Câncer de colo do útero: com 7 mil mortes evitáveis, Brasil se atrasa para cumprir meta da OMS
O Brasil deve ultrapassar pela primeira vez em 2025 a marca de 7 mil mulheres mortas pelo câncer de colo de útero. Esse marco reflete em parte o crescimento da população (quanto mais pessoas vivas, mais mortes ocorrem), mas uma análise detalhada mostra que o país não está conseguindo derrubar a incidência da doença que é prevenível pela vacina do HPV, o vírus que a provoca.
A comunidade médica teme, em última instância, que o país não consiga se alinhar às metas da Organização Mundial da Saúde (OMS) para combate à doença.
Com 17 mil casos desse tipo de tumor projetados neste ano pelo Instituto Nacional do Câncer (Inca), o país está elevando também a taxa de casos por mulher na população. Isso é ruim, mas também é algo esperado, dada a maior proporção de mulheres nas faixas etárias maiores, comparando o Brasil de hoje com o do século XX.
O dado que mais preocupa os cientistas é a chamada incidência da doença “ajustada para a população”. Esse é o número que revela o impacto da doença levando em conta que a população está mais velha, e que o câncer é naturalmente mais frequente em adultas e idosas. Mas mesmo por esse critério, o país não está conseguindo derrubar as taxas de mortalidade pelo câncer de colo de útero.
O Inca consolida dados de mortalidade a cada três anos, e fecha neste ano os números de 2023 a 2025. Em 2022, última estatística oficial disponível, o Brasil já tinha chegado perto da cifra de 7 mil, com 6.983 mulheres mortas pela doença, 300 a mais que no ano anterior.
Esse salto de um ano para outro foi em parte provocado pelo caos da pandemia de Covid-19, que represou o diagnóstico de tumores e atrasou o tratamento de muitas mulheres. Mas o número não está totalmente fora do que se viu nos últimos 20 anos no país.
Quando comparados o períodos anterior e posterior ao advento da vacina, em 2014, o Brasil conseguiu derrubar a taxa de mortalidade ajustada de 5,2 para 5,0 ao ano por 100 mil habitantes do país. (Esse número considera o ajuste pelo perfil populacional do censo de 2010 do Brasil).
É um avanço tímido, considerando que a vacina contra o HPV (papilomavírus humano) existe desde 2006 e está disponível de graça no Programa Nacional de Imunização há dez anos. E é um avanço mais tímido ainda quando comparado às metas que a OMS fixou para o combate ao câncer de colo de útero.
— A gente realmente não teve a redução que esperava, considerando as baixas taxas vacinais e a própria falta de conscientização da média da população sobre a doença — afirma Fabiano Serra, ginecologista e obstetra do Hospital da Mulher de São Paulo, especialista no tema. — Isso para a gente é inadmissível, e estamos muito fora daquilo que a OMS espera em números.
Meta global
A meta global estipulada pela organização têm três objetivos principais. O primeiro é a vacinação de 90% das meninas de até 15 anos em todas as populações. O segundo é conseguir fazer exames de screening em 70% das mulheres para presença de variantes de alto risco aos 35 e 45 anos. O terceiro é prover tratamento para 90% das mulheres diagnosticadas com câncer ou lesões pré-tumorais no colo do útero.
Pelas projeções de epidemiologistas, se essa metas forem atingidas, a presença do vírus na população vai diminuir e a doença já entra no caminho natural da erradicação.
Em países ricos, as quedas de incidência neste milênio foram acentuadas: 87% no Reino Unido, 78% na Suécia e 80% nos EUA. Austrália está em rota de eliminar totalmente a doença em duas décadas.
O Brasil está longe de ser o pior país, porque muitas nações mais pobres sequer têm programas de vacinação, mas poderia estar muito melhor. Os números de porcentagens de meninas vacinadas variam conforme cada ano, mas médicos acreditam que agora no Brasil essa taxa ainda esteja em 60%, ou seja, apenas dois terços da meta preconizada pela OMS.
— Esse é um tumor que não deveria existir, porque existem métodos de prevenção e rastreio adequados — afirma a oncologista Andrea Gadelha, do A.C. Camargo Cancer Center.
Segundo ela, por ser o câncer que mais mata mulheres até a faixa dos 35 anos, além do efeito emocional devastador, as mortes afetam muito a economia do país.
— As mulheres mais atingidas são extremamente jovens, economicamente ativas, e isso tem um impacto individual, na família e na sociedade. Cerca de 20% das crianças que perderam a mãe para o câncer, perderam para o câncer de colo uterino — afirma a médica.
Em campanha
Gadelha e Serra participam agora de uma nova campanha de conscientização sobre a doença e a vacinação, bancada pela indústria farmacêutica e apoiada por sociedades médicas. Essa e outras iniciativas têm sido lançada nos últimos anos nesta época do ano, como “março lilás”, o mês de prevenção ao câncer de colo de útero.
A embaixadora da campanha é a modelo e apresentadora Fernanda Lima, e o projeto está publicando também em redes sociais depoimentos de médicos e pacientes. Uma delas é a jornalista Mirelle Moschella, da TV Band, que se recuperou de um câncer de colo de útero diagnosticado durante a pandemia de Covid-19.
— Meu último exame Papanicolau tinha sido em 2018 e eu descobri o câncer em 2020, num estágio 4, que é muito avançado — conta ela. — Eu conhecia já a vacina contra o HPV, mas não tinha sido vacinada, porque eu achava que só crianças e adolescentes poderiam se vacinar.
Depois de passar por cirurgia e braquiterapia, Moschella recebeu alta, e seguiu a recomendação de se vacinar porque o imunizante ajuda a prevenir reincidência dos tumores. A vacina está hoje disponível no sistema público para crianças de 9 a 14 anos, mas o PNI estendeu temporariamente a idade até 19 anos para tentar vacinar adolescentes que deixaram de tomar suas doses durante o período de isolamento na pandemia. O imunizante tem indicação para vacinação até os 45 anos, porém, só está disponível na rede privada.
Fonte: O Globo

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