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Silvana Davanzo - Câncer de Mama
"Carta aberta ao meu seio esquerdo."
Caríssimo seio esquerdo,
Preciso começar confessando que, nem em meus mais remotos pesadelos, pensei que algum dia nesta vida eu pudesse ter que me separar de você... Sempre fui cuidadosa contigo, sempre... cremes hidratantes, autoexames, rotina anual de mamografias e ultrassons de mama...
É, mas talvez eu não tenha cuidado tão bem dos meus sentimentos, não tenha feito as escolhas certas quando precisava tê-las feito. Sinto muito, muito mesmo... mas sei que você sentiu mais.
Um pequeno nódulo maligno se instalou em seu interior e, por isso, foi necessário que nós nos separássemos definitivamente em 06 de abril de 2023, pelas mãos de profissionais médicos extremamente competentes e humanos.
Quero lhe pedir perdão e lhe fazer saber que ajustei minha conduta. Eu agora cuido bem melhor – e bem mais – de mim. Preservo os meus valores, meus sentimentos, não deixo de olhar para as minhas dores e tenho sido corajosa para fazer escolhas e adotar ações necessárias sempre que algo perturbador se mostra. Eu me prometi nunca mais mentir para mim mesma, nunca mais me enganar a respeito do que quer que seja e, sobretudo, a honrar o dom divino da vida, procurando viver cada segundo, minuto, dia, mês, ano, década – ou o tempo que me for concedido – da maneira mais autêntica e amorosa que estiver ao meu alcance.
Quero também dizer que sou muito grata a você!
Sou grata por me ter feito sentir, por tanto tempo, uma mulher feminina e sensual; por ter sido um seio sensível, delicado, e por me ter tornado uma mulher atraente apesar do seu formato pequeno. Eu sempre me orgulhei de você! E sou ainda mais grata por ter me proporcionado exercer um dos meus maiores desejos ao me tornar mãe: poder amamentar meus dois filhos (por 9 meses o mais velho e por 18 meses a mais nova). Esse foi realmente nosso melhor tempo juntos! Nele, foram criadas memórias maravilhosas em mim e, principalmente, em meus dois filhos. Memórias que se tornaram laços por toda a nossa vida! Gratidão eterna a você por isso!
Ter me separado de você exigiu uma série de adaptações... Precisei de ajustes físicos para recuperar a mobilidade do braço esquerdo e das costas (sim, porque o músculo supracostal deixou seu lugar de origem para vir preencher o vazio que sua retirada deixou); precisei também de ajustes psicológicos para poder fazer as pazes com o espelho, ciente de que, ainda que o mamilo venha a ser reconstruído com pleno sucesso e a auréola pigmentada em tatuagem 3D, meu corpo nunca mais será o mesmo.
De quebra, ainda precisei lidar com um tratamento longo e pesado de quimio e radioterapia e, ainda, com ausências de pessoas que soltaram para sempre minha mão nesse processo – além de aprender a conviver com o medo de uma recidiva.
Sim, querido seio esquerdo, eu às vezes sinto muitas saudades de você, não posso negar... Eu sinto sua falta, sim, mas hoje compreendo que tudo aquilo que vivemos – tudo mesmo, o bom e o ruim – tem um valor enorme quando conseguimos extrair aprendizados.
Obrigada por ter feito parte do meu corpo de forma tão linda por 58 anos, sete meses e um dia. Eu aprendi muito, tanto com a nossa convivência quanto com a nossa separação, e hoje sigo minha vida vendo nela valores e belezas que antes não conseguia ver.
Um grande beijo pra você,
Repleto de enorme gratidão e afeto!