Remedinho caseiro
Abro os olhos e, pela janela do meu quarto vejo que amanheceu. Olho para o relógio, 6:05h. Levanto mesmo a cama chamando pra ficar, para me arrumar para a nova atividade que ingressou na minha vida: treino na academia. Eu, a sedentária.
Sabe, eu não fui uma criança raiz como dizem por aí, de brincar na rua, essas coisas. Fui uma criança sozinha, onde meu irmão mais novo tinha sete anos a mais do que eu. Inicialmente a criança de apartamento, brincando de bonecas, fantasiando e criando histórias com objetos como lápis de cor... se brincasse de amarelinha, jogava com minha amiga imaginária...e foi assim até meus oito anos.
Mudei de Estado, e na Bahia, morando num distrito que na época ruas eram de terra, sem água encanada, sem luz elétrica, ganhei uma Caloi cross verde (sim, porque eu nunca gostei de rosa e nem de conjunto de roupa) e com ela a liberdade de brincar fora de casa e me exercitar como criança. Tinha exatamente uma hora de relógio pra isso; apostava corrida com os meninos, me esbagaçava no chão com a bicicleta sem freio, até no fundo de uma Rural do meu tio me enfiei. Sobrevivi sem nenhum membro quebrando.
Continuei a usar a bike até uns onze anos... depois, ficou esporádico. Ia pra educação física, mal conseguia jogar futebol. O voleibol, era eu pra um lado, bola sem direção pro outro. Quem tinha habilidade, me chamava de burra (logo eu, a devoradora de livros). Mas, fui absorvendo o apelido e com isso me afastando do esporte. Às vezes, fazia corrida com as amigas até o Açude de Andorinha, coisa de uns 4 km e logo dava “dor de viado” heheheh.
Logo terminei a adolescência e as vezes fazia caminhada. Mas, fazer caminhada de galera com se fosse passeio não era pra mim.
Aos vinte e poucos, finalmente uma academia aqui na cidade. Ingressei, pouco tempo depois saí, na aeróbica a coordenação motora era uma beleza _ contém ironia. Tentei por outras vezes... saía.
Logo que eu descobri a metástase, em 2022, estavam falando muito de Ana Mi e do seu processo de adoecimento _ sim, mas afinal quem é Ana Mi? Fui pesquisar, li e comprei o seu livro. Ao ler, um dos conselhos era “se soubesse o quanto a atividade física me faria falta, teria começado antes”_perdoem-me as pessoas mais próximas ou que tenham esse trecho bem vívido, mas foi a essência que colhi. E, comecei a treinar, tivemos momentos da quimio ser em espaço de tempo menor, as viagens constantes, o peso aumentando, o cansaço matando, desisti.
Três anos depois de tratamento paliativo, coloquei na cabeça que eu precisava começar, vinha postergando, acordei em uma segunda feira e fui treinar no espaço que a Caty administra. Caty, mãe de dois meninos, um deles amigo de meu filho, uma mulher de fibra, que me estendeu a mão no meu tratamento primário e agora, segue me incentivando a não desistir. São duas semanas, é cedo pra falar, mas eu acordo disposta, sabendo do meu compromisso matinal. Instrui, vai estimulando, e mesmo com dor no corpo, eu chego em casa com disposição para cuidar dos afazeres domésticos, afinal sou uma educadora licenciada. Coloquei na cabeça que a atividade física será meu remédio diário, assim como o meu comprimidinhos de vida. Para isso estão os estudos aí falando sobre a importância da atividade física para o paciente oncológico. Aí penso na Aninha, do Rio, que tem cinco anos no mesmo protocolo, e eu vou conseguir! Bato o pé, vou deixar esse bichinho dormindo.
E, finalmente depois de anos, de vários entraves, achei meu horário de treino. Uma hora só minha. Fácil não é, mas lá vamos um dia de cada vez e eu que fui a doida do trabalho consegui mudar minha concepção, porque não você? Pense nisso como um remedinho caseiro. Um cheiro.
Marta Maria da Silva
A paciente de câncer de mama metastático, sedentária, que descobriu na atividade física um momento de se cuidar e desopilar da rotina de mãe, dona de casa, esposa, enfim... Marta sendo Marta.
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- Ei, mulher!
- Mais difícil que o câncer
- Feliz ano novo
- De paciente para paciente
- Chá revelação
- Virada de chave
- Natal Real
- Retrospectiva
- Linha da vida
- A vida é tão rara
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- Outubro em flor
- Outubro (nem sempre) Rosa
- Qua(trilha) da vida
- Vivências
- ArreDORES
- Redes sociais à parte, você está bem?
- Fígado indigesto
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- A salsicha, o câncer e o nosso discurso bonito
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- Gatilhos
- Nutella, pipoca e paçoquinha
- A estupidez da morte
- Memories
- Rotina
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- Um fenômeno chamado fake news
- Câncer com ascendente em tanta coisa
- Ressignificando a jornada oncológica com a comunicação não-violenta
- Entre ramos e folhas
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