Mulheres com doenças como ansiedade e depressão têm mais chance de desenvolver câncer de colo de útero
Quando a enfermeira Juliana Martinovski viu, no Sistema de Informação em Saúde para a Atenção Básica do SUS (Sistema Único de Saúde), que a proporção de mulheres do seu estado que fizeram exames preventivos para o câncer de colo de útero, tomou um susto. Somente duas em cada dez haviam feito os testes. Convencida do seu papel como profissional de saúde, ela começou a pesquisar os motivos e descobriu que muitas pacientes sentem vergonha de buscar um consultório.
"Eu me preocupei, porque às vezes dentro desse índice pode estar um parente meu, amigas minhas que não estão se cuidando", diz.
Martinovski, que aplicou entrevistas com pessoas da zona rural do seu município durante um mestrado desenvolvido na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), descobriu que medo, vergonha, falta de transporte e até os serviços domésticos impediam essas mulheres de cuidar da própria saúde. Os resultados do trabalho foram publicados no Journal of Nursing Education and Practice.
Além desses fatores, um estudo publicado na revista The Lancet Public Health aponta que mulheres com doenças mentais ou distúrbios psiquiátricos, como ansiedade, depressão, autismos e TDAH (transtorno do déficit de atenção e hiperatividade), por exemplo, são mais propensas a desenvolver a doença.
São previstos, segundo o Instituto Nacional de Câncer, 17 mil novos casos entre os anos 2023 e 2025, garantindo a sexta posição entre os tipos mais comuns de câncer no país. A única diferença é que o tumor poderia ser completamente erradicado. Na região norte brasileira, a doença sobe para o segundo lugar. Em 2020, a falta de tratamento levou uma mulher ao óbito a cada 80 minutos.
Segundo a pesquisadora, a falta de conhecimento está por trás do constrangimento que as pacientes sentem ao irem em consultas médicas. Se sabem da importância do exame e qual o procedimento necessário, Martinovski relata que muitas se sentem mais relaxadas e inclinadas a buscar a prevenção.
Além disso, a busca ativa dessas pacientes é uma forma efetiva para chegar em mulheres que trabalham cuidando da casa e da família. Em zonas rurais, essa parcela da população nem sempre consegue ir sozinha até regiões centrais para fazer consultas e exames. Ter com quem deixar os filhos também é uma preocupação que as entrevistadas relataram.
Martinovski também destaca que muitas pacientes não buscam atendimento porque nunca sentiram sintomas. O câncer de colo do útero é consequência da infecção pelo vírus HPV, que pode demorar até 10 anos para desenvolver uma lesão na região, período que a pessoa fica assintomática. Durante esse tempo, entretanto, o tumor pode evoluir para formas mais agudas e até mesmo entrar em metástase, processos que exigem tratamentos mais complexos.
O estudo publicado na revista científica The Lancet, desenvolvido em parceria por pesquisadores europeus e americanos, mostra que mulheres com doenças mentais, distúrbios psiquiátricos ou com abuso de substâncias têm o dobro de chances de desenvolver câncer do colo do útero.
Os autores da pesquisa defendem que essa parcela da população deve ser considerada como um grupo de risco para a doença e que recebam maior atenção nas campanhas de conscientização. Além disso, a cobertura vacinal contra o HPV e a capacitação de profissionais de saúde no atendimento desse público são obstáculos que levam aos números encontrados.
Diferente de grande parte de trabalhos anteriores, realizados com poucos participantes em um curto período de tempo, dessa vez os cientistas acompanharam 4 milhões de mulheres entre os anos de 1973 e 2018.
No estudo, a relação entre o risco de câncer do colo do útero e doenças mentais é complexa. Em primeiro lugar, essas pessoas podem precisar de cuidados especializados. Caso não tenham, as chances de infecção por HPV aumentam de forma considerável. Além disso, o baixo nível socioeconômico, tabagismo, consumo de álcool e falta de acesso a serviços de saúde são outros complicadores.
O médico Fernando Sommacal acrescenta que a doença é completamente prevenível, diferentemente de outros tipos de câncer, porque é visível, tem um agente causador bem definido que pode ser rastreado por testes biomoleculares e uma fase pré-clínica muito longa.
O exame ginecológico responsável pela identificação de lesões ou do vírus HPV é o papanicolau, que consiste na coleta de células do colo do útero. Uma vez identificado o problema, entretanto, o especialista responsável pode eliminar as lesões no colo do útero antes que elas gerem complicações piores. No caso de pacientes que estão em fases precoces do tumor, as chances de cura são maiores. Em quadros mais avançados, porém, ainda que a cura seja possível, a necessidade de procedimentos complexos como cirurgias, radio e quimioterapia pode drenar a qualidade de vida das mulheres afetadas.
O número de exames preventivos realizados está aquém do necessário. Em uma nota técnica do Ministério da Saúde, o governo reconhece que o país não tem condição de alcançar uma cobertura que garantiria a testagem em 80% das brasileiras, e traça a meta de chegar a apenas 40%. Mas, segundo a professora Luciana Martins da Rosa, da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), não atingimos nem mesmo esse objetivo. Os dados do Sistema de Informação em Saúde para a Atenção Básica mostram que em 2022 a média nacional foi de 19%.
Ela destaca também a existência de grupos ainda mais vulneráveis à doença. A escolaridade, a renda e a cor da pele são fatores que diferenciam quem recebe ou não atenção básica de saúde. As condições de saúde mental também são um fator de risco, dado preocupante segundo a professora, pois a estimativa é que esse tipo de comprometimento aumente na próxima década.
Recentemente o Ministério da Saúde anunciou o investimento de R$ 18 milhões na Estratégia Nacional de Controle e Eliminação do Câncer Cervical, feita com base em um projeto-piloto desenvolvido em Recife. Os objetivos do programa incluem a ampliação da cobertura vacinal contra o HPV em meninas e meninos de até 14 anos e a inclusão de novos testes PCR para identificação do vírus no SUS. A primeira fase do projeto vai ser realizada em Pernambuco antes de ser estendida a todo o território nacional.
Fonte: Folha de S.Paulo

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