Painel de Políticas Públicas do Câncer
VoltarEstudo mapeia as desigualdades no tratamento do câncer de mama no Brasil
Desigualdades Sociais
Um estudo inédito publicado em outubro de 2025 no JCO Global Oncology, periódico da American Society of Clinical Oncology (ASCO), analisou as diferenças entre o sistema público e o privado de saúde no tratamento do câncer de mama no Brasil, com foco especial no intervalo entre o diagnóstico e o início do tratamento entre mulheres com tumores receptores de estrogênio positivo (ER+) em estágios iniciais.
A pesquisa foi conduzida pelo oncologista Romualdo Barroso Sousa, do Hospital Sírio-Libanês e da Universidade de São Paulo (USP), em parceria com outros 13 centros brasileiros de referência em oncologia. O trabalho avaliou dados de 774 pacientes com câncer de mama não metastático, acompanhadas entre junho de 2021 e março de 2024.
O objetivo foi avaliar como o tipo de sistema de saúde influencia o tempo até o início do tratamento, bem como as características clínicas e terapêuticas dessas mulheres. Para isso, o estudo comparou pacientes que utilizavam o Sistema Único de Saúde (SUS) e planos de saúde.
A iniciativa também buscou avaliar a efetividade da Lei 12.732/2012, que determina que o tratamento do câncer deve começar em até 60 dias após o diagnóstico.
Os resultados revelam disparidades marcantes no acesso e na qualidade do cuidado oncológico no país. Das mulheres avaliadas, 55,2% foram atendidas pelo SUS, e esse grupo apresentou piores indicadores em praticamente todas as etapas da jornada de tratamento.
45,3% das pacientes do sistema público eram pré-menopáusicas , enquanto no sistema privado esse percentual foi de 29,2%. As pacientes do SUS também apresentavam menor escolaridade (43,6% no SUS e 6,8% no sistema privado de saúde) e não viviam com parceiro fixo (45,6% e 34,7% no sistema privado de saúde), fatores que refletem vulnerabilidades socioeconômicas significativas.
Além disso, as mulheres tratadas no sistema público apresentavam tumores em estágios mais avançados, com 29,3% em estágio III, em comparação a 13,5% no setor privado.
O intervalo entre o diagnóstico e o início do tratamento foi o dado mais alarmante, pacientes do sistema público esperaram, em média, 93 dias, mais que o dobro do tempo observado no setor privado, que é de 41 dias. Essa diferença mostra que a lei dos 60 dias não vem sendo efetivamente cumprida no SUS.
Em relação às terapias, o estudo também identificou desigualdades importantes. Pacientes atendidas pelo sistema público receberam quimioterapia em 73,8% dos casos e radioterapia em 87%, proporções superiores às observadas na rede privada, onde esses índices foram de 58,5% de pacientes que receberam quimioterapia e 78,7% radioterapia.
No entanto, tiveram menor acesso à supressão da função ovariana, presente em apenas 6,8% dos casos no SUS, e 18,8% no setor privado. Além do que 52,4% das pacientes do SUS fizeram uso de tamoxifeno, sendo que apenas 29,4% das pacientes atendidas pelo setor privado, um indicativo de menor disponibilidade de tratamentos mais modernos.
Além disso, procedimentos cirúrgicos mais radicais, como mastectomia e dissecção axilar, foram mais frequentes entre as mulheres atendidas pelo SUS, com taxas de 36,8% e 43,1%, em comparação a 29,8% e 18,1% na rede privada, o reflexo do diagnóstico em estágios mais avançados e do acesso limitado a terapias conservadoras.
Os autores ressaltam que as disparidades observadas não são apenas clínicas, mas também estruturais. A falta de integração entre serviços de diagnóstico, demora na marcação de exames e consultas, além de deficiências na regulação e fiscalização da Lei dos 60 Dias, contribuem para atrasos que podem comprometer a sobrevida das pacientes.
Segundo os pesquisadores, o estudo reforça a urgência de medidas sistêmicas para melhorar o acesso e a equidade no tratamento do câncer de mama no Brasil. Entre as soluções propostas estão a criação de sistemas de rastreamento digital dos prazos de tratamento, a implementação de programas de navegação de pacientes, para orientar e acompanhar cada caso desde o diagnóstico e o fortalecimento da regulação e fiscalização da lei por parte das autoridades de saúde.
Os resultados acendem um alerta sobre as consequências das desigualdades no cuidado oncológico e sobre a necessidade de políticas públicas mais eficazes para garantir que todas as mulheres, independentemente do sistema de saúde, tenham acesso a um tratamento oportuno e de qualidade.
O estudo é considerado um dos mais abrangentes já realizados sobre o tema no Brasil e oferece evidências concretas de que o tempo de início do tratamento é um fator crítico para o desfecho clínico. Para os especialistas, os dados devem servir como base para o aprimoramento de políticas de equidade e eficiência no SUS, garantindo que o direito legal ao tratamento em até 60 dias se torne uma realidade e não apenas uma promessa no papel.
Leia o estudo na íntegra.
Conteúdo produzido pela equipe do Instituto Oncoguia.


