A atenção crescente da medicina à saúde mental no tratamento do câncer
Após ser diagnosticada com câncer colorretal, em janeiro deste ano, Preta Gil deu início ao tratamento rapidamente. Logo na primeira vez que seu pai, Gilberto Gil, foi ao hospital para visitá-la, a cantora ouviu do astro da MPB uma reflexão sobre a finitude da vida. Perturbada com essas palavras, ela pensou que seu estado era pior do que os médicos haviam informado. Mas hoje, depois de processar os altos e baixos da doença, reconhece que o músico, ao seu estilo muito particular, estava apenas tentando tranquilizá-la. “Meu pai é um orixá vivo, uma entidade, então você precisa prestar muita atenção no que ele fala”, relembrou Preta a VEJA. “Ele me falou de finitude para que eu entendesse que o fim é uma realidade de todos nós. Temos uma hora para ir embora e não é a gente que escolhe, mas podemos e devemos lutar”, diz a carioca de 49 anos.
Ao longo de seu tratamento, Preta viveu na prática — e como — os conselhos do pai. Encarou a morte de perto ao sofrer uma septicemia: a infecção generalizada quase tirou sua vida durante internação no Rio de Janeiro, em março. O susto a fez transferir-se para São Paulo. Em meio à rotina corrida de idas ao hospital, internações, exames e sessões de quimioterapia, Preta também se divorciou do marido, o personal trainer Rodrigo Godoy, com quem estava casada havia dez anos. Depois da separação, descobriu ainda que o parceiro a traía com uma funcionária de sua confiança. O combo de adversidades levou a cantora ao limite. “Tive uma crise forte, com falta de ar, taquicardia, achei que ia morrer”, relata.
Preta acredita ter sobrevivido a tantas turbulências com auxílio não só de oncologistas, mas de psicológicos, psiquiatras e calmantes. Também contou com uma rede de apoio formada pela família, principalmente o filho, Francisco, de 28 anos — fruto da relação com o ator Otávio Muller, com quem foi casada entre 1994 e 1995 —, e amigos fiéis como Vinícius Gomes da Costa, conhecido como Gominho, que largou o emprego em Salvador para acompanhá-la. “Nos momentos difíceis, quando estava no fundo do poço, minha neta, Sol, de 7 anos, chegava e me dava uma energia”, conta a cantora.
A ajuda psicológica foi essencial para que ela conseguisse lidar com a doença. “Procurei a terapia tradicional, retomei o contato com uma terapeuta e um psiquiatra que cuidaram de mim no passado. Também busquei alternativas, como terapia holística e espiritual. Não acho que me deprimi porque em nenhum momento desisti. Quando precisei de remédios, recorri a eles sem o menor preconceito”, explica a filha de Gil e Sandra Gadelha. Apesar de a decisão de romper ter partido dela, a artista reconhece ter entrado para a estatística de mulheres doentes que são abandonadas pelos parceiros.
Os esforços dela no tratamento da doença não terminaram, mas as armas que a ciência coloca hoje à disposição dos pacientes aumentaram muito as chances de êxito. Antes tido como uma sentença de morte, o câncer ganhou tratamentos mais eficazes com o avanço da medicina. Com isso, diversas formas da doença têm altas chances de cura se descobertas nos estágios iniciais, e a sobrevida foi estendida até em casos mais graves. Com um prognóstico melhor, surgiu a necessidade de olhar também para o estado psicológico dos pacientes. “Vários tipos de câncer são, conhecidamente, precipitadores ou agravadores de transtornos mentais”, diz o psiquiatra Luiz Gustavo Vala Zoldan, coordenador médico de Saúde Mental do Hospital Albert Einstein.
Nesse contexto, em meados dos anos 1970, a psiquiatra Jimmie Holland, desenvolveu, no Memorial Sloan Kettering Cancer Center, em Nova York, a psico-oncologia, uma abordagem que alia os cuidados físicos à saúde mental de pacientes com câncer. No Brasil, a prática chegou no fim dos anos 1980, e ganhou força a partir de 1994, com a criação da Sociedade Brasileira de Psico-Oncologia. Desde então, o tratamento se tornou cada vez mais multidisciplinar e conta, idealmente, com oncologistas, psicólogos, psiquiatras, enfermeiros e demais profissionais da saúde. Tal estrutura se faz necessária porque, mesmo com o avanço da medicina, uma biópsia com resultado maligno ainda causa aflições e medos, até nos casos menos graves. “A gente trabalha muito para que a pessoa entenda o diagnóstico. O que ele significa, o que é possível prever e como o paciente vai poder viver durante o tratamento”, explica a psicóloga Maria Helena Pereira Franco, coautora do livro Psico-Oncologia: Caminhos de Cuidado (Summus Editorial, 2019).
