Linha da vida

Acordei e, como de costume, pego o celular do lado da cama, para verificar as horas e colocar as crianças para se arrumarem para a escola. Uma mensagem no celular me chamou a atenção: era do marido de uma amiga do voluntariado, avisando que ela estava no hospital e não estava bem. 

Dias antes, tínhamos dialogado sobre sua mudança de protocolo, assim como coisas do cotidiano. Nossos diálogos sempre vinham carregados de histórias dos filhos, dos sonhos, das alegrias das viagens em família, dos shows mesmo diante das limitações vencidas dia após dia. “Quem vê o close, não sabe o quanto nos esforçamos pra viver a vida diante dos nossos”.

Seguiram-se os dias e meu coração apertadinho de não ter conversado mais com a minha amiga Fer, mas ao mesmo tempo, grata pela oportunidade de viver um pouquinho dos seus dias, mesmo geograficamente longe. Ela segurou minha mão quando da minha progressão hepática, surpreendendo-me com um mimo. Em setembro, no TJCC, a primeira pessoa conhecida que vi, naquela imensidão de gente! Abraços muitos, retribui o mimo, querendo um pedaço de Andorinha com ela. Nossa, foi uma oportunidade ímpar de abraçar, trocar energia boa, dizer o quanto se ama alguém por tudo aquilo que ela é!

E, menos de uma semana depois daquela mensagem de aplicativo de celular, uma noticia que rasgaria a todos nós, a da sua partida. A cabeça roda, o peito rasgado, as lágrimas a rolar... embora saibamos que é o destino de todos, que acompanhávamos as notícias, a forma como chega, que nos atravessa e nos faz pensar na ausência física daquela pessoa nos nossos dias, porém viva e gigante em tudo que se propôs a fazer. Isso é legado, é exemplo a ser seguido, é o colo que nos é dado, mesmo sem o toque físico.

Vivendo a dor deste luto distante, filhos doentes, eu adoeci. Febre, tosse, coriza, atividades conclusivas do ano letivo, minha medicação agendada para os próximos dias, hemograma a fazer, aniversário a chegar... 

E, o grande dia chegou. Os meus 44 anos, sendo cinco anos destes imersa nesta nova realidade. Não quis fazer qualquer tipo de comemoração, além de um ensaio fotográfico. Eu sou a do “rolê que gosta de fazer evento, mas para os outros”. Passei um dia como outro qualquer, recebi algumas ligações, mensagens, mas queria um colo, um mimo que fosse daqueles que preenchem os meus dias_ dá um vazio, um sentimento de desimportância.

O sol a brilhar, os pássaros a cantar, a vida que segue lá na janela de casa. Ganhei um presente especial de uma colega de trabalho, que eu sequer esperava. Porque, quando se vive a “quase aposentadoria”, parece que passamos a viver uma morte em vida. Poucos são os que se mantém segurando a nossa mão, nos acompanhando e de fato querendo saber de você e não só um “curioso de plantão”. E chorei por isso, desabafei com Van, na verdade desabafamos, em mais de mil quilômetros de distância; eu, em casa, ela, no hospital. Como minha mãe dizia “cada um no seu canto, sofre o seu tanto”... Também recebi um mimo da minha irmã e família, o que, ao meu ver, as arestas estão sendo aparadas. E, que assim seja. 

E, mesmo com o corpo cansado, pedindo cama, há de se manter alerta, porque há uma nova semana prestes a começar e com ela, uma viagem praticamente de “bate e volta” a Salvador e um aniversário pra organizar.

E sigamos, que a vida lá fora não para. 

Marta Maria da Silva

(Em inúmeras “gavetas abertas”, apresentando em crônica, os altos e baixos de nossa vida. Voluntária, membro do Comitê de Pacientes e Embaixadora da Rede de Pacientes Negros com Câncer do Instituto Oncoguia)

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