Terapia medicamentosa para mieloma múltiplo

Os medicamentos são o principal tipo de tratamento para quase todos os pacientes com mieloma múltiplo. Pode ser um único medicamento ou, mais provavelmente, vários medicamentos usados em conjunto.

Às vezes, um único medicamento pode ser usado no tratamento do mieloma múltiplo. Mas, na maioria das vezes, de dois a quatro medicamentos diferentes são combinados, uma vez que uma combinação tende a ser mais eficaz. A escolha dos medicamentos depende de muitos fatores, incluindo:

  • Características do mieloma, incluindo se é considerado de alto risco ou risco padrão.
  • Idade, função renal e estado geral de saúde do paciente.
  • Se o paciente poderá receber um transplante de células-tronco como parte do tratamento.

Agentes imunomoduladores (IMiDs)

Os medicamentos imunomoduladores (IMiDs) afetam o sistema imunológico, embora o mecanismo exato de ação não seja totalmente claro. Os IMiDs são administrados diariamente em forma de comprimidos, com pausas no tratamento em determinados dias do mês. Como esses medicamentos podem aumentar o risco de coágulos sanguíneos, muitas vezes, são administrados junto com aspirina ou um anticoagulante. Os IMiDs podem provocar defeitos congênitos quando administrados durante a gravidez, portanto, só podem ser obtidos por meio de um programa especial administrado pela empresa farmacêutica.

  • Talidomida. Esse medicamento foi o primeiro IMiD para o tratamento do mieloma múltiplo. Os efeitos colaterais da talidomida incluem sonolência, fadiga, constipação e neuropatia. Existe também um risco aumentado de formação de coágulos sanguíneos.
  • Lenalidomida. É semelhante à talidomida, embora tenha efeitos colaterais menos graves. Este costuma ser o primeiro IMiD usado no tratamento do mieloma múltiplo. Os efeitos colaterais mais frequentes da lenalidomida são diminuição das plaquetas (trombocitopenia), diminuição dos glóbulos brancos e diarreia. Também pode provocar danos aos nervos. O risco de formação de coágulos sanguíneos não é tão elevado como o observado com a talidomida, mas ainda assim é alto.
  • Pomalidomida. Esse medicamento também pode ser usado no tratamento do mieloma múltiplo, geralmente após outras tentativas de tratamento. Alguns efeitos colaterais frequentes incluem a diminuição das taxas sanguíneas e fadiga. O risco de neuropatia não é tão importante como com outros fármacos imunomoduladores, mas também está associado a um risco aumentado de formação de coágulos sanguíneos.

Corticosteroides

Os corticosteroides, como dexametasona e prednisona, são uma parte importante do tratamento do mieloma múltiplo e podem ser utilizados sozinhos ou combinados com outros medicamentos. Os corticosteroides também ajudam a diminuir sintomas, como náuseas e vômitos, causados pela quimioterapia. 

Os efeitos colaterais frequentes dos corticosteroides incluem:

  • Hiperglicemia (nível elevado glicose no sangue)
  • Aumento de apetite e ganho de peso.
  • Problemas do sono.
  • Alterações no humor.

Quando usados por um longo tempo, os corticosteroides suprimem o sistema imunológico, levando a um aumento do risco de infecções. Os esteroides também podem enfraquecer os ossos. A maioria destes efeitos desaparece com o término do tratamento.

Inibidores do proteassoma

Os inibidores do proteassoma freiam os complexos enzimáticos (proteassomas) nas células quebrando proteínas importantes para manter a divisão celular sob controle. Eles parecem afetar células tumorais mais do que as células normais.

  • Bortezomibe. O bortezomibe foi o primeiro inibidor do proteassoma a ser aprovado e é frequentemente usado no tratamento do mieloma múltiplo. É administrado por via intravenosa ou subcutânea, uma ou duas vezes por semana. Os efeitos colaterais desse medicamento incluem náuseas, vômitos, cansaço, diarreia, constipação, diminuição das taxas sanguíneas, febre, diminuição do apetite, hematomas, hemorragias, infecções, neuropatia periférica.
  • Carfilzomibe. É um inibidor do proteassoma que pode ser usado para tratamento do mieloma múltiplo. É administrado por via intravenosa, geralmente uma ou duas vezes por semana. Para evitar problemas como reações alérgicas durante a infusão, a dexametasona é, muitas vezes, administrada antes de cada dose no primeiro ciclo. Os efeitos colaterais incluem náuseas, cansaço, vômitos, diarreia, febre, falta de ar, diminuição das taxas sanguíneas, hematomas, hemorragias, pneumonia, problemas cardíacos e insuficiência renal ou hepática.
  • Ixazomibe. É um inibidor de proteassoma administrado por via oral, uma vez por semana, durante três semanas, seguida de uma semana de descanso. Os efeitos colaterais incluem náuseas e vômitos, diarreia, constipação, inchaço nas mãos ou pés, dor nas costas, hematomas, hemorragia e neuropatia periférica.

