Outubro em flor
Acordei antes das 6 da manhã. Chamei o caçula, que iria comigo nesta viagem de mais de 400 km. Ele tinha revisão com o alergologista desde bebezinho, o nariz escorria, coçava, medidas emergenciais íamos fazendo até chegar aos especialistas na capital, que me deram a opção de uma imunoterapia nem sabia que existia fora do universo oncológico. Eu, buscava respirar fundo, não pensar que seria a primeira viagem que faria sozinha com ele. O nervosismo começou, aquele frio na barriga “preciso me controlar, pensei”.
Enfim, seguimos para a cidade vizinha, para pegar o ônibus para Salvador onde ele faria a sua consulta e ainda, para realização de meus exames de imagem, para averiguar se a radiocirurgia no fígado surtira efeito, ou como disse a Ju dias atrás “ a fritada no fígado” (sim, ela mesmo, a Ju de Fígado é foda!) e assistir uma parte do evento realizado pelo GBECAM em parceria com o Oncoguia, o Florescer Rosa em terras baianas. Era a oportunidade de rever as amigas, de participar de um evento realizado fora do Eixo Sudeste e sair da rotina de dona de casa.
9 horas, o ônibus encosta na plataforma, seguimos com nossas mochilas e nossa sacolinha repleta de guloseimas. Ah, como meu filho cresceu! Como foi cuidadoso, perguntando a todo tempo se estava bem, tirando uns cochilinhos entre uma cidade e outra e, a cada parada do ônibus, levando-me a porta do banheiro, cuidando de mim.
Depois de algumas horas, mesmo o corpo pedindo cama, levei-o a um passeio, pois não é porque vamos ao médico que devemos perder a oportunidade de passear, de comer algo diferente o defeito desta família é gostar de comer hahahaha. O diferente pra ele? Ah, um daqueles “brabos do Mc Donalds” acrescido de bacon e cheddar. Sim, me juguem.
Seguimos uma quinta feira cheia de compromissos médicos, ouvindo e rindo das falas de Gui sobre o linguini ao pesto que estava horrível, do elevador que ele não suporta acessar e ainda da imuno que ele vai continuar a fazer. Silvia o fez companhia quando fui realizar minha tomografia e ressonância de abdome, perdendo o flagrante da mãe irresponsável atravessando a avenida fora da faixa, por favor, não façam isso. E, pergunta se eu sei o que eles falaram durante as mais de três horas juntos? Segredo total.
Na sexta-feira, o Florescer pra mim foi um jardim repleto das mais belas flores. Nunca estive num evento, mesmo quando “eu educadora” estava na ativa, para me sentir tão representada. As pessoas que ali estavam nos painéis, na plateia, as profissionais... sim, eu encontrei a maioria de pessoas pretas como eu. Sim, a cidade com a maior população preta fora da África sempre me mostrava os negros em servidão. No florescer, estavam como protagonistas! Sim, ouviram o chamado e sentiram-se pertencentes como eu naquele espaço de discussão sobre a importância de um diagnóstico precoce, da rede de apoio, do cuidado...
Obrigada Dra. Luciana pela iniciativa e a Lu, que mesmo ausente fisicamente, estava lá conosco. Infelizmente não encontrei minha amiga-irmã Iane, cuja mãe fez a passagem naquela manhã de outubro. Saí do evento com vontade de ficar, mas a missão mãe gritou mais alto, em ajudar as crianças nos dois eventos que a escola teria no domingo e segunda-feira. A mãe achou que não ia dar tempo, mas como sempre, deu certo.
Obrigada universo pelos momentos que a vida tem me dado, pelo meu terço do Caminho de Cura, dado pela minha amiga Gi.
Sobre a fritada no fígado? Ainda não tive o chá revelação, como a Fê Pires citou, mas vamos lá, um dia de cada vez.
Marta Maria da Silva
(Mãe, a professora, a cozinheira, a paciente oncológica, que às vezes escreve para distrair, membro do Comitê de Pacientes do Instituto Oncoguia)