Feliz ano novo
Dizem que o ano só começa depois do carnaval. O meu começou em pleno Dia de Iemanjá, a nossa mãe das águas. Refleti sobre janeiro, mês que normalmente todos nós pacientes oncológicos agendamos exames de acompanhamento. Observo as redes sociais, todo mundo falando sobre o medo dos exames, de fazer, do resultado e esse medo é genuíno, quem passou por esta jornada não quer passar por ela de novo. Ecoam os cheiros, locais, gatilhos... e muita ansiedade.
Eu, mais uma vez tive a felicidade de realizar a minha radiocirurgia em tempo, não trazendo mais dificuldades no que diz respeito a logística. Sim, a gente tem câncer, mas tem que ter energia pra lutar com o plano de saúde, com o hospital, com a logística das crianças, com o fato de morar tão longe e com o mundo lá fora. Contudo, no meu caso, a cereja do bolo no período da radiocirurgia foi me deparar com a hemoglobina baixa e em consequencia, ganhar uma transfusão de sangue que me levou pra um lugar de muita reflexão, de choro_ me transportou para as palavras das minhas diretivas antecipadas de vontade. Paredes, lâmpadas fortes, gemidos e a ansiedade do meu marido para “terminar logo com isso”. Pensei muito nos meninos, pensei muito nas minhas amigas que já passaram por inúmeras vezes por internação e pelas que partiram... chorei.
Volto pra casa, sonolenta, ansiosa pra chegar... meu quintal, o cheiro da caatinga, nossa, que saudades! E, a mãe seguiu neste ano novo no processo de, organiza material escolar e fardamento de menino, compra livros, recebe boleto de mensalidade, vai a quitanda e ao supermercado, vai ao laboratório já deixar os exames agendados, começa a frequentar a academia (uhuuuu eu estou adorando), paga boletos e aproveita para separar muito material para reciclagem. Conversa com a família, se preocupa, se entristece, porque as vezes a gente mergulha em novas experiencias porque afinal, “quando terei essa oportunidade de novo?” e recebe um “isso é loucura!”. Por isso muitas vezes a gente se culpa por ter ido naquele café que a experiência custa 5% do salário mínimo_ aí vêm na cabeça a fala dos economistas em reservar 30% para despesas com moradia, 20% como reserva de emergência. Como raios eu consigo uma reserva de emergência se eu já vendi todo o meu crédito com instituições financeiras para gerenciar o básico? É, porque mesmo o tratamento sendo gratuito (no caso do SUS) e eu com plano de saúde, tem toda uma logística por trás: custas com o plano, alimentação de qualidade, deslocamento, alguns medicamentos, entre outras demandas que chegam para nós. E muitas delas a gente não faz por falta de grana! Para quem está de fora, se você passeia, tem dinheiro sobrando. Se você está aproveitando algo, você não sente dores, não faz ideia das muitas vezes o esforço enorme para estar ali. Parece que temos que viver arrastando correntes, moribundas. Quem tem câncer costumo dizer que “nem morre nem escapa”, vive com sequelas, com medo, mesmo quem já passou por ele, quiçá os metastáticos. NÃO HÁ VIDA NORMAL! Ufa, gritei, estou mais calma...
E, retomando a rotina da mãe, todo começo de ano reviso gavetas, separo roupas que não servem mais, papéis com anotações sem sentido, boletos já pagos. Nossa, que absurdo, as concessionárias de energia elétrica não fornecem mais a declaração de quitação anual de débito? Enfim, preciso denunciar isso, afinal é nosso direito! Mas, depois faço isso_ mais uma demanda pra listinha extensa.
E no meio da arrumação, pego uma caixa que há tempos venho procrastinando. Lá existem alguns registros de um suposto diário da época de adolescente. Encontrei textos, crônicas, sextilhas, cartas enviadas e recebidas, e desabafos da adolescente que acreditava na importância do sonho na nossa vida, que esse seria o combustível para conquistarmos nossos objetivos, relatos de relacionamentos desta época que hoje eu diria que foram relacionamentos tóxicos_ ainda bem que eu acordei e superei essa perspectiva que se formava na minha vida. Como dizem, “eu pulei cada fogueira, viu?”
Alguns, rasguei, outros reli e deixei ali quietinhos para em momento oportuno ver o que faço, pois não sei se terei a sorte da Rainha Vitória de ter um filho que toque fogo nos detalhes mais sórdidos da minha vida (hahahahahahah) rindo muito alto. Que bom que os anos 90/2000 não tinham celular pra registrar o tanto de merda que adolescente faz.
E assim vamos arrumar nossas gavetas, inclusive as internas, jogar fora e afastar quando necessário, pois eu sou a dona da minha vida!
E feliz ano novo!
Marta Maria da Silva
Paciente de câncer de mama metastático
Membro do comitê de pacientes do Instituto Oncoguia e da Rede de pacientes negros com câncer.
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