Anticorpos monoclonais

Os anticorpos são proteínas produzidos pelo sistema imunológico do corpo para combater as infecções. Os anticorpos monoclonais são versões produzidas para atacar um alvo específico, como as proteínas na superfície das células do mieloma.

Anticorpos contra CD38. A proteína CD38 é encontrada nas células do mieloma. Anticorpos monoclonais que têm como alvo essa proteína parecem funcionar tanto destruindo as células cancerígenas diretamente quanto ajudando o sistema imunológico a atacá-las.

  • Daratumumabe. É um anticorpo monoclonal que se liga à proteína CD38. Este medicamento é usado principalmente em combinação com outros tipos de medicamentos, embora também possa ser usado isoladamente em pacientes que já receberam outros tipos de tratamento. É administrado por via intravenosa. Uma nova forma desse medicamento, conhecida como daratumumabe e hialuronidase, pode ser administrada como injeção subcutânea. Qualquer uma das formas desse medicamento pode causar reação em alguns pacientes enquanto está sendo administrado ou poucas horas após a injeção. Os sintomas podem incluir tosse, dificuldade respiratória, aperto na garganta, nariz escorrendo ou entupido, tonturas ou vertigens, dor de cabeça, erupção cutânea e náusea. Outros efeitos colaterais podem incluir fadiga, náusea, dor nas costas, febre e tosse.
  • Isatuximabe. É um anticorpo monoclonal que se liga à proteína CD38 encontrada nas células do mieloma. É administrado por via intravenosa, geralmente a cada uma, duas ou quatro semanas. Esse medicamento pode causar uma reação em alguns pacientes durante a administração ou poucas horas após a aplicação. Os sintomas podem incluir tosse, respiração ofegante, dificuldade respiratória, aperto na garganta, calafrios, sensação de tontura ou vertigens, dor de cabeça, erupção cutânea e náuseas. Os efeitos colaterais mais frequentes desse medicamento incluem infecções respiratórias e diarreia. Também pode provocar diminuição das taxas sanguíneas, o que pode aumentar o risco de infecções, hemorragia e hematomas, e fazer o paciente se sentir mais cansado.

Anticorpos contra SLAMF7. É outra proteína encontrada nas células do mieloma. Anticorpos que têm como alvo essa proteína ajudam o sistema imunológico a atacar as células cancerígenas.

  • Elotuzumabe. É um anticorpo monoclonal que se liga à proteína SLAMF7. Esse medicamento é usado em combinação com outros medicamentos, principalmente em pacientes que já receberam outros tratamentos para o mieloma múltiplo. É administrado por infusão intravenosa. Esse medicamento pode causar reação em alguns pacientes enquanto está sendo administrado ou poucas horas após a injeção. Os sintomas podem incluir febre, calafrios, tonturas ou vertigens, erupção cutânea, chiado no peito, dificuldade respiratória, aperto na garganta ou nariz escorrendo ou entupido. Os efeitos colaterais incluem fadiga, febre, perda de apetite, diarreia, constipação, tosse, neuropatia periférica, infecções do trato respiratório superior e pneumonia.

Anticorpos fármaco conjugados contra BCMA. Um anticorpo-fármaco conjugado (ADC) é um anticorpo monoclonal ligado a um medicamento quimioterápico. Uma vez dentro do corpo, o anticorpo age como um dispositivo de direcionamento, ligando-se a uma proteína específica nas células do mieloma e levando a quimioterapia diretamente até elas.

  • Belantamabe mafodotin-blmf. É um anticorpo conjugado que tem como alvo a proteína BCMA nas células do mieloma. Pode ser usado em conjunto com o bortezomibe e dexametasona no tratamento da recidiva da doença ou que que continua em progressão após tratamento com outros medicamentos. Esse medicamento é administrado por via venosa, a cada três semanas. Os efeitos colaterais frequentes incluem cansaço, infecções respiratórias, problemas hepáticos, diarreia e diminuição das taxas sanguíneas. 

