Natal Real
Ela sempre gostou das luzes de Natal. De caminhar pelo shopping nessa época. O movimento, o brilho, as vitrines acesas. Havia algo nos cheiros, nos sabores e naquela promessa silenciosa de encontro que a encantava. Quando criança, colocava o sapatinho na janela, mesmo sabendo que o velhinho de barbas branquinhas, que fazia a alegria da criançada da família, era o próprio pai.
Mas, naquele ano tudo parecia diferente. As luzes perderam um pouco de brilho. Na sala de quimioterapia, ninguém teria se lembrado da data se alguém não tivesse insistido em colocar uma árvore enfeitada bem no meio do caminho. A comunhão deu lugar ao isolamento. A mesa farta foi substituída por uma dieta restritiva. Não havia tanto sabor, nem cor, nem festa.
Que Natal é esse que celebramos? Qual é, afinal, o sentido do Natal quando o corpo dói, quando a rotina é atravessada por exames, medos e incertezas? E foi assim, em meio à fragilidade, que tudo começou a fazer sentido. Natal não é cenário, nem consumo, nem abundância. Natal é vida que insiste, esperança que resiste, renovo possível mesmo nos dias mais desafiadores. Natal também é presença, VIDA. Natal é amor, sinônimo dAquele que nasceu na tão famosa data que festejamos. É a esperança que nos faz lembrar que, apesar de tudo, um novo dia ainda pode nascer.
Com o pouco de força que tinha, ela espalhou alguns enfeites guardados do último Natal vivido em família. A mãe percebeu o esforço, a euforia meio contida, e entendeu que era preciso celebrar, mesmo sem multidão, mesmo sem excessos. Um jantar simples foi preparado para quatro pessoas. Todos se vestiram para a Ceia. Partilharam o pão e agradeceram ao aniversariante pela VIDA e pelo milagre silencioso de ainda estarem juntos. A pequena sala do apartamento se encheu de alegria. E ali, no meio da noite, chegaram os presentes mais raros, mais caros: uma paz difícil de explicar, a esperança firme e uma fé renovada.
Depois de anos, aquele Natal permanece inesquecível e muito especial porque ele nos ensinou que o que realmente tem valor, não tem preço e não exige perfeição.
Escrevo especialmente para quem hoje passa o Natal como eu já passei: Entre consultas, medicamentos, hospitais ou silêncios difíceis. Que esse relato encontre pacientes, familiares e cuidadores. Que seja um convite gentil para que você celebre do jeito que for possível! Com pouco, com silêncio, com lágrimas, com amor. E sobretudo com muita esperança. Porque o Natal Real acontece justamente onde a vida, apesar de tudo, insiste em nascer. Que o Natal Real nasça dentro de você.
Quézia Queiroz é jornalista, e se orgulha de ter sido a menina que escrevia todo ano uma cartinha para o papai Noel.
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