Casulo

Com o resultado do exame no smartphone, entre um gole e outro de água, olho para as meninas, no nosso encontro mensal e não consigo disfarçar a decepção; meu coração não estava preparado para uma progressão de doença. Não era justo, logo agora que o juiz deferiu o fornecimento do medicamento? Justamente a medicação que durou mais tempo em controle de doença, tinha que permitir o aparecimento de uma lesão hepática?

As lágrimas saltam aos olhos… tentam me acalmar, mas só lembro da frase que Ju pronunciara há algum tempo atrás: fígado é foda!

Não era surpresa o surgimento de lesões hepáticas, mas desde 2023 não apareciam. 

Mando mensagem a oncologista, queria saber logo se manteríamos ou não a medicação oral. A progressão era o que menos preocupava. Eu não queria ficar de um canto para o outro para fazer quimio semanalmente, como passei 13 meses, pensando no dinheiro a gastar, nos meus filhos… mudar de cidade seria a solução, mas não é algo a ser resolvido do dia para a noite. 

Volto para a casa do tio de Marcelo, tento disfarçar que não sabia do resultado. Não queria preocupar, ou criar falsas expectativas nos demais. Ainda teriam outros compromissos médicos de nós dois naquela semana. 

Em consulta, as lágrimas voltam a rolar. O que temia estava se consolidando, um novo protocolo. Mas, uma única lesão hepática teria poder para fazer essa “bagunça”? Eram tantas questões a serem pensadas e repensadas… foi neste momento que eu parei e olhei para dentro de mim e falei em alto e bom som: vou morrer. 

Começou a ecoar na minha cabeça, os protocolos mais escassos_ já se foram 6 em 31 meses, não há protocolo de 28 dias e só uma “possibilidade” de 21 dias; os outros, semanais…tenho pouco tempo. De volta a sala, minha oncologista tem uma opção: tentar a radiocirurgia. 

Corremos para outra consulta, conversa, olha exame, vamos fazer. 

Mais choro, agora de esperança e de alegria. 

Desde então, mais introspectiva, mais reservada, queria entrar num quarto escuro e não ver ninguém. Queria não precisar me preocupar com os quinze dias longe de casa, queria não me preocupar com os boletos que deixo de pagar em função desta estadia forçada, queria não ficar preocupada com meus filhos, queria não viver fazendo simulações na minha cabeça e abdicações nos poucos dias que me restam. 

Sigo hoje, pós três semanas daquele triste dia, fazendo rádio e pedindo que o chão me engula. 

Sim, está difícil, é difícil e não tem nada de glamuroso nisso. 

E, com licença da palavra, ter câncer é uma merda! 

Marta Maria da Silva

(Paciente de câncer de mama metastático, membro do Comitê de pacientes Oncoguia e Embaixadora da Rede de Pacientes Negros com Câncer, moradora da pequena Andorinha/BA).

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