Inovações ampliam arsenal no cuidado com o câncer de próstata

Estimativas da OMS apontam que cerca de um em cada cinco indivíduos desenvolverão câncer ao longo da vida em todo o mundo¹. No Brasil, o último levantamento do Instituto Nacional de Câncer (INCA) para os anos de 2023 a 2025 indicou que o país teria aproximadamente 700 mil novos casos da doença por ano. Destes, 10,2% devem ser de câncer de próstata, o mais prevalente entre os homens no país, com exceção do câncer de pele não melanoma². Apesar do aumento na incidência dos casos, a mortalidade da doença entrou em declínio nos últimos anos em razão dos avanços do acesso aos exames de rastreio e à evolução das opções terapêuticas³. Além de novas combinações de medicações já existentes, a área aposta na busca por novas opções com ação mais acurada sobre as células tumorais e menos efeitos colaterais.

No câncer de próstata, a entrada na medicina de precisão tem um ritmo diferente em comparação a outras áreas da oncologia, cada vez mais ligadas ao desenvolvimento acelerado da genômica⁴. Isso porque a doença tem complexidades. São tumores mais heterogêneos, o que dificulta a identificação de alvos acionáveis, como já acontece no dia a dia clínico em casos de câncer de mama e do pulmão, por exemplo.

O aumento da sobrevida, inclusive, tem guiado a nova onda de inovações baseada na lógica de cuidado centrado no paciente. Uma vez que é cada vez mais comum que o paciente oncológico viva anos com a doença, especialmente nos casos do câncer de próstata, é importante que a sua qualidade de vida durante e após o tratamento comece a ser ponderada⁵. Essa mudança já tem sido vista nos estudos clínicos mais recentes.

“Estamos em uma era de combinar medicamentos e cada um traz os seus efeitos colaterais. Nosso desafio é fazer com que isso seja feito de um jeito eficaz, mas que não seja mais tóxico e não piore a qualidade de vida do paciente”, explica o oncologista Oren Smaletz, do Einstein Hospital Israelita.
“Grandes estudos hoje não só focam na eficácia, mas também contam com um critério que avalia a deterioração da qualidade de vida. A ideia é entender se os pacientes vivem mais, mas com qualidade.”

 

Intervenções combinadas

Mesmo diante do aparato tecnológico e científico atual, a jornada do desenvolvimento de novos fármacos ainda é longa. Entre a descoberta de novas moléculas, estudos clínicos e etapas regulatórias, a espera pode chegar a uma década. Por isso, a tendência de explorar resultados da combinação de medicamentos já disponíveis é vista com bons olhos.

Nos últimos anos, estudos que investigam os ganhos das intervenções combinadas têm ganhado destaque nos principais congressos de oncologia do mundo. Na recente edição do encontro da Sociedade Europeia de Medicina Oncológica (ESMO), realizada no fim de outubro em Berlim, na Alemanha, por exemplo, os resultados do estudo EMBARK⁶ foram recebidos com entusiasmo. O ensaio clínico de fase 3 acompanhou pacientes com câncer de próstata durante oito anos.

Nele, avaliou-se o uso de um inibidor do receptor de andrógeno de nova geração, sozinho ou combinado à Terapia de Privação Androgênica (ADT, na sigla em inglês), em homens com câncer de próstata hormônio-sensível não metastático – ou seja, que ainda responde a terapias hormonais e não apresenta sinais de disseminação para outras partes do corpo – com recidiva bioquímica de alto risco. Aproximadamente 90% dos homens com esse perfil da doença desenvolvem metástase, tornando a intervenção precoce crucial, estratégia corroborada pelos resultados do estudo⁶.

“Metástases, quando aparecem, causam impacto psicológico e físico, com a manifestação de sintomas como dores e fadiga. Neste momento, é necessário entrar com novos recursos, como atendimento multidisciplinar, radioterapia, analgésicos. Entretanto, o custo do tratamento consequentemente se torna maior. Por isso, o diagnóstico precoce e o atraso da metástase trazem benefícios não só para os pacientes, mas para o sistema de saúde como um todo”, pontua Smaletz.

Para os pacientes que receberam a terapia combinada observou-se risco reduzido de 58% no risco do surgimento de metástase ou morte. Foi demonstrado também que a intervenção conjunta reduziu o risco de morte em 40,3% em comparação com o uso isolado da hormonioterapia e 79% dos pacientes estavam vivos⁶. A análise final não identificou novos riscos de segurança, mantendo o perfil já conhecido do inibidor do receptor de andrógeno.

Esta combinação já era usada na doença metastática com resultados positivos, sendo este o único tratamento a demonstrar benefício em toda jornada do paciente com câncer de próstata. Entretanto, na época da análise e publicação dos primeiros resultados do estudo, os dados de sobrevida global ainda eram imaturos. Os achados do novo estudo trazem uma nova perspectiva: administrada em um estágio mais precoce da doença, além da redução do risco de metástase, há também um ganho de sobrevida para os pacientes. "Esse foi o grande impacto desse estudo", pontua Smaletz. "Claro, queremos saber se tem algum benefício para os pacientes, como a redução da chance de metástase, mas também temos muito interesse no benefício maior, que é permitir que os pacientes vivam por mais tempo."