Engajadores de células T (TCEs)

Alguns anticorpos sintéticos mais recentes são projetados para se ligarem a dois alvos diferentes, conhecidos como anticorpos biespecíficos. Um exemplo são os engajadores de células T (TCEs). Uma vez no organismo, uma parte desses anticorpos se liga à proteína CD3 nas células imunes, chamadas células T. Outra parte se liga a uma proteína específica nas células do mieloma. Isso aproxima as duas células, o que ajuda o sistema imunológico a atacar as células do mieloma. Esses medicamentos podem ser uma opção no tratamento do mieloma múltiplo, geralmente após outras opções terapêuticas.

  • Teclistamabe. Esse medicamento se liga à proteína BCMA nas células do mieloma. É administrado por injeção subcutânea, geralmente uma vez a cada intervalo curto de dias durante a primeira semana e, em seguida, uma vez por semana. Após alguns meses, também pode ser administrado a cada duas semanas.
  • Elrenatamabe. Esse medicamento também se liga à proteína BCMA nas células do mieloma. É administrado por injeção subcutânea, geralmente a cada poucos dias durante a primeira semana, depois uma vez por semana durante vários meses e, em seguida, uma vez a cada duas semanas.
  • Linvoseltamabe. Esse medicamento também se liga à proteína BCMA nas células do mieloma. É administrado por infusão intravenosa, geralmente uma vez por semana durante vários meses e, em seguida, uma vez a cada duas semanas. Após seis meses, se o mieloma estiver respondendo, o medicamento pode ser administrado uma vez a cada quatro semanas.
  • Talquetamabe. Este medicamento se liga à proteína GPRC5D nas células do mieloma. É administrado por injeção subcutânea, geralmente a cada poucos dias durante a primeira semana e, em seguida, uma vez por semana ou a cada duas semanas.

Os TCEs podem provocar efeitos colaterais importantes no início do tratamento. Por isso, o tratamento inicial é com uma dose baixa. O paciente poderá receber outros medicamentos para ajudar a reduzir o risco dos efeitos colaterais e poderá precisar ficar internado por um ou dois dias após as primeiras doses. Os efeitos colaterais frequentes dos TCEs incluem febre, cansaço, dor de cabeça, náuseas, diarreia, dor muscular e articular, infecções respiratórias (incluindo pneumonia), diminuição das taxas sanguíneas, erupção cutânea e problemas hepáticos. Os efeitos colaterais dos TCEs podem incluir síndrome de liberação de citocinas, problemas no sistema nervoso e infecções.

Quimioterapia

A quimioterapia utiliza medicamentos anticancerígenos para destruir as células tumorais. Por ser um tratamento sistêmico, a quimioterapia atinge não somente as células cancerígenas como também as células sadias do organismo. Esses medicamentos podem ser administrados por via venosa ou por via oral.

No passado, a quimioterapia fazia parte do tratamento principal para o mieloma múltiplo. Mas , nos últimos tempos, com o surgimento de novos tipos de medicamentos, a quimioterapia tornou-se menos importante no tratamento do mieloma, embora ainda seja usada em algumas situações.

Os medicamentos quimioterápicos utilizados no tratamento do mieloma múltiplo incluem:

  • Ciclofosfamida.
  • Etoposide.
  • Doxorrubicina.
  • Doxorrubicina liposomal.
  • Melfalano.
  • Bendamustina.
  • Cisplatina.
  • Carmustina.

Às vezes, esses fármacos são combinados com outros tipos de medicamentos, como os corticosteroides ou agentes imunomoduladores. Se um transplante de medula óssea estiver programado, determinados medicamentos, como o melfalano, serão evitados, porque podem causar danos à medula óssea.

Efeitos colaterais da quimioterapia. Os quimioterápicos não só atacam as células cancerígenas, mas também algumas células normais, o que pode levar a efeitos colaterais. Esses efeitos dependem do tipo de medicamento, da dose administrada e da duração do tratamento. Os efeitos mais frequentes podem incluir:

  • Perda de cabelo.
  • Inflamações na boca.
  • Perda de apetite.
  • Náuseas e vômitos.
  • Diarreia ou constipação.
  • Infecções, devido a diminuição dos glóbulos brancos.
  • Cansaço ou falta de ar, devido a diminuição dos glóbulos vermelhos.
  • Hematoma ou hemorragia, devido a diminuição das plaquetas.

