TEMPESTADE
As águas de março, da música de Tom Jobim cantada por Elis me perseguiram nessa noite de sono maluco. Não consigo parar de pensar em tudo que têm acontecido nos últimos dias e, consequentemente o descanso da “pessoa” fica comprometido.
Sim, vi na TV as notícias sobre Juiz de Fora e Ubá, assoladas pela enchente. Perdas materiais, a cidade destruída, perdas de vidas... Há quem questione as condições de moradia das pessoas que vivem em encostas, em beiras de rios e córregos. Mas, alguém se perguntou que muitas vezes é a alternativa que existe para as pessoas terem um teto sobre sua cabeças, num país que, apesar de ser um direito prescrito por exemplo na Declaração Universal dos Direitos Humano e na Declaração Universal dos Direitos das Crianças, está longe de ser cumprida.
As nossas cidades na sua maioria foram construídas sejam por imigrantes, negros, indígenas, bandeirantes, nas proximidades de fontes de água. A partir daí, vão se construindo em torno dos prédios públicos daquele espaço e, depois de politicas de reformulação habitacional, como a que houve no Rio de Janeiro do inicio do século passado, empurraram as pessoas para áreas distantes do centro, em áreas de risco em todos os aspectos, sejam eles habitacionais, de segurança e de saúde, ressaltado por sua vez nos vídeos produzidos para o Fórum Regional Oncoguia- Região Sudeste.
E, voltando as águas de março, o Nordeste assolado pela seca teve chuvas recordes. Aqui em casa, não via tanta chuva desde 2019, embora tiveram outras chuvas neste intervalo de tempo, mas eu estava em tratamento na capital. A chuva de quinta, que não estava em casa, levou um dos filhotes de Nenê, minha gata, viúva de Peludo_já falei dele em outro texto. Sim, eu sou gaiteira, embora meus bichanos sejam livres aqui na roça. A chuva da terça feira, dia este que resolveria inúmeras demandas como tratamento odontológico, exames, questões burocráticas com o filho na cidade vizinha, tenho parte do teto da cozinha desabando com a infiltração que cismou nesta dita laje que já foram feitos vários paliativos. Eu, dia desses, antes da chuva, esbravejei que de paliativa bastava eu! Dinheiro pra fazer uma reforma merecida? Nem em sonho. Mas, agora depois do choro por estar bem e do risco que todos nós corremos em todos os dias, cozinhando, lavando louça, preparando nossas comidinhas, que escapamos da morte. E como eu chorei! E chorei ainda mais, ao lavar tudo que restou, juntar os cacos, tirar entulho, pensando no povo de Juiz de Fora, pensando na minha amiga Claudia lá em Porto Alegre, pensando nesta experiência de perder alguns bens e de um possível acidente com óbito me fez ver o quanto dói e que jamais quero passar por isso novamente.
Me reerguendo da tempestade, vem outra avalanche, porque apesar de, o mundo continua girando e a gente precisa se reerguer para resolver os problemas que vêm surgindo e administrar os medos dos resultados dos exames tanto para quem está em remissão como em tratamento paliativo.
E, depois de muito choro, de reclusão, o sol surgiu para estender a roupa no varal e trazer um tiquinho de alegria para essa vida cheia de preocupações.
E o pedreiro para fazer o serviço, tá mais difícil que achar uma agulha num palheiro.
E, vamos que vamos!
Marta Maria da Silva
Paciente de câncer de mama metastático
A mãe, esposa, irmã, professora, dona de casa que “a geral” acha que ela dá conta de todos os B. O
Residente em Andorinha- Bahia.
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