Celebrar

Junho começou, e com ele a época mais deliciosa para quem mora no nordeste brasileiro; é tempo das chuvinhas de inverno, é tempo de ver os animais felizes no meio do pasto, os pássaros cantando, sapos coaxando (onde ainda tem sapo, né?) é tempo de alegria ao som da sanfona, do cheiro de fogueira, de honrar as tradições. 

Olho para o calendário, poucos dias para a celebração a Santo Antônio. Meu marido, devoto, pois havia ganho em um novenário, quando ainda solteiro, um santo Antônio. E, há 18 anos, realizamos celebração em homenagem ao santo, sempre no dia 12 de junho. E, pela primeira vez em pelo menos uns 08 anos, eu voltei a ter a alegria de pensar em cada detalhe para este dia, os detalhes da parte sagrada e da festa que se segue depois. Primeiramente, em perceber que algumas pessoas não vinham pela oração e sim, pela distração. “Segundamente”, porque depois da pandemia e, do meu diagnóstico de câncer, percebi que poucos dos “amigos” permaneceram. Enfim, é nessas horas que a gente sabe quem importa!

E, como estava com meu coração leve, pensando os mínimos detalhes: fazer os convites e encaminhar, comprar os ingredientes para o bolo de aipim, bolo de fubá, milho para fazer cozido e para a canjica para o pessoal das outras regiões do Brasil, o famoso curau, o mungunzá, que para o resto do país é a canjica, hahahahaha, como é delicioso essas diferenças regionais, o amendoim cozido para o Paulistano é amendoim torrado, entre outras guloseimas. O convite, também estendido aos meninos para encaminharem aos seus amigos. 

E, o grande dia chegou. Tínhamos além da celebração, a culminância de um projeto na escola dos meninos e, eu enquanto mãe e educadora, evito ao máximo me ausentar destes momentos, além de entender a importância deste momento para eles, é mais uma oportunidade de prestigiar os meninos e seus amigos. Meu Deus, não vai dar tempo, pensei...

Atraso para iniciar a celebração, de mais de 20 pessoas que esperava, contei com cinco, além de mais 7 amigos de meus filhos. Dona Vera, uma senhora admirável, foi envolvida com movimentos sindicais, campesinos, em prol desta população, minha colega de ensino médio, que mesmo casada e com filhos adultos, não desistiu dos bancos escolares e da academia, ministrou a mesma, conduzindo de forma simples e reflexiva. Ao término, agradeci aos presentes, lembrei dos tantos amigos distantes, com mesmo diagnóstico que fiz nestes últimos cinco anos e do quanto a atuação no voluntariado do Oncoguia me faz bem! Citei um pouco do que mencionei nas linhas acima: da ausência, da importância das verdadeiras amizades, da felicidade de ver meus filhos crescendo e rodeados de pessoas de boa índole, neste mundo cada vez mais difícil de educar. Olhar para a capela construída pelo meu pai e da ausência dos meus pais não adianta, você pode ser velho como for, mas perder pai e mãe é sentir-se órfão, é perder o ombro amigo, aquela pessoa que nos orienta e acalma nos momentos de angústia.

Choro da parte de todos os presentes. Abraços de consolo, lágrimas compartilhadas. E, depois de tudo, olhar aquele bando de adolescentes, brincando, conversando, descontraindo. Ah, que fase boa! Minha sobrinha, olhando a cena, disse estar em sofrimento, por ver os meninos tão grandes, já pensando nas “titias” quando maiores (é assim que chamo minhas sobrinhas netas, gêmeas idênticas). Sinceramente falando, estou adorando ver esse clima de paquera, essas coisas típicas dessa idade. E, que bom ainda estar aqui para presenciar isso! 

Meus pés doíam como se pisasse em brasa. Enfim, perto da meia noite, descanso. Pensei: não me levantarei no dia seguinte. Amanhece, chuvinha miúda, vento e o corpo pronto para outra. Acredito que Santo Antônio me ajudou nesta recuperação tão rápida, porque o corpo da pessoinha aqui não é mais o mesmo e, é preciso entender isso, só que eu ainda não absorvi isso por completo.

E, por mais dias de abraços sinceros, de amigos de verdade e de brincadeiras e risos entre a patota dos meninos. Isso sim, é a verdadeira felicidade!

Marta Maria da Silva

(Mãe do Marcelinho de 14 anos e do Gui de 11 anos, vivendo uma história de partilha e amor com Marcelo desde junho de 2006, moradora de Andorinha-Bahia. Membro do Comité de Pacientes e Rede de Pacientes Negros do Oncoguia)

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