Despir o câncer de tabus é um primeiro passo nessa direção. Nos últimos dias, Preta ostentou orgulhosamente nas redes sociais uma bolsa de ileostomia, recurso necessário para completar seu processo digestivo enquanto se recupera da cirurgia de remoção do tumor que estava na parte inferior do intestino. A localização do tecido afetado fez com que o tratamento iniciasse pela químio e radioterapia, que durou seis meses. Só depois veio a remoção cirúrgica. O procedimento foi complicado: ela ficou catorze horas na mesa de operação, e também foi submetida a uma histerectomia total, quando é retirado o útero, trompas e ovários para se prevenir futuras recidivas. Agora, Preta é considerada livre de células cancerígenas, mas ainda sob tratamento: ela se prepara para uma nova operação em novembro, quando terá seu canal digestivo religado, dispensando o uso da bolsa.
Nas redes, ela vem compartilhando momentos íntimos e não se furta a mostrar cicatrizes — uma forma de mostrar que a internet, ironicamente, também funciona como um espelho para trabalhar a autoestima —, e ilustra perfeitamente que, apesar de homens também terem câncer, é claro que a pressão estética é mais dura para as mulheres. Ao compartilhar com transparência sua intimidade médica, corporal e emocional, Preta Gil tem cativado uma torcida de mulheres que experienciaram dramas parecidos.
Não é para menos, já que a cantora ilustra um sofrimento vivido por muitos pacientes oncológicos. Quando recebem o diagnóstico de câncer, além de lidar com a ansiedade diante do futuro incerto, muitas pacientes são deixadas por parceiros — que, em vez de prestar apoio no momento delicado, adicionam uma carga extra de sofrimento emocional ao cenário. Segundo um estudo de 2009 conduzido pelo Seattle Cancer Care Alliance em conjunto com as Universidades de Stanford e Utah (leia no quadro), mulheres com câncer se divorciam quase sete vezes mais do que homens com o mesmo diagnóstico. A disparidade parece atrelada a uma dificuldade masculina de assumir o papel de cuidador, historicamente ocupado pelas mulheres.
Com uma história parecida com a de Preta, a professora de biologia Adriana Muniz também sentiu o peso do abandono durante seu tratamento contra um câncer de mama. O então marido até a acompanhou durante sessões de quimioterapia, após pressão e broncas da enteada de Adriana, mas a educadora do ensino médio descobriu que, no meio do processo, o parceiro já conversava com outra mulher. Ele assumiu o novo relacionamento assim que se separou da esposa. “Estávamos juntos desde 2008. Quando tive o diagnóstico, em 2020, ele já não queria mais tocar em mim. Dizia que ‘não faria sexo com uma mulher doente’”, relembra a professora. Para dar conta do peso emocional e físico, Adriana recorreu a um hobby antigo, a ioga, e passou a ministrar aulas focadas em pacientes com câncer. “Você tem de buscar sua autoestima de novo, e se reencontrar é bastante complicado”, completa. A decisão de virar professora foi inspirada por um grupo de apoio criado por Gisele Gengo, especialista em psicologia positiva — que também tratou um câncer de mama. “Começamos a fazer encontros on-line durante a pandemia de Covid-19 e vimos a esperança de cada uma aumentar conforme dividíamos nossas angústias”, conta Gisele.