A maioria dos efeitos colaterais é temporária e desaparece após o término do tratamento. 

Se você apresentar quaisquer efeitos colaterais, entre em contato com seu médico, imediatamente, para que ele possa prescrever medicações para aliviá-los.

Além desses efeitos colaterais temporários, alguns medicamentos quimioterápicos podem danificar permanentemente determinados órgãos, como o coração ou os rins. Os possíveis riscos desses medicamentos são cuidadosamente balanceados contra seus benefícios, e a função desses órgãos são monitoradas durante o tratamento. Se ocorrerem danos importantes aos órgãos, o tratamento é interrompido e o medicamento quimioterápico, às vezes, substituído por outro.

Inibidor de exportação nuclear

O núcleo de uma célula contém a maior parte do material genético (DNA) necessário para produzir as proteínas que a célula utiliza para funcionar e sobreviver. Uma proteína chamada XPO1 transporta outras proteínas do núcleo para outras partes da célula.

  • Selinexor. É um medicamento conhecido como inibidor de exportação nuclear, que age bloqueando a proteína XPO1. Quando a célula do mieloma não consegue transportar proteínas de seu núcleo, a célula morre. Esse medicamento é usado com dexametasona para pacientes cujo mieloma foi tratado e não responde a outros medicamentos ou junto com bortezomibe para pessoas cujo mieloma continuou crescendo com pelo menos uma outra terapia medicamentosa. É administrado por via oral, semanalmente ou no primeiro e terceiro dia de cada semana. Os efeitos colaterais frequentes incluem diminuição das plaquetas, diminuição dos glóbulos brancos, diarreia, náuseas e vômitos, perda de apetite, perda de peso, diminuição dos níveis de sódio no sangue, bronquite e pneumonia.

Bisfosfonatos para doença óssea

As células do mieloma podem provocar enfraquecimento e fratura dos ossos. Os bisfosfonatos podem ajudar os ossos a se manterem fortes, uma vez que diminuem a velocidade desse processo.

Os bisfosfonatos mais frequentemente usados no tratamento dos problemas ósseos dos pacientes com mieloma são o pamidronato, ácido zoledrônico e denosumabe. Esses medicamentos são administrados por via intravenosa ou subcutânea, inicialmente uma vez por mês, podendo se reduzir o intervalo de administração se houver uma boa resposta. O tratamento com bisfosfonatos evita lesões ósseas principalmente em pacientes com mieloma múltiplo.

Os efeitos colaterais frequentes desses medicamentos para os ossos são:

  • Para os bisfosfonatos podem incluir sintomas semelhantes aos da gripe e dor óssea ou articular. Esses medicamentos, especialmente o ácido zoledrônico, também podem provocar problemas renais.
  • Para o denosumabe podem incluir náuseas, diarreia e sensação de fraqueza ou cansaço. 

Um efeito colateral raro, mas grave dos bisfosfonatos é a osteonecrose de mandíbula. Não se sabe ao certo porque isso acontece, portanto, a melhor opção é preveni-la. O único fator que parece aumentar o risco osteonecrose é a cirurgia da mandíbula ou a remoção de um dente. Portanto, esses procedimentos devem ser evitados enquanto o paciente está em tratamento com bisfosfonatos. Muitos médicos recomendam que os pacientes façam um check-up dentário antes de iniciar o tratamento. Se a osteonecrose de mandíbula ocorrer, o tratamento deve ser interrompido.

Uma maneira de evitar esses procedimentos odontológicos é manter uma boa higiene bucal com uso do fio dental e uma boa escovação, além de exames dentários regulares. Qualquer dente ou infecção gengival devem ser imediatamente tratados. Obturações dentárias, procedimentos de canal e coroas de dentes não parecem levar à osteonecrose de mandíbula.

Para saber se o medicamento que você está usando está aprovado pela ANVISA acesse nosso conteúdo sobre Medicamentos ANVISA.

Para saber mais sobre alguns dos efeitos colaterais listados aqui e como gerenciá-los, consulte nosso conteúdo Efeitos Colaterais do Tratamento.

Texto originalmente publicado no site da American Cancer Society, em 27/10/2025, livremente traduzido e adaptado pela Equipe do Instituto Oncoguia para pacientes e familiares brasileiros.

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