Para alcançar a cura do câncer metastático é preciso furar bolhas e trabalhar em equipe, diz especialista
Foto: Daniel Antônio/Agência FAPESP
“Os jovens pesquisadores precisam saber que não existe melhor período para a pesquisa em oncologia do que hoje.” A fala da presidente da Associação Americana para Pesquisa do Câncer (AACR, na sigla em inglês), Patricia LoRusso, não é um exagero. Desde que começou a atuar na área, a pesquisadora vivenciou um enorme avanço nas descobertas sobre a biologia de tumores.
“É um período de grande entusiasmo na oncologia. Há vários anos, desde a clonagem do genoma humano, tem ocorrido uma série de descobertas sobre o câncer. Mas ainda há um longo caminho a ser percorrido e, para avançarmos ainda mais, é preciso juntar forças”, avalia a cientista com mais de 30 anos de experiência em oncologia médica, desenvolvimento de medicamentos e ensaios clínicos de fase inicial que resultaram em 14 medicamentos contra o câncer aprovados pela Food Drug Administration (FDA, a agência de vigilância sanitária norte-americana).
De passagem pelo Brasil, onde participou do evento AACR on Campus Brazil – promovido em parceria com a Universidade de São Paulo (USP) entre segunda (19/02) e sexta-feira (23/02) desta semana –, a pesquisadora conversou com a Agência FAPESP sobre a importância de captar jovens pesquisadores para o estudo da oncologia, o futuro da pesquisa clínica em câncer e sobre potenciais novas descobertas na área.
Agência FAPESP – Os últimos anos foram repletos de novas descobertas para a oncologia. No entanto, parece que ainda há muito que investigar. Isso ocorre pelo fato de o câncer ser uma doença muito complexa?
Patricia LoRusso – De fato estamos em um período de grande entusiasmo, pois atualmente temos muitas ferramentas para aumentar o entendimento sobre o câncer. Desde a clonagem do genoma humano, há vários anos, tem ocorrido uma série de descobertas sobre a biologia da doença. No entanto, eu acredito que o motivo de ainda não termos atingido todos os objetivos é multifatorial. Embora tenha ocorrido um avanço muito grande no entendimento da doença, o câncer é muito mais complexo do que aquilo que sabemos. A segunda causa é que as drogas que temos desenvolvido atingem um, no máximo dois dos chamados cancer hallmarks [conjunto de capacidades funcionais adquiridas pelas células humanas cruciais para a formação de tumores malignos]. No entanto, os tumores têm muitos hallmarks. E diferentes tumores apresentam diferentes hallmarks durante a progressão da doença. Outro aspecto importante está no trabalho em laboratório. É preciso entender de cultura celular, modelos in vivo [humanos e animais], mas também precisamos descobrir o que está acontecendo nos pacientes durante o tratamento. Outra complexidade envolve a capacidade de oferecer aos pacientes os ensaios clínicos, para que possamos estudar os problemas referentes ao câncer. E, nesse aspecto, existe algo que chamamos de reverse translation, ou seja entender o que está acontecendo no paciente a partir da análise de amostras. Portanto, estamos falando de complexidades múltiplas. São muitos os desafios que vão desde a bancada do laboratório até a clínica, passando pela medicina translacional. Atualmente, estamos apenas desenvolvendo as ferramentas para a medicina translacional. Precisamos ainda entender como usar as ferramentas, sem ficar passando de uma para outra a esmo. Parte do entendimento sobre o tratamento do câncer está na compreensão de quando tratá-lo. Existe uma questão de timing, pois as diferenças que ocorrem em um tumor estão associadas ao ponto exato em que ele passou a ser tratado.
Agência FAPESP – Um dos objetivos centrais do programa ACCR on Campus e do Centro de Estudos e Tecnologias Convergentes para Oncologia de Precisão – recém-inaugurado na USP – é atrair e dar suporte a jovens pesquisadores em início de carreira. Por que isso é uma preocupação?
Patricia LoRusso – Porque o câncer é um inimigo forte. Ele é mais esperto do que somos nesse momento, pois é multifacetado. É por isso que precisamos colocar todas as tropas em ação. Nesse cenário, precisamos apoiar profissionais em início de carreira [junior faculty] porque é na mão deles que está o futuro da pesquisa em câncer. Caberá a eles, no futuro, entender a doença melhor do que a entendemos agora, para tratá-la de maneira mais eficiente. Portanto, sem esse apoio, podemos perder a próxima geração de médicos e cientistas que vai levar as investigações adiante.
Agência FAPESP – Quando a senhora iniciou a carreira, a abordagem de tratamento consistia basicamente em atacar o tumor. Atualmente, isso parece ter ganhado mais camadas, certo?
