lado de Deus. Tive certeza de que naquela tarde eu tinha tomado a decisão certa. Eu tive sabedoria para entregar ela nos braços de Deus. De dar o descanso que ela tanto merecia. Fui para o lado dela, segurei na mão dela, rezamos juntas (sim, eu acredito que ela estava ao meu lado rezando junto comigo). Consegui dar um beijo nela e me despedir. Minha paz era tão grande que consegui fazer tudo aquilo que de tarde não tive forças. Depois disso eu e meu pai ficamos todo o tempo ao lado dela. As pessoas entraram aos poucos. Alguns não tinham coragem de entrar, mas mesmo assim estavam lá para nos dar carinho. Todos os amigos e familiares foram de muita importância, mesmo os de longe. Sentimos a oração de cada um chegar em nossos corações. Isso foi mais uma coisa que nos fortaleceu, a amizade e carinho de cada um. No meio da madrugada chegou ao velório a parte dela da família. Foi um momento muito difícil também. Meu avô, o pai dela, chegou. Meu avô predileto, meu xodó. Foi muito difícil vê-lo passando por isso. Não consigo imaginar o tamanho da dor que ele sentiu. Não deve ser nada fácil ver partir uma filha, uma filha que sempre cuidou tanto dele. Ele não chorou, mas estava com os olhos cheios de lágrimas. Passou a noite toda ao lado dela, em pé, sem encostar, mas bem pertinho. Não falava nada, só olhava. Meus tios, tias e primos estavam arrasados. Mas aos poucos fui conversando com cada um e fomos nos confortando. No outro dia fui com um amigo ver o local em que minha mãe seria enterrada. Achei que seria simples, mas não foi. Eu nunca havia entrado em um cemitério. Foi muito difícil a primeira vez ser justo por ela. Resolvemos tudo e voltamos para o velório. Esperamos a chegada de todos os amigos que queriam se despedir. O caixão seria levado às 14:00h. Pouco antes rezamos um terço todos juntos. Fiquei com as mãos sobre as dela. Chegou a hora de levarem o caixão. Meu pai já havia se despedido dela antes. Eu já havia feito isso e não queria fazer de novo. Perguntei ao meu avô se ele queria se despedir dela. Ele disse que sim e foi para o lado do caixão. Segurou na mão dela, começou a conversar com ela e chorar. Chorou muito, de uma forma que eu nunca tinha visto antes. Pedi para os meus primos irem para o lado dele, pois eu não tinha condições. Eles foram. Ele terminou de falar com ela e se afastou. Eu e meus primos abraçamos ele com toda nossa força. Ele se acalmou um pouco e pediu para sair dali e ficar um pouco sozinho. Eu já não aguentava mais tanto sofrimento. A aparência dela já estava ficando cansada. Haviam várias pessoas em volta dela chorando. Eu não estava gostando de ver aquilo, estava sendo torturante. Chamei o senhor da funerária e pedi para fechar o caixão. Meu avô estava fora da sala e meu pai também preferiu sair. Eu não tive coragem de deixá-la sozinha, mas também não tive coragem de ver. Fiquei do lado dela, mas virei de costas, meu marido me abraçou e tapei meus ouvidos. O senhor da funerária fechou o caixão e alguns amigos carregaram até o carro. Eu não vi, eu não ouvi, mas a dor no meu coração foi como se eu estivesse dentro do caixão, junto com ela. Mais uma vez me recuperei e fui para o lado do meu pai. Chegando no cemitério perguntaram se gostaríamos de abrir o caixão e ficar um pouco mais com ela. Eu disse que não. Já tinha sido muito torturante ter que fechar uma vez, eu não queria fazer isso de novo. Todos já tinham se despedido, seria mais sofrimento. Chegando no local do enterro eu achei que seria "fácil”. Afinal, eu já tinha passado pelos momentos mais difíceis. Engano meu. Um amigo nos deu algumas flores para que jogássemos pra ela. Eu fiquei muito perto e comecei a jogar e me despedir. Foi muito, muito, muito difícil ver o caixão descendo. Dói muito saber que aquele é o fim. Nesse momento eu não quis segurar na mão de ninguém. Eu só queria a mão dela para poder segurar. A minha vontade era gritar, gritar muito alto, mas isso não adiantaria de nada. Só chorei, chorei muito, chorei alto, chorei. Chorei tudo o que tinha pra chorar. Minhas últimas palavras ali foram "Cuida de mim. Eu te amo. Vai com Deus”. E foi assim que terminou. Foram 86 dias desde a descoberta da doença até a salvação (76 dias esperançosos, entre a descoberta e o tratamento, e 10 dias de sofrimento). Quando acabaram de descer o caixão abracei meu pai e meu marido, depois meu avô. Voltamos para a recepção, nos despedimos de todos e fomos embora. Agora sigo minha vida, com a certeza de que ela está sempre ao meu lado, de que ela está em paz e de que um dia estarei ao lado dela de novo...


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