Brasileiras desconhecem recomendações e direitos sobre o câncer de mama
Um estudo com 1.400 mulheres de idades a partir dos 20 anos mostrou que 63% das entrevistadas acham – equivocadamente – que o autoexame é a principal medida para detecção precoce de câncer de mama. A pesquisa Câncer de Mama no Brasil: Desafios e Direitos, realizada pelo instituto Inteligência em Pesquisa e Consultoria Estratégica (Ipec), revela essa e outras percepções e conhecimentos de pacientes a respeito da doença no país, bem como dados sobre exames e consultas médicas.
A pesquisa foi realizada a pedido da Pfizer e entrevistou mulheres da cidade de São Paulo e das regiões metropolitanas do Rio de Janeiro, Porto Alegre, Distrito Federal, Recife e Belém. A divulgação dos resultados aconteceu em coletiva de imprensa do Coletivo Pink na quinta-feira (28).
Apesar de importante para o conhecimento do próprio corpo, o autoexame somente detecta tumores com mais de um centímetro. Por isso, a recomendação da Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM) é que mulheres a partir dos 40 anos realizem o exame de mamografia anualmente, em casos sem histórico da doença na família. Contudo, apenas 47% das entrevistadas entre 40 e 49 anos do novo estudo afirmam ter feito esse exame nos 18 meses anteriores à pesquisa.
Segundo o Instituto Nacional do Câncer (INCA), o câncer de mama está entre os tumores mais frequentemente diagnosticados no mundo. No Brasil, ele representa a maior causa de morte por câncer entre a população feminina de todas as regiões – exceto no Norte, onde o câncer de colo de útero ocupa a primeira posição.
O instituto brasileiro também estima que, entre os anos 2023 e 2025, ocorrerão 74 mil novos casos da doença apenas no nosso país.
Causas e diagnósticos
No estudo do Ipec, 71% das participantes apontaram erroneamente que a principal causa do câncer de mama é a herança genética. “Quando a gente classifica a hereditariedade como principal fator de risco, tiramos do panorama dos cuidados os fatores que a gente consegue ter um impacto. Não são todos, mas eles são muito importantes e dependem do autocuidado de cada um”, disse Adriana Ribeiro, diretora médica da Pfizer, na coletiva de imprensa.
Uso de álcool, obesidade, alimentação e sedentarismo têm um papel importante nesse diagnóstico, e são o que a ciência chama de “fatores de risco modificáveis". Porém, 70% das entrevistadas não identificaram a relação entre consumo de bebidas alcoólicas e a doença. Além disso, 58% desconhecem o impacto do excesso de peso, sobretudo após a menopausa, nesse diagnóstico.
“Estamos falando de uma doença multifatorial, em que hábitos de vida e até comportamentos sociais, como a redução no número de filhos, são considerados fatores de risco”, reforça Ribeiro em comunicado à imprensa.
Inclusive, com a pandemia, é possível que muitos diagnósticos precoces não tenham sido feitos. Entre as entrevistadas pela pesquisa, 22% afirmam ter retomado os cuidados médicos ainda em 2021, e 13% o fizeram somente em 2023.
Direitos das pessoas diagnosticadas
Os melhores resultados no tratamento do câncer de mama vêm de diagnósticos precoces, entendimento médico sobre os diferentes tipos de tumor existentes e desenvolvimento tecnológico, por exemplo. Por isso, o acesso à informação e ao sistema de saúde são extremamente importantes.
O estudo mostra que 44% das mulheres desconhecem o direito ao tempo limite de diagnóstico pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Ele determina que, caso exista uma suspeita de câncer, os exames de confirmação de diagnóstico devem ser feitos dentro de 30 dias, sendo que o paciente tem direito a iniciar o tratamento na rede pública em até 60 dias após a comprovação.
Além disso, apenas 44% das participantes da pesquisa sabiam da existência da ferramenta de participação social Consulta Pública, que o governo pode usar para conhecer a opinião da sociedade sobre decisões ligadas às redes pública ou suplementar de saúde.
A pesquisa também analisou a percepção das mulheres sobre medidas e decisões de médicos e familiares quando a possibilidade de morte em decorrência do câncer de mama parece inevitável. A maioria afirma que não saberia como agir em uma situação como essa (68%), mas espera que os médicos sejam sinceros sobre o tempo de vida esperado (77%).
Desigualdade
A maioria das mulheres considera que, nos últimos cinco anos, houve uma melhoria nos cuidados com o câncer de mama no Brasil, em termos de eficácia e efeitos colaterais. Mas 28% das entrevistadas indicam haver um acesso desigual ao tratamento no país.
“Muitas vezes, as pessoas com uma condição socioeconômica menor não conseguem ter esse acesso; elas vão fazer diagnóstico mais tardiamente e, com isso, há uma piora no prognóstico desses pacientes”, destacou a oncologista Solange Sanches na coletiva de imprensa. A médica acrescentou que essa é uma realidade especialmente para mulheres negras no país.
Para 19% das mulheres entrevistadas, o tratamento avançou para quem tem plano de saúde, mas as pacientes da rede pública não têm acesso às medicações mais modernas. E uma em cada cinco respondentes a partir de 60 anos avalia que as brasileiras ainda não conseguem obter muitos remédios usados fora do Brasil.
Outubro rosa
Junto à divulgação da pesquisa Câncer de Mama no Brasil: Desafios e Direitos, o Coletivo Pink anunciou um projeto especial para outubro, mês da campanha de conscientização sobre a prevenção e o diagnóstico precoce do câncer de mama.
A iniciativa Coletivo Pink – Por um Outubro Além do Rosa irá ocorrer na área externa da Biblioteca do Parque Villa-Lobos, na capital paulista, de 1 a 22 de outubro. Uma estrutura cônica de 64m², projetada no formato de uma mama gigante, abrigará uma exposição gratuita sobre mulheres que vieram transformando o cenário global do câncer de mama nos últimos 120 anos. A mostra também terá uma versão virtual no site do coletivo.
A programação no parque paulistano ainda inclui oficinas, atividades socioculturais e debates com especialistas sobre diferentes aspectos da doença. Serviços realizados por parceiros do Coletivo Pink 2023, como a carreta da mamografia, também serão oferecidos.
Fonte: Revista Galileu
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