Mais difícil que o câncer
Há uma violência cotidiana que atravessa quem vive com câncer. Ela não vem apenas da doença, dos efeitos colaterais ou da incerteza. Vem das palavras. Das interpretações alheias ou julgamentos disfarçados de opinião, conselho ou falsa compaixão.
O câncer é uma doença. Acontece por razões genéticas, ambientais, acaso biológico. Não é punição. Não é falta de fé. Acontece. E quando acontece, exige acesso, tratamento adequado e acompanhamento. Mesmo assim, ainda é mais confortável acreditar que a doença é consequência de uma falha individual, a aceitar que ela pode simplesmente acontecer. Quando alguém sugere que o câncer persiste como se fosse um castigo, transfere para o paciente uma culpa que ele não tem.
Vale dizer então que dispensamos as receitas milagrosas. Não existe o chá que cura câncer. Também não existe o rancor que sozinho faça um câncer surgir. Que bom seria ter todo esse poder de fabricar o próprio câncer. Assim, teríamos também o de destruí-lo. Não existe um alimento anti-câncer. Também não é possível dizer que um câncer surgiu por causa daquele brigadeiro de toda sexta-feira. Antes de falar, considere que você pode ter caído na cilada de simplificar uma doença ainda bastante complexa.
Nesse cenário das palavras impensadas e ditas, está na hora de encarar que quem partiu, não foi vencido pelo câncer. O câncer nunca vence. E quem continua vivo também não é heroi. Porque a verdade é que não há guerreiros. Nunca houve uma guerra. E se houvesse, quem entraria nela por vontade própria?
Há pessoas em tratamento que seguirão vivas e, se tudo der certo, seguirão bem, pelo tempo que cada uma tem. E esse tempo, que a gente não controla, também segue isento de autorização social. Ninguém deve explicações sobre o tempo do seu tratamento. Ninguém precisa justificar por que continua vivo e o outro não. Não é por merecimento ou pela falta dele, é a vida que segue o fluxo individualizado. Não há fórmulas mágicas.
O câncer é uma doença, não é um teste de coragem, nem um julgamento de valor. Não é sobre força ou fraqueza. Não é sobre desistir ou insistir. É sobre fazer o possível, com o que se tem, no tempo que se vive.
Então, a pergunta não deve ser: “até quando você vai tratar?”, mas “como posso estar ao seu lado sem te ferir?” Porque viver, mesmo em meio ao câncer, nunca deveria ser visto como um erro. Seguir em tratamento é viver a própria vida como ela se apresenta. É seguir em frente apesar de… Não há excesso. Não há falta. Não há dívida
Quézia Queiroz e Vanessa Costa
Membros do Comitê de Pacientes com Câncer Oncoguia
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