Retrospectiva
Dezembro bateu na nossa porta, 2025 passou numa velocidade absurda! Iniciei o ano com o coração apertado, com medo da minha medicação, iniciada em novembro do ano passado não estar mais funcionando no resultado do Pet – CT de janeiro. Receio também em função de minha licença para tratamento de saúde; consegui uma licença sem prejuízos aos meus vencimentos, melhor assim, pois fugiria do stress do INSS e ainda contabilizo tempo para uma aposentadoria futura.
Embora janeiro tenha vindo com essa carga pesada, procurei viver os meus dias de descanso com a família de forma leve, no “refúgio” de todas as férias: Guarajuba, litoral norte da Bahia.
2025 diria que foi um divisor de águas na minha vida. A cada resultado de exame, meu peito enchia de alegria e esperança, afinal ficaria mais tempo em casa, as viagens seriam mensais, os custos reduziriam drasticamente. Tive ganhos financeiros que não estava a esperar e que, consequentemente me ajudaram a quitar débitos pendentes, regularizar os “caderninhos de pendura” existentes no interior e ainda, dívidas com juros mais altos.
Participei de eventos, reencontrei pessoas, conheci lugares, sabores, respirei cultura. Embora menina do interior, onde pra muitas pessoas só existem tristeza, pobreza e ignorância, vive uma menina que sempre esteve à frente, na minha busca incessante por saber, como diz aquela música do Legião Urbana “(...) sobre a terra, a água e o ar”.
Tive meus momentos de angústia, preocupada com as crianças, com a saúde de Marcelo, com meus irmãos, com a minha medicação que judicialmente não saía, com a progressão hepática e a possibilidade de voltarmos para as quimioterapias venosas_ foi aí que eu vi que o caminho está afunilando e que sim, eu vou morrer. Mas também me alegrei com o resultado bem sucedido da radiocirurgia do fígado, de ver meus filhos sendo bem sucedidos na vida, conquistando sua independência e sonhos a realizar, como viagem de escola sem os pais, ingresso no Instituto Federal de Educação, fechando com a cereja do bolo de, finalmente a liminar da medicação ser atendida, aguardando assim somente a liberação da mesma por parte do hospital.
Sei que o ano ainda não findou, eu normalmente destinava os últimos 30 minutos do ano para um bate papo com Deus, sobre o que fiz, o que deixei de fazer, o momento de agradecer e pedir perdão. Mas, faz anos que não faço isso, afinal a mãe “tá ON” 24 horas por dia. Saudades desse meu momento comigo e com ele.
Sabe, e se é que é possível pedir algo, que eu mantenha a doença estável com essa medicação que tem me mantido viva e com qualidade.
E que o pai do céu abençoe a todos nós. Que venha 2026, vivendo um dia de cada vez.
Marta Maria da Silva
(Paciente de câncer de mama metastático, membro do Comitê de Pacientes do Instituto Oncoguia e da Rede de Pacientes Negros com Câncer)