A vida é tão rara
Num desses dias bem difíceis da jornada, decidi calçar um tênis e ir para a consulta caminhando. Meu corpo estava bom. Os exames também. Mas eu tinha tanta coisa na cabeça. E quando ando em silêncio, me ouço.
Ninguém tinha respostas para a maioria das minhas perguntas. Até que no meio da minha quase entrevista, bombardeando a oncologista com questões não tão oncológicas, eu ouvi um: “Vai VIVER!”. Me calei. Respirei fundo e me acalmei.
O futuro? Comecei a admitir que quem sabe realmente tudo sobre ele, não viria me contar. E estava tudo bem! As minhas perguntas eram todas sobre o amanhã. Decidi que era melhor então não me inquietar por dentro com o que ainda viria ou não viria, quem sabe? E fui VIVER.
Tanta coisa aconteceu! Outras, não. Muita coisa foi melhor. Até os nãos que recebi me fizeram abrir muitas outras portas . Se eu pudesse escrever para aquela Quézia tão confusa daquele dia, eu diria: Vai ser diferente do que você planejou, mas muito, muito especial. Só vem! E vai VIVER.
Porque se tem uma coisa que a gente gosta de fazer é VIVER e celebrar essa VIDA. E nem precisa ser aniversário, já percebeu? Vale a última quimioterapia, tantos anos depois do diagnóstico, uma década de vida além da metástase.
A gente faz a festa, porque a festa está dentro da gente. E nessas datas bonitas, de tanta celebração, passa um filme aqui dentro, cheio de lembranças. Deixe rolar as lágrimas de alegria. Respire fundo e agradeça. A VIDA é mesmo um presente!
E assim, na contramão, a gente segue sonhando em envelhecer. Envelhecer é sinal de que está dando tudo certo. E deixa eu te dizer, com um sorriso no rosto: Eu estou envelhecendo! Biologicamente talvez bem mais do que gostaria, depois dos perrengues oncológicos. Mas me interessa perceber que eu ainda estou aqui, e cada marca do meu corpo só me lembra o quanto é bom viver. Eu estou envelhecendo. E também estou sonhando mais, buscando mais, acreditando mais.
E sobre esse envelhecer, parece mais um aprendizado bonito sobre bem viver. Viver a VIDA assim: um dia de cada vez, com fé e esperança. O instante, o hoje, o agora, (inteira). Não é mais sobre intensidade, agitação, frenesi. É muito mais sobre presença, troca profunda, conexão.
Fica o convite para celebrar não só o extraordinário, mas as pequenas coisas também. O que não tem preço, o cotidiano, a doce rotina dos dias tranquilos, o abraço quente. Juntas elas fazem esta VIDA ficar boa.
E mesmo sem saber por quanto tempo, melhor seguir aproveitando o intervalo entre o nascer e o partir, com amor e com propósito. Porque a VIDA sorri todo dia, com um chamado abundante e muitos minutos de grandeza. VIDA que sorriu para mim, e eu não resisti!
Quézia Queiroz
(Jornalista, Membro do Comitê de Pacientes Oncoguia e até hoje escuta aquele: “Vai viver!")