A salsicha, o câncer e o nosso discurso bonito

Mais uma segunda-feira ensolarada e a blogueira às 11h já meditou, tomou suco detox e postou o pós treino da academia, perto da piscina, com todas as marcações e hashtags devidamente inseridas, patrocinadas e correlacionadas.

Enquanto isso, Marias estão contando as salsichas do almoço, uma para cada filho, que no molho de tomate ralo podem render um pouco mais. Martas estão calculando a rota, não da próxima corrida, mas da viagem longa, cansativa até o centro de tratamento oncológico, bem longe de casa. E Cristinas seguem escolhendo qual conta pagar, porque o plano de saúde consome boa parte da renda, e ficar sem ele já não é uma opção. 

Em uma rede social bem popular, o médico muito conhecido cita as oleaginosas como opção de comida saudável. Mas o discurso logo vai ladeira abaixo quando ele decide afirmar que essa é uma opção de comida de baixo custo. Comer diversos tipos de castanhas todo dia não é barato. Esse tipo de comida não é acessível para boa parte da população. 

A verdade é que nem todo mundo pode comprar. Nem todo mundo pode escolher. Escolher entre comer linguiça ou peixe. Escolher frequentar o pilates ou enfrentar um ônibus lotado de manhã, muitas vezes sem ao menos ter tomado café, que também anda muito caro. Então será mesmo só uma questão de escolha? 

Eu sei. Esse não é um texto agradável. E não tem a pretensão de ser. O discurso saudável ainda é excludente. No Brasil, ser integralmente saudável custa caro. E grande parte dos profissionais de saúde continuam distantes da realidade social brasileira. 

É tão bonito acordar e decidir como viver e o que comer. A medicina do estilo de vida é um caminho válido e validado para quem realmente quer trilhar uma jornada mais saudável, leve, de autocuidado. Tudo isso é belo quando é uma opção. Além da salsicha, o que também adoece é ler e assistir discursos que jogam todo o peso do desfecho entre ter ou não saúde sobre quem não tem escolha. 

No fim das contas, entre nitritos, conservantes e corantes, essas pessoas sem vez, sem voz e sem escolha farão parte dos números alarmantes de casos de câncer que estão por vir e vão sobrecarregar, também, o SUS.  E isso é um problema de todos nós.

Quézia Queiroz

[Jornalista de saúde e sabe como são feitas as salsichas (e as notícias)]

Este conteúdo ajudou você?

Avaliação do Portal

1. O conteúdo que acaba de ler esclareceu suas dúvidas?
Péssimo O conteúdo ficou muito abaixo das minhas expectativas. Ruim Ainda fiquei com algumas dúvidas. Neutro Não fiquei satisfeito e nem insatisfeito. Bom O conteúdo esclareceu minhas dúvidas. Excelente O conteúdo superou todas as minhas expectativas.
2. De 1 a 5, qual a sua nota para o portal?
Péssimo O conteúdo ficou muito abaixo das minhas expectativas. Ruim Ainda fiquei com algumas dúvidas. Neutro Não fiquei satisfeito e nem insatisfeito. Bom O conteúdo esclareceu minhas dúvidas. Excelente O conteúdo superou todas as minhas expectativas.
3. Com a relação a nossa linguagem:
Péssimo O conteúdo ficou muito abaixo das minhas expectativas. Ruim Ainda fiquei com algumas dúvidas. Neutro Não fiquei satisfeito e nem insatisfeito. Bom O conteúdo esclareceu minhas dúvidas. Excelente O conteúdo superou todas as minhas expectativas.
4. Como você encontrou o nosso portal?
5. Ter o conteúdo da página com áudio ajudou você?
Esse site é protegido pelo reCAPTCHA e a política de privacidade e os termos de serviço do Google podem ser aplicados.
Multimídia

Acesse a galeria do TV Oncoguia e Biblioteca

Folhetos

Diferentes materiais educativos para download

Doações

Faça você também parte desta batalha

Cadastro

Mantenha-se conectado ao nosso trabalho