Chá revelação
E nos primeiros dias de janeiro estamos com exames agendados para avaliar se a doença está em controle. Juntei as moedas, priorizei quitar dívidas com juros e me lancei junto com a família em férias e check-up de todos.
A brisa do mar na janela, o cheiro de maresia acalmavam os meus pensamentos… entre um sorvete com as amigas, um bate papo mais reservado, uma visita ao museu, os compromissos médicos iam se revezando, ao tempo que o menino aprendia a mexer no Ifood e o outro mergulhava sem medo nas águas lindas e cheias de história da Baía de Todos os Santos.
Ah, como a gente fica impactado com a imagem do Museu Wanderley Pinho, descendente do Barão de Cotegipe_ sim, aquele da principal rua de Bonfim*, como circuito da Guerra de Espadas que deve nos abrilhantar no São João 2026. Não tem como eu, enquanto educadora (risos altos), apaixonada por história e mulher negra em não olhar aquela beleza e pensar nos meus antepassados que vieram de África e em todo seu sofrimento. Kehinde e suas palavras em “Um defeito de cor” ficaram vívidas e ecoando na minha cabeça.
Risos, brincadeiras, amigos dizendo que sou a cara da riqueza. Sim, a gente tem direito a esquecer os problemas, a conta bancária no negativo e as incertezas quanto aos exames. Entre uma taça com água mineral com gás e um petisco, o que eu quero é viver e construir memórias, é mesmo sem saber nadar pular na imensidão desse mar lindo e cheio de importância para todo um povo do recôncavo.
Iniciamos uma segunda feira, com o chá revelação que me lembrou que tenho câncer e três progressões _ duas no acetábulo e na L2, que não me assombram e uma no cerebelo, parte delicada do cérebro e que é responsável pela fala, equilíbrio e coordenação motora. Não sinto nada, tal qual a piada do pintinho que fumou um b@sead0 e como disse as minhas “doutoras” , a metástase no fígado me assustou mais. E corremos contra o tempo pra ter a liberação do plano de saúde e fazer o procedimento. E, nessas horas eu lembro o quanto sou agraciada e que, talvez se não o tivesse já teria partido, algo que me aflige em função dos meus filhos. Eles são tão jovens…
Os planos mudaram, iremos estender o verão da Bahia (os meninos nem queriam hahahahha). Mas, as moedas como ficam? Enfim, vamos fazendo as coisas e na hora que o dinheiro acabar, é vestir a sandália da humildade e avisar os amigos que preciso de dinheiro emprestado. Oremos, porque todo mundo tem IPVA, IPTU e material escolar pra pagar no mês de 200 dias.
E vamos a mais um procedimento e possíveis três meses de descanso e sem preocupação.
Marta Maria da Silva
Paciente de câncer de mama metastático
Embaixadora da rede de pacientes negros com câncer do instituto oncoguia e do Comitê de Pacientes do Instituto Oncoguia.
*Bonfim, fazendo referência a cidade de Senhor do Bonfim, vizinha a cidade da autora, que têm tradição forte no São João e na Guerra de Espadas _ fogos.
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