Patricia LoRusso – Sim, existem muitas camadas no que concerne ao tratamento do câncer. E é preciso levar em conta que o câncer também não é linear. Como inimigo, ele é um continuum [uma série de elementos sequenciais, que apresenta diferença entre os primeiros elementos e os finais]. No entanto, eu acredito que o grande inimigo nesse caso seja o minuto exato em que a célula cancerosa surge no organismo ou até mesmo antes disso. Precisamos entender como prevenir o câncer.
Agência FAPESP – A senhora defende que tão importante quanto entender o motivo de uma droga funcionar é compreender por que ela não funcionou. Por quê?
Patricia LoRusso – Isso é importantíssimo. Desenvolvemos drogas com base na biologia da doença e a partir de uma hipótese. Mas o teste em seres humanos acontece muitas vezes levando em conta o que foi observado em atividades e sistemas de modelos pré-clínicos. E então esperamos que isso funcione. Mas como vamos saber o que fazer depois de um teste se não entendemos por que a droga não funciona? Na maioria dos casos, quando um ensaio clínico dá negativo é o fim da linha. Ninguém olha as amostras obtidas dos pacientes que participaram desses ensaios clínicos para entender por que não funcionou. Só que, como eu disse, câncer é um continuum e, quando um ensaio clínico dá errado, parte desse continuum pode ser a resistência a uma droga. E, assim como a resposta a um tratamento, a resistência tem várias faces. É importante entender isso. Quando uma droga funciona buscamos entender os diferentes mecanismos pelos quais isso ocorre. Mas, se vamos entrar num nível verdadeiramente personalizado de tratamento contra o câncer e olhar os tumores de indivíduos, é igualmente importante compreender os mecanismos de resposta e de resistência a uma droga. Especialmente quando se trata de um câncer metastático. Como vamos tratar pacientes com uma nova linha de fármacos se não entendemos o que está acontecendo no tumor?
Agência FAPESP – A senhora tem falado muito na próxima geração de drogas. Para onde vamos?
Patricia LoRusso – Bom, isso depende. Atualmente, estamos desenvolvendo drogas a partir de alvos moleculares que têm como base as assinaturas genéticas. Mas quão funcionais são essas assinaturas? Como saberemos se esses genes são de fato significativos e estão fazendo algo que resulte no crescimento do tumor? Não sabemos muito sobre isso ainda. Por isso ferramentas como proteômica são tão importantes nessa corrida por novas drogas e pelo entendimento da biologia da doença. Com elas podemos olhar a funcionalidade molecular e identificar quais são as diferenças. E podemos criar estratégias, combinar tratamentos. Mas ainda existem tantas perguntas sem respostas no tratamento do câncer. Pois não se trata apenas de uma questão sobre uma classe ou um tipo de droga. É preciso trabalhar com uma quantidade enorme de drogas com base em uma quantidade enorme de conhecimento que já temos para entender a biologia da doença. É por isso que ainda estamos longe da cura de pacientes metastáticos. Na minha opinião, ainda não é possível dizer que a próxima geração de drogas será de uma determinada classe ou de outra, ou novas drogas. Não é possível fazer essa previsão. Precisamos ter um olhar contínuo para os diferentes tipos de classe de drogas. Também é possível que a nova geração seja a combinação de algumas drogas, dado que a biologia do câncer é tão complexa.
Agência FAPESP – E como as novas tecnologias podem ajudar os cientistas a desenhar os ensaios clínicos?
Patricia LoRusso – Algumas dessas novas tecnologias estão nos ajudando a entender o que faz com que o tumor cresça, por exemplo. E, com isso, talvez possamos consertar o processo. É o que tem feito tecnologias como o proteoma, o transcriptoma – em especial uma abordagem chamada transcriptoma espacial [que procura revelar padrões de expressão gênica nos microambientes tumorais e associá-los ao desenvolvimento de terapias]. Quando utilizamos essas tecnologias, não necessariamente precisamos ter uma hipótese. Nesses casos você olha os dados e percebe o que está fazendo o tumor crescer. Com isso a abordagem muda, pois conseguimos entender mais a biologia da doença. Deixa de ser importante, por exemplo, focar apenas em aumentar o repertório de células T para atacar o tumor e evitar que ele cresça – até o tumor provavelmente tem suas células T, mas, por algum motivo, elas não estão funcionando – e passamos a tentar descobrir o que está dando errado para que possamos fazer isso dar certo novamente.
Agência FAPESP – A senhora acredita que, em um futuro próximo, seja possível tratar com eficiência e até curar um câncer metastático?
