GERAÇÕES
Mês da mulher e em meio as mensagens melosas do dia (eu já disse a vocês que eu odeio a forma como algumas datas são colocadas por aí?), continuamos a ver nas redes sociais, na rua, no noticiário, casos de feminicídio, estupros, tentativas de estupro, assédio, enfim, que as vezes eu uso o termo “ estão nos matando feito baratas!”
Dia desses, revisitando alguns papéis da época de adolescente, acredito que cada mulher guarde numa caixinha aquelas agendas relatando sobre aquele carinha da escola, ou ainda das inconformidades do ser adolescente! É tudo urgente demais, é tudo muito intenso, parece que só nós sofremos ou conhecemos a vida. Pois é, as minhas agendas não existem mais, quando eu descobri a metástase comecei a “tocar fogo em tudo”, evitar que outros o façam lá na frente, mania de organização. Mas, ficou uma pasta, com cartas, poemas e relatos, cartas de mim para mim e numa delas eu falava sobre a importância da gente se rebelar e buscar os mesmos direitos que os homens. Lá inclusive tinha um questionamento: _ o homem que namora muito é o garanhão e a mulher que namora muito é galinha, não é estranho, porque se o homem namora demais, vai namorar com quem (me referindo aos héteros, porque o termo garanhão acho que nem é mencionado pelos gays)?
Sim, menina um tanto rebelde, onde mesmo diante de vários tipos de assédio sofridos, de palavras desferidas _ sim, nós temos direito a dizer NÃO, a “cortar ousadia”¹ na hora que acharmos melhor, mesmo que antes houvesse consentimento. Hoje, com a Lei Maria da Penha as mulheres têm se sentido fortalecidas a denunciar seus algozes e a imprensa também está com um olhar diferente na divulgação destes crimes, o que nos dá uma visão de “aumento de casos”. E, quase trinta anos depois dos meus pensamentos de adolescente, percebo uma certa regressão de pensamento, pois têm aparecido discursos de ódio disfarçados de “macho tem que ser o provedor do lar”. Ai, parece que ao escrever isso, sinto um Neandertal fungando nas minhas costas, querendo me arrastar pelos cabelos.
Sim, há um movimento aí chamado “Red Pill”, que de verdade, eu só ouvi esse termo recentemente_ sei lá, coisa de um ano ou menos. Mas, ultimamente ganhou páginas de jornais, esclarecendo quem são, como agem e os “influenciadores brasileiros” a seguir essa linha. Dei uma olhada na minha rede social se alguma pessoa próxima seguiria os mesmos e me assustei com o que vi. Eu entendo que parte destas pessoas que conheço os seguem talvez por uma publicação que seja acerca de um tema dentro do seu nicho, como atividade física, por exemplo, mas assusta, merece atenção. É assustador ver homens que têm ódio de mulher, que acreditam que mulher tem que ficar em casa. Que não pode se maquiar. Que tem que fazer o que o “macho alfa” quiser.
Sabe, eu não consigo processar no século XXI, depois de tantas lutas, ainda ouvir discursos misóginos, discursos como já ouvi que “não dá mais pra sair pra uma festa e queixar² uma menina, que agora tudo é assédio!”. Não queridos, assédio é você estar passando numa festa e um cara te puxar pelo braço, pelo cabelo, de agarrar pela cintura, não te dar passagem ou te prender numa rodinha de homens. Violência é você passar e alguém meter a mão sob a sua roupa, é ser apalpada, é não poder sair de uma festa sozinha, com risco de ser seguida, atacada, sei lá o quê. Então, não confundam as coisas, por favor! Eu vivi num tempo que o meu comportamento era “sugestivo” se é que me entendem. A pessoinha aqui vivia de minissaia e era daquelas de ir sozinha para festas e eventos. Não quero mais ver perguntas como “a roupa que ela estava”. Chega!
Atualmente existe um projeto para criminalizar a misoginia. E, porque eu estou falando tanto sobre isso? Eu sou mulher, mãe de menino e quero educar homens que além de respeitar, sejam parceiros de suas companheiras. De verdade, tenho receio de que “não dê tempo” ter todas as conversas necessárias para a formação deles, porque com o “inimigo” internet, fica muitas vezes difícil. Dia desses, fui falar sobre sexualidade e sobre o que eles têm tido acesso, pornografia com o pior do pior das pessoas _ vi um reflexão ótima sobre isso num documentário com ex-atrizes pornôs falando sobre esse tema. Jovens que veem aquilo e atribuem que a violência ali empregada é o que acontece nas quatro paredes (por favor quem gosta de um tapinha ou coisa do tipo me desconsidere hahahahah). Nem vou muito nessa “pegada”. Quem nunca ouviu falar da performance artística Rythm, onde a mostra precisou ser interrompida por sérios risco de vida da artista, não vendo ali uma mulher, um ser humano e sim um objeto? E estamos falando de anos 70! Mas é isso. É uma preocupação da mãe oncológica, que tenta atrasar os ponteiros do relógio, da mulher, de como estamos formando nossos jovens, o futuro.
E, depois de tudo isso, quem me acompanha pra um café, obviamente que cada um nas suas casas? Um abraço a cada mulher que mata um leão por dia e deixa mais uns dois amarrados para o dia seguinte.
Marta Maria da Silva
A mãe que mesmo morando numa cidade pequena, quer antes de morrer preparar filhos para um mundo mais justo, mais fraterno, de responsabilidades compartilhadas
Membro do Comitê de Pacientes e da Rede de Pacientes Negros com câncer do Instituto Oncoguia.
¹cortar ousadia- Deixar de atrevimento
² queixar- flertar, dar em cima
- TEMPESTADE
- Remedinho caseiro
- Ei, mulher!
- Mais difícil que o câncer
- Feliz ano novo
- De paciente para paciente
- Chá revelação
- Virada de chave
- Natal Real
- Retrospectiva
- Linha da vida
- A vida é tão rara
- Laços e lições
- Humildemente falando...
- Propósito
- Outubro em flor
- Outubro (nem sempre) Rosa
- Qua(trilha) da vida
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- Redes sociais à parte, você está bem?
- Fígado indigesto
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- A salsicha, o câncer e o nosso discurso bonito
- Quantas somos?
- Sobre lutos (as)
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- E esse tal de HPV?
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- PaliATIVA, eu?
- Carta para Júnior
- Um fenômeno chamado fake news
- Câncer com ascendente em tanta coisa
- Ressignificando a jornada oncológica com a comunicação não-violenta
- Entre ramos e folhas
- Eu ainda estou aqui