Com a maior visibilidade conquistada pela saúde mental nos últimos anos, aumentou também o esforço de especialistas para entender a relação de corpo e mente na oncologia. Os estudos não revelam uma ligação de causalidade direta entre câncer e saúde mental. Uma análise publicada em agosto na revista Cancer congregou dados de mais de 300 000 pessoas com diversos tipos de câncer e concluiu que a depressão e a ansiedade não aumentam o risco da doença. O mesmo não se pode dizer a respeito dos cuidados com a prevenção. Segundo um estudo publicado em maio na revista News-Medical, pacientes com transtornos psicológicos severos fazem menos exames de rastreio, o que atrapalha a detecção precoce do câncer e pode afetar negativamente o prognóstico. “Pessoas com doenças mentais graves têm duas vezes e meia mais chances de morrer prematuramente de câncer do que seus pares. A doença é frequentemente diagnosticada em estágio avançado, o que limita as opções de tratamento”, escreveu na publicação o médico Robert Kerrison, da Universidade de Surrey, na Inglaterra.
A chegada do diagnóstico ainda costuma desencadear uma sobrecarga mental, favorecendo quadros de ansiedade e depressão. O processo de tratamento, como se sabe, não é fácil: entre os possíveis efeitos colaterais, há fadiga extrema, mudanças na aparência física, dores e até isolamento social. No caso de mulheres com câncer de mama, uma meta-análise publicada no British Journal of Cancer em 2021 avaliou 39 estudos e notou uma prevalência de sintomas significativos de 34% para transtornos de ansiedade, 31% para estresse pós-traumático e 20% para depressão. “São muitos os fatores de estresse com os quais a paciente pode ter de lidar e este é um fator de vulnerabilidade para o adoecimento psíquico, que, por sua vez, afeta o bem-estar, o engajamento com os tratamentos e diminui a resiliência”, explica Ana Lúcia Martins, coordenadora do Serviço de Psicologia do Hospital Albert Einstein. Cuidar da saúde mental, portanto, colabora para que o paciente não desista de tratar a doença da maneira correta e acabe agravando o quadro.
Além de Preta, outras famosas já encararam o diagnóstico do câncer e precisaram cuidar da mente. A atriz Drica Moraes, 54, foi diagnosticada com leucemia mieloide aos 40, logo após adotar seu primeiro e único filho, Mateus, e precisou lidar com a angústia e o medo, recorrendo a remédios para dormir enquanto não encontrava um doador de medula óssea. Exemplo de disposição e de resiliência, a apresentadora Ana Maria Braga, 74, se tratou cinco vezes de quatro tipos de câncer e sempre manteve uma postura leve em relação a seu drama. Em 30 de setembro, Ana Furtado também celebrou a ingestão da última pílula de remédio contra um câncer de mama que tratava desde 2018. Lançando uma autobiografia sobre esse processo pela Editora Planeta, a ex-apresentadora da Globo detalha em Até Nunca Mais as partes difíceis de sua trajetória. “Apesar de o câncer ser uma manifestação física, naquele momento o meu problema era completamente emocional e psicológico”, escreve.
Embora a preocupação com o equilíbrio psíquico não seja uma novidade, a visibilidade dada às questões mentais nos últimos anos fez com que o assunto avançasse nos hospitais. Vários estabelecimentos importantes aumentaram os investimentos nessa área. No ano passado, o A.C. Camargo Cancer Center inaugurou um departamento que integra cuidados farmacológicos com tratamentos de bem-estar, oferecendo ioga e meditação. A prática é inspirada pela Mayo Clinic, hospital de ponta dos Estados Unidos que há anos oferece tratamentos alternativos a seus pacientes. “Eles sentem menos ansiedade e passam a ter uma visão diferenciada a respeito do tratamento”, explica o médico Ricardo Monezi, do A.C. Camargo. Já o Albert Einstein, outra referência no ramo, deve inaugurar em 2025 um novo Centro de Cuidados e Terapias Avançadas, que terá em seu menu auxílio psicológico durante e após tratamentos de câncer. O cuidado, inclusive, tem se estendido para a rede de apoio dos pacientes. “Trabalhamos para mostrar que a doença não é só de quem recebe o diagnóstico: os parentes também são afetados”, atesta a psicóloga Maria Helena Pereira Franco. A crescente atenção à necessidade dos cuidados com o bem-estar mental ao longo do tratamento de um tumor é justificada por exemplos de pacientes como Preta Gil. Essa terapia do equilíbrio não cura, mas é uma força importante no curso de um processo que costuma ser duríssimo. Pode parecer pouco, mas é quase tudo num momento tão delicado quanto esse.
Fonte: Veja

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