Patricia LoRusso – Bom, esse é o meu sonho. Quer saber o que eu acho que devemos fazer para realizá-lo? Na pesquisa em câncer, temos diferentes grupos buscando os mesmos objetivos, porém, trabalhando em bolhas. Precisamos furar as bolhas e colocar cientistas para trabalhar com médicos, pacientes e cientistas translacionais. Isso aumentaria ainda mais a nossa compreensão sobre a doença. Não por acaso, isso é exatamente o que estamos tentando fazer atualmente. Acredito que o programa AACR on Campus é uma forma de a AACR tentar entender como podemos ajudar a formar times que trabalhem juntos.
Fonte: Maria Fernanda Ziegler | Agência FAPESP

- Câncer de pele: Uma doença que cresce no Brasil
- Carreta de Mamografia oferece 700 exames gratuitos para mulheres atendidas pelo SUS; saiba como agendar
- Conheça a protonterapia, a novíssima forma de radioterapia contra o câncer
- Mulheres com câncer de mama avançado acumulam dívidas e desafios no tratamento
- Câncer de pâncreas: mais comum que antes, entenda por que ele é desafiador
- Biópsia líquida avalia eficácia de tratamento em câncer de mama
- Por que homens podem desenvolver subtipo mais grave de câncer de sangue
- Os sinais discretos que podem esconder câncer de intestino
- Como a oncologia avançou em 2025 e o que podemos esperar para 2026
- Vape e câncer de pulmão: o que a ciência já sabe da relação
- Guia orienta sobre mudança no rastreamento do câncer de colo do útero
- Carretas de Mamografia iniciam 2026 com ampliação da faixa etária para rastreio do câncer de mama
- O que muda no corpo com sol excessivo e exageros
- IA brasileira analisa câncer de mama em tempo real durante cirurgia
- Brasil é protagonista mundial em cirurgia do câncer
- Alta de câncer de pele em áreas esquecidas do corpo acende alerta
- Biópsia líquida avança como ferramenta para detectar mutações em câncer de pulmão
- Câncer de bexiga: Unicamp descobre pistas em tumores que podem explicar por que tratamento falha em metade dos casos
- Hospital das Clínicas de São Paulo promove campanha de prevenção ao câncer de pele
- Com o verão chegando, esses são os cuidados mais importante com a sua saúde
- Verão intensifica exposição ao sol e aumenta alerta para o câncer de pele
- Câncer de pele: confira orientações, sintomas e mitos sobre a doença
- Acesso à fisioterapia após cirurgia para câncer de mama vira lei; saiba por que isso é essencial
- Dezembro Laranja: 5 informações importantes sobre o câncer de pele
- Medicamento de alta precisão para câncer de mama chega ao SUS
- Dezembro Laranja no ICS: prevenção e cuidado integral no combate ao câncer de pele
- Por que millenials estão tendo câncer cada vez mais cedo?
- Inovações ampliam arsenal no cuidado com o câncer de próstata
- Mais de 60% dos casos de câncer colorretal no Brasil são diagnosticados em estágios avançados, diz novo estudo
- Estado nutricional ajuda a prolongar vida de pacientes com câncer: Revela estudo nos casos de câncer de cabeça e pescoço
- Espiritualidade ajuda no bem-estar de mulheres durante tratamento de câncer de mama
- Colesterol além do coração: estudo mostra impacto direto no avanço do câncer de mama e resistência ao tratamento
- Por que os casos de câncer de tireoide estão aumentando em todo o mundo?
- Nova IA cruza imagens e dados clínicos para detectar câncer com 94,5% de precisão
- Inca ganha primeiro centro de treinamento em cirurgia robótica do SUS
- Genética e prevenção: ampliar o olhar sobre o câncer de próstata
- Saúde da próstata: conheça mitos e verdades sobre o câncer no órgão
- Dispositivo científico pode aprimorar o rastreamento do câncer de pulmão
- Por que a incidência de câncer entre jovens adultos está aumentando?
