Fígado indigesto
Longe de casa, há mais de uma semana... começo essa crônica, me remetendo ao “clássico” dos anos 80, gravado pela banda Blitz, morrendo de saudades de minha casa, dos meus filhos, nos quais falo todos os dias a noite durante o dia, são tantas atividades deles, que nem dá para a gente se falar com maior frequência. Cansada de gastar tanto dinheiro, não se dá um passo nesta cidade sem gastar! Gastei o que tinha e o que não tinha. É um tal de Uber para lá e para cá isso falando somente de ida para fazer a “rádio” e voltar para casa. Para não dizer que não tive momento de descontração, tirando o dia que fui para a Flipelô, no Santo Antônio Além do Carmo ver a Carol e as duas idas para a casa de meus compadres, o restante dos dias foram em casa.
Não poderia deixar de falar sobre a visita que realizei junto com Silvinha ao Hospital do Monte Serrat, destinado a cuidados paliativos, 100% SUS. A visita surgiu de forma despretensiosa, em um comentário que fiz no Instagram da Secretaria de Saúde do Estado da Bahia parabenizando-os e mencionando que adoraria visitá-los. Em poucos dias, me responderam no direct, e assim surgiu o agendamento. Agendei como paciente paliativa e não como voluntária Oncoguia, contudo hoje não vejo uma separada da outra.
E, vivi as minhas tardes e noites, contabilizando, avaliando qual boleto deixara atrasar sim, a gente tem câncer e os boletos continuam chegando... E, a cada débito realizado na conta, batia aquela angústia, um sentimento de impotência e inutilidade sim, porque acaba que o orçamento da família acaba sendo direcionado aos meus deslocamentos para Salvador. Sabe, olhar para tudo isso e entender que, de repente eu vou morrer e que na minha vida eu nunca tive um dia que não fosse repleto de responsabilidades e obrigações, de ter que pensar no futuro! De não comprar aquela roupa que achei bonita na vitrine do shopping, ou ainda a TV do Marcelinho e a Bicicleta do Gui, porque, tudo nesta família gira em torno do câncer! Aquela angústia misturada com decepção, a me invadir.
Enfim, o grande dia de voltar para casa estava chegando. Ansiedade a mil, fui a radioterapia logo nos primeiros horários. Tudo tranquilo, relatório de alta, vou para a oncologista. Os minutos vão passando, não daria tempo viajar ao meio dia e, consequentemente eu iria chegar em casa não as 20h, mas a meia noite. Marido colocando a pilha, logo eu, que já estava a mil. Aí comecei a chorar no meio da recepção da clínica, um choro sentido, de soluçar, mas por dentro eu estava me sentindo como Michael Douglas em Um dia de Fúria. Para eu explodir de vez, só faltava o taco de beisebol.
A consulta transcorreu com a pessoa chorando, reclamando do mundo e de tudo. Olho inchado, vontade de gritar, e desabo para meu cuidador, meu companheiro de 19 anos que, se ele está cansado, imagina eu! Que tantas vezes eu guardo para mim os meus medos, minhas angústias, porque o peso para todo mundo já está demais eu pelo menos faço terapia, senão teria enlouquecido. São quase cinco anos difíceis, aproximadamente 400 dias fora de casa.
E, que Deus permita que a fritada no fígado tenha sido bem sucedida e que eu permaneça por um bom tempo indo pra Salvador somente a cada 28 dias.
Rezem por mim.
Marta Maria da Silva
(Paciente de câncer de mama metastático, membro do Comitê de pacientes Oncoguia e Embaixadora da Rede de Pacientes Negros com Câncer).