Pacientes de câncer de mama metastático merecem mais atenção

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  • Equipe Oncoguia
  • - Data de cadastro: 24/08/2015 - Data de atualização: 17/07/2016

O diagnóstico tardio e os tratamentos oferecidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) que não acompanham os avanços científicos são dois pontos bastante críticos para o enfrentamento do câncer de mama no Brasil. A cada ano a doença atinge mais de 57 mil mulheres, de acordo com estimativa do Instituto Nacional do Câncer (Inca), e cerca de 50% dos casos são descobertos em estágio avançado.

Uma pesquisa realizada pelo Instituto Oncoguia  com 120 mulheres também confirmou esse número: 48% delas responderam ter metástases desde o diagnóstico. "Se por um lado não estamos conseguindo garantir o diagnóstico precoce, quando elas chegam ao  SUS, já com metástases, não recebem os melhores tratamentos”, afirma a psico-oncologista e especialista em Bioética Luciana Holtz de Camargo Barros, presidente do Instituto Oncoguia, uma das principais referências brasileiras de apoio e defesa dos direitos dos pacientes com câncer.

A área científica tem obtido importantes avanços nas terapias para o câncer metastático, também conhecido como estágio IV ou secundário.  Os órgãos regulatórios de saúde brasileiros, entretanto, vêm repetidamente ignorando essas novidades. Luciana denuncia: "A Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias (Conitec), do Ministério da Saúde, não incorporou medicamentos reconhecidamente eficazes, como é o caso do trastuzumabe e do everolimus, e agora vamos aguardar ansiosos sua decisão com relação ao pertuzumabe que, aliado ao trastuzumabe, possibilita mais de 15 meses de sobrevida a pacientes HER 2 positivo (HER 2+)”.

Abreviatura de Human Epidermal growth factor Receptor-type 2, ou receptor tipo 2 do fator de crescimento epidérmico humano, o HER 2 é uma proteína que, em quantidades normais, tem papel importante no desenvolvimento de células que fazem o revestimento interno e externo do organismo, bem como o tecido glandular. Essa proteína é produzida pelo gene HER 2 que, por um erro aleatório, pode levar ao desenvolvimento de um câncer de grande agressividade.

Atualmente há cerca de 250 mil pessoas em todo o mundo vivendo com câncer de mama avançado, ou seja, que já se espalhou para áreas como o cérebro, ossos, pulmão ou fígado. Enquanto as pacientes com a doença em estágio inicial podem ser curadas, 3 em 10 mulheres irão desenvolver a forma avançada e permanecerão em tratamento até o final de suas vidas. Estudo divulgado pela American Cancer Society mostra que apenas 15% das mulheres com câncer de mama avançado irão sobreviver depois de cinco anos.

Enfrentando a resistência do SUS


O Ministério da Saúde incorporou a utilização do trastuzumabe no SUS em 2013, como parte do tratamento curativo de câncer de mama, mais de seis anos depois que o medicamento passou a ser usado pela rede suplementar em terapia de pacientes com câncer de mama HER 2+. "Lamentavelmente, o SUS não permitiu a sua incorporação no tratamento das mulheres com a doença avançada, incurável, sob o argumento de que se tratava de um medicamento de "caráter paliativo com resultados modestos”, lembra o médico oncologista Rafael Kaliks, diretor científico do Instituto Oncoguia.

De acordo com o relatório da Conitec, elaborado pelo Centro Cochrane do Brasil, apenas dois estudos foram considerados adequados para avaliação da sobrevida dos pacientes: em um a sobrevida global passou de 22,7 meses para 31,2 meses, com a utilização do trastuzumabe; no outro a sobrevida passou de 18,4 para 22,1 meses graças à adição do trastuzumabe. Enquanto a Conitec dizia não, a comunidade científica ao redor do mundo comemorava e considerava que os resultados à época não só eram suficientes para determinar a utilização do trastuzumabe com quimioterapia na doença avançada como padrão, mas também que não seria ético fazer qualquer outro estudo que não proporcionasse aquele medicamento como parte do tratamento. A partir dali, todos os estudos passaram a usar a terapia anti-HER 2 (na qual se inclui o trastuzumabe).  "Nenhum outro estudo foi feito mantendo como possibilidade aquilo que permaneceu como padrão no SUS, a quimioterapia apenas, que oferece tempo de sobrevida mediano de cerca de 22 meses”, observa Kaliks.

Diversos outros estudos já mostraram os benefícios do trastuzumabe associado a outras terapias. Destaca-se entre eles o que foi denominado Cleópatra, que também fez a combinação do trastuzumabe com outras terapias em dois grupos distintos de mulheres com câncer metastático HER2+. Os resultados foram apresentados em setembro no congresso europeu de oncologia, apontando média de sobrevida de 40,8 meses para um grupo e de 56,5 meses para o outro. Luciana avalia: "São tão impressionantes, que não podemos ficar calados sem levantar novamente a discussão de como as pacientes com câncer de mama metastático estão sendo tratadas no SUS”.

Convivendo com o câncer avançado


Por meio da pesquisa realizada com 120 mulheres, o Instituto Oncoguia levantou os cinco principais problemas enfrentados por essas pacientes: manejo de efeitos colaterais dos tratamentos, falta de dinheiro, afastamento dos amigos, crise em relacionamentos afetivos e instabilidade emocional. "Esses problemas apontam, entre outras coisas, para a necessidade de elas terem acesso a uma equipe multiprofissional, além da importância de educarmos a população para que não se afaste de uma pessoa com câncer, afinal, ela pode estar precisando muito de você”, avalia Luciana Holtz.

Outros dados da pesquisa: 63% mulheres revelam sentir dor e somente 53% são medicadas; 84% usam as mídias sociais e 71% fazem parte de um grupo de apoio fechado do Facebook. Sobre os três principais pontos de apoio no enfrentamento da doença, foram mais citados: 83% - fé e espiritualidade; 75% - a família e relacionamento amoroso; 47%, a possibilidade de fazer tratamentos contra o câncer; e para 36% aparecem empatados o oncologista e os amigos.

Algumas pacientes conseguem passar ao largo desses problemas, com louvor. É o caso de Jussara Del Moral, 50 anos, que enfrenta o câncer de mama metastático desde 2007. Em 2009 a doença manifestou-se também nos pulmões e, em 2013, na calota craniana. Ela passou por cirurgias, fez dezenas de sessões de quimioterapia e de radioterapia, sem perder a disposição para lutar.

Funcionária pública, Jussara tem seu salário garantido e conta com a estrutura de um plano de saúde, embora também utilize o SUS para alguns procedimentos. Com um casal de filhos já adultos, ela cuida da casa e vai à academia todo dia. "O preparo físico faz diferença, e ainda tem o lado social, porque conquistei muitas amizades por causa do câncer”, comenta, destacando ainda a participação no grupo Amigas do Peito, de mulheres com o mesmo perfil, enfrentando a doença com valentia.

Jussara cuida da alimentação, mas sem radicalismos. Não dispensa baladas ou mesmo uma cervejinha, com parcimônia. Ela acredita que a doença ensinou uma forma diferente de viver. "Não estou lutando há quase oito para morrer de estresse, minha meta em curto prazo é ficar viajando e, em longo prazo, é conhecer meus netos”, revela. O fato de ser uma pessoa muito espiritualizada também ajuda a conviver com o câncer.

"Amparada pelo que você crê, nunca estará sozinha, por isso, nessa luta, agradeço a Deus, aos amigos e à família por 50% do que consegui até agora, e os outros 50% se devem a mim mesma”, conclui.

Conheça o posicionamento do Oncoguia sobre o assunto
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