- Novembro Azul: campanha de prevenção ao câncer de próstata estimula olhar geral para a saúde masculina
- Câncer de próstata entra em nova era: robôs, testes genéticos e novas drogas mudam o tratamento e minimizam chance de impotência
- Câncer de próstata: atendimento aumenta 32% em homens com até 49 anos
- 5 coisas que seu médico gostaria que você soubesse sobre câncer de próstata
- Novembro Azul: prevenção é essencial para a saúde do homem
- Entenda como o imposto do tabaco pode financiar o cuidado em câncer de pulmão
- Sírio-Libanês anuncia protocolo rápido de ressonância para câncer de mama
- Diagnóstico precoce reduz em três vezes o custo para tratar câncer de mama
- Novas terapias apresentam dados positivos para tratamento de câncer de pulmão
- Diferença na sobrevida por câncer de mama chega a 16 pontos entre SUS e rede privada
- Câncer de bexiga: novo exame permite personalizar melhor o tratamento
- Outubro Rosa além do câncer de mama: por que prevenir HPV é tão importante
- Câncer de mama não é tudo igual: entenda os subtipos
- No Dia Mundial de Combate ao Câncer de Mama, Ministério das Mulheres reforça medidas de prevenção e detecção precoce
- Agora Tem Especialistas lança novas carretas da saúde da mulher com oferta de exames e diagnóstico de câncer para quatro estados
- Outubro rosa: câncer de mama se manifesta em mulheres cada vez mais jovens
- Outubro rosa: as 7 frases que você deve evitar falar para uma pessoa com câncer de mama, segundo psicanalista
- Novo remédio para câncer de mama chega no SUS
- Câncer de mama: mamografia é o principal exame?
- Outubro Rosa: mulheres pedem mais prevenção e tratamento contra câncer de mama
- Apenas 29% das brasileiras têm informações suficientes para prevenção do câncer de mama
- Combinação de computação quântica e clássica apoia diagnóstico precoce de câncer de mama
- Câncer: conheça a inovação em radioterapia que precisa chegar ao SUS
- Câncer de mama não é tudo igual: mastologista explica as diferenças
- Sou oncologista. Aqui estão alguns sintomas comuns de câncer que você precisa conhecer
- Ministério da Saúde passa a recomendar mamografia a partir dos 40 anos
- ANVISA aprova mirvetuximabe soravtansina para o tratamento de câncer de ovário resistente à platina em pacientes que receberam de uma a três terapias sistêmicas anteriores
- Câncer de pâncreas: fator-chave no estilo de vida está ligado à doença, diz novo estudo
- Agosto Branco vira lei e terá ações anuais contra o câncer de pulmão
- Pacientes do SUS esperam, em média, mais de um mês além do prazo para diagnóstico e tratamento do câncer
- O discurso emocionante de Jessie J sobre tratamento de câncer no The Town
- Avanços no tratamento ampliam perspectivas para pacientes com câncer de pulmão
- Exame inovador para câncer de colo de útero começa a ser adotado em Ribeirão Preto em parceria com a USP
- Aprovado projeto que inclui testes genéticos contra câncer no SUS
- Pesquisa brasileira descobre por que alguns tipos de câncer de mama não respondem a tratamentos
- Setembro Verde: Síndrome de Lynch aumenta o risco de desenvolver câncer colorretal
- Mais qualidade de vida: o que promete remédio aprovado para câncer cerebral
- Comissão aprova prioridade de telemedicina para pessoas com câncer
- Exercícios físicos reduzem crescimento de células de câncer de mama após uma única sessão
- Câncer de pulmão: 15% dos casos acontecem em não fumantes
- Câncer renal deve crescer quase 80% no Brasil e na América Latina até 2050
- O tratamento mais inovador contra o câncer de bexiga
- SUS começa a oferecer teste que prevê risco de câncer do colo do útero
- Projeto em Goiás reduz pela metade os diagnósticos graves de câncer de mama
- Pesquisadora estuda DNA das brasileiras para compreender câncer de mama
- Câncer de intestino cresce entre jovens adultos e acende alerta global
- Entenda o tratamento de jovem com câncer provocado por vape aos 27
- Apesar de aprovado, tratamento do câncer de mama metastático continua inacessível no SUS
- Pesquisas clínicas para câncer: o que são e como participar
- Câncer colorretal em jovens e idosos: o mesmo nome para duas doenças?
- Poluição pode causar câncer de pulmão?
- Vacinas contra câncer: veja quais estão sendo testadas e o que esperar
- Estudo confirma que rastrear câncer de pulmão no Brasil é possível
- Terapia neoadjuvante em pacientes com câncer de pulmão operável: como conduzir o tratamento
- Câncer colorretal, como o de Preta Gil, cresce entre pessoas com menos de 50 anos; conheça sintomas
- Julho Roxo: alerta para o câncer de bexiga
- Terapia celular contra câncer, que Padilha quer no SUS, pode custar R$ 3 milhões a um único paciente
- O que é câncer de pâncreas, que acometeu Edu Guedes; conheça sintomas e tratamentos
- Brasil registra 39 mil novos casos de câncer de cabeça e pescoço por ano
- Poluição do ar contribui para câncer de pulmão mesmo em quem nunca fumou
- Por que os casos de câncer aumentam entre os mais jovens