Os dados relacionados à qualidade de vida, cada vez mais relevantes, também foram positivos. "A única evidência de doença é um PSA alto. A qualidade de vida destes pacientes geralmente é boa, e o objetivo é que ela permaneça assim ao iniciar um tratamento", explica o oncologista. "O estudo mostrou justamente a manutenção dessa qualidade de vida."

 

Inovações em todas as áreas

Outra evolução no campo do câncer de próstata envolve os radiofármacos, da medicina nuclear, que têm conquistado seu espaço, como destacado no ASCO 2025⁷. Eles são compostos com radionuclídeo usado em diagnóstico ou terapia e têm uma categoria específica chamada de radioligantes, moléculas que carregam marcadores, que, ao se ligar a um alvo específico, permitem que a terapia seja direcionada.

Hoje, o principal radioligante disponível representa um avanço, mas ainda possui certas limitações. Por ser uma partícula maior, ela ainda atinge uma quantidade significativa de células saudáveis, o que resulta em efeitos colaterais de maior impacto para o paciente. Por isso, pesquisadores seguem buscando novos tipos de radioligantes⁸. "O radioligante com emissor ionizante alfa consegue fazer uma terapia de radiação dentro da célula cancerígena de maneira mais focada, com menor impacto nas células saudáveis", explica Oren Smaletz. Segundo ele, o método já era utilizado em fases mais avançadas da doença e agora começa a ser estudado para aplicação em fases mais precoces.

Mas além do avanço das opções terapêuticas, outras frentes de atuação no câncer também evoluem rapidamente. A cirurgia robótica é uma delas⁹. A técnica vem revolucionando a forma como a cirurgia de tumores de próstata é feita e entra em uma nova fase. Além da evolução tecnológica natural, novos players começaram a entrar no mercado, o que dá início ao movimento de mais acesso da tecnologia. A expectativa é de que, nos próximos anos, a cirurgia robótica seja mais capilarizada. A técnica foi incorporada pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec) em outubro deste ano.

Também está entrando no radar a capacitação de profissionais para operar essa tecnologia. "O robô mimetiza o movimento do cirurgião de uma maneira que o corte da cirurgia é menor, a recuperação do paciente é melhor, o risco de complicações é menor", argumenta Smaletz. "É algo que não tínhamos há cinco anos. A cirurgia robótica não cura mais, mas cura com menos complicações e com mais agilidade na alta e na recuperação do paciente."

A biópsia líquida é outra técnica que avança. Trata-se de um conjunto de exames que podem ser realizados a partir do sangue, da saliva, urina e de outros fluidos corporais para detectar fragmentos de DNA tumoral circulante (ctDNA) e mutações específicas em determinadas células tumorais. O conceito já é consolidado em casos metastáticos, mas o avanço da tecnologia tem ampliado o horizonte para aplicar o método olho na prevenção e na medicina de precisão¹⁰.

 

Olhar para o futuro

Todas essas evoluções representam novos caminhos sendo explorados nos laboratórios de pesquisa, ainda que em estágios iniciais. É o caso das terapias virais. De acordo com a Sociedade Americana de Câncer, alguns vírus podem ser modificados especificamente para infectar e destruir células cancerígenas, preservando as células saudáveis. Eles também podem ativar o sistema imunológico, ajudando-o a reconhecer e atacar outras células cancerígenas.

Atualmente, o tratamento é aprovado pela Food and Drugs Administration (FDA)¹¹ apenas para o câncer de pele melanoma, mas já começa a ser investigado para outros tumores, como o câncer de próstata. "São vírus injetados dentro do tumor e, com isso, podem aumentar a eficácia de alguns tratamentos combinados", diz o Smaletz. "Temos também anticorpos conjugados, que funcionam como um tipo de cavalo de Troia, e a chegada dos novos radioligantes. O arsenal tem aumentado."

Além das novas opções, o oncologista destaca outra frente que exige tanto ou mais esforço, que é a identificação precoce do melhor paciente para a melhor terapia. A ideia é ser cada vez mais capaz de triar os pacientes de acordo com a possível resposta a cada perfil de terapia, aprofundando a abordagem de precisão no câncer de próstata.

Smaletz explica que, pela heterogeneidade do tumor, que costuma ser multifocal, é preciso separar os pacientes que necessitam de uma intervenção precoce daqueles que vão conviver de maneira saudável com a doença por anos, em razão do aumento lento do PSA. A partir dessa diferenciação, é possível entrar com o melhor da medicina para cada caso.

"A ideia é exatamente descobrir como selecionar melhor esses pacientes", defende. No câncer de mama, se chegou a tratamentos mais direcionados para cada perfil molecular do tumor graças ao desenvolvimento de biomarcadores como receptor de estrógeno, progesterona e HER2. "Para câncer de próstata não tínhamos isso, mas agora, com novas técnicas moleculares, conseguimos fazer melhor o direcionamento dos tratamentos. Estamos tentando chegar lá", conclui.

Fonte: Futuro da Saúde 

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