Sobre lutos (as)
Os dias passaram e nada do Peludo aparecer! Peludo, o gato Malhado que me adotou, filho de uma gatinha que apareceu no meu quintal e, de todas as gestações só ele chegou a vida adulta.
Morando na roça, ele cresceu solto, indo e vindo no tempo dele, ainda mais quando as minhas viagens se tornaram frequentes para as sessões de quimioterapia. E, assim que chegava, vinha me receber, ronronava, tinha lugares preferidos a dormir no sofá, lagartixando... Não me bastasse, um dia chega com a namorada grávida, para eu assumir os filhotes, meus “criames” hehehe.
Desde que me entendo por gente, tenho gatos. Alguns destes partiram de forma triste e sempre meu coração ficava despedaçado! Nunca é fácil passar por lutos, mesmo que de um pet. E, quando meu pai adoeceu e foi pro hospital em Juazeiro, Bob, o seu cachorro caramelo, companheiro de todas as horas, foi até a porta do carro se despedindo... Quando fiz o caminho inverso, voltando com o corpo dele no carro funerário, choro e gritos me invadiram, pensando no Bob e no quanto ele sentiria! E, é tanto que, Bob passou mais de um ano, indo à porta do carona de todo carro que chegava na roça, procurando-o. Pensei que Bob não suportaria... lá se vão três anos e ainda vejo alguns hábitos repetidos, de quando o seu dono estava neste plano terrestre e fico imaginando o que se passa em sua cabecinha, ao chorar em muitas noites... As vezes me faz recordar da História de Hachiko.
Tenho pensado ultimamente em despedidas, nos elos que deixam de existir. Já viram aquela história de quando os avós ou pais partem, cada um segue seu rumo, os almoços de domingo tornam-se cada dia mais escassos, talvez até as relíquias da família, fotografias inclusive, tomam o rumo do lixo?
Lembro de algumas oncofriends que partiram e deixaram filhos pequenos e como estão essas crianças e jovens? Questiono-me, pois o cuidado muitas vezes é direcionado as mulheres/mães, os quais pais são “os provedores”; não sabem o nome do professor do filho, não sabem a cor preferida deles, ou o filme favorito. Como ficam as convivências familiares, sem esse elo?
Há um tempo atrás falava ao meu marido: _ a partir do momento que a mulher se casa, tem filhos, família, nomeia-se a “casa de fulana”, “casa de vó”, “casa de mãe”. Por mais que o homem seja visto como o provedor, vejo nós mulheres como o alicerce, ou ainda o pilar. Sem algum destes, restam rachaduras e, num futuro próximo o desabamento.
Ainda sobre o alicerce, me peguei pensando inúmeras vezes numa amiga, que partiu há pouco mais de 6 meses, em como estaria seu companheiro de uma vida. Não o conheci pessoalmente, mas sabe, não tem como não se colocar no lugar do outro, principalmente se esse outro perde pai e mãe num intervalo curto de tempo! Gente, eu perdi os meus pais num espaço de 7 anos, doeu e ainda dói. Não adianta dizer que com o tempo passa, a gente se acostuma, mas não, não vai passar. O choro diminui com o tempo. São lutos que precisam ser vividos e quem o passa, precisa de todo acolhimento possível.
Quem tem uma doença ameaçadora da vida, nunca se acostuma com as despedidas, com a finitude, sem a presença daquela pessoa que está ali conosco, talvez com mesmo diagnóstico, dividindo dores, alegrias, segredos, momentos... E não tem como não se projetar naquele que se foi, sendo ele famoso ou não. Numa tarde de domingo, fomos todos surpreendidos com a partida de Preta Gil que combateu preconceitos, falou sobre a dor da separação após um diagnóstico, mostrou sem pudores seu corpo “normal”, falou sobre sexualidade, sobre vários temas que são tabus... deixa para nós, pacientes oncológicos o seu legado de falar abertamente sobre o câncer colorretal. Preta viveu, teve esperança, fé, não desistiu. Ela não perdeu, nós que a perdemos, com sua alegria e irreverência. Foi vencedora diante de tudo que viveu nos dois últimos anos: ganhou orações, ganhou acolhimento, amizades e partiu sendo cuidada e amada pelos seus.
E, após uma semana, caminhando pela roça, encontramos os restos mortais de Peludo que, dias antes me olhou com os olhos enormes, não quis comer, deitou na cadeira da mesa da cozinha e saiu tempo depois sem se despedir, tal qual o Gato Malhado o fez, na obra de Jorge Amado. Sigo aqui, enxugando as lágrimas pelas vivências destes capítulos da vida.
Marta Maria da Silva
(A “doida” dos gatos, membro do Comitê de Pacientes e Rede de Pacientes Negros com Câncer do Instituto Oncoguia)