Covid compromete e ‘atrasa’ tratamento do câncer em até 10 anos

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  • Equipe Oncoguia
  • - Data de cadastro: 17/02/2022 - Data de atualização: 17/02/2022

O impacto da pandemia de covid-19 sobre o tratamento do câncer foi tão grande que vai comprometer o controle da doença e o tratamento pelos próximos 5 a 10 anos, prevê o Lacog (Latin American Cooperative Oncology Group). Casos e mortes pela doença devem crescer no Brasil e países vizinhos. O tratamento tende a ficar mais caro e difícil por falta de diagnóstico precoce. Um estudo mostra que todos os países avaliados apresentaram consequências negativas: diminuição de diagnósticos decorrente da redução de exames de rastreamento ou de investigação e atrasos em procedimentos cirúrgicos e tratamentos.

No Brasil, por exemplo, houve redução de 58% a 80% de mamografias de rastreamento e de 40% de cirurgias de mama. Tumores de mama e próstata são os mais comuns no país.

A situação é parecida em outros países. A Argentina reduziu em 60% o rastreamento de câncer colorretal e em 16% os tratamentos de quimioterapia e radioterapia. Houve diminuição de 80% em procedimentos diagnósticos e terapêuticos de endoscopia digestiva.

No Chile, cirurgias eletivas foram canceladas e houve redução nos diagnósticos e tratamentos do câncer. Colômbia e México também têm observado redução nos exames de rastreamento e consultas, assim como atrasos, interrupções e modificações nos tratamentos oncológicos. Em Honduras houve redução de 18% a 47% no diagnóstico de cânceres pediátricos e redução de 80% na detecção de câncer de mama e de colo uterino. No Uruguai ocorreram reduções em rastreamento, primeiras consultas e quimioterapia.

O estudo “Controle do Câncer na América Latina e Caribe: avanços recentes e oportunidades para seguir em frente” foi realizado por um grupo de 27 médicos de Brasil, EUA, México, Chile, Colômbia, Argentina, Uruguai, Honduras, Alemanha e Panamá. De acordo com os responsáveis pelo levantamento, foram 1,4 milhão de novos casos da doença e 600 mil mortes pela doença só em 2020. Atraso no diagnóstico, restrições de atendimento, falta de local para atendimento, isolamento social e adiamento de consultas e cirurgias estão entre os fatores que contribuíram para o resultado. A revista britânica “The Lancet Oncology” publicou o estudo no fim de 2021.

“Foi um grande choque na América Latina”, comenta o médico-pesquisador Gustavo Werutsky. Ele conta que, no auge da pandemia, em 2020, o Centro de Oncologia do Amazonas não tinha leito disponível para cirurgia, porque o hospital estava ocupado por pacientes de covid. O Amazonas foi o Estado em que a situação da covid-19 se mostrou mais grave, com falta de leitos e morte de pacientes por escassez de oxigênio entre o fim de 2020 e o começo de 2021. No Rio Grande do Sul havia em setembro passado uma fila de 7 mil consultas represadas, revela.

“O sistema de saúde em todos os países funciona normalmente, antes da pandemia, no limite. Não sobra nada”, afirma o oncologista Carlos Barrios, cofundadora do Lacog. “Com a pandemia, ele se sobrecarrega e destrói qualquer capacidade de ajuda residual que o sistema poderia ter.” A situação vale para o mundo todo, mas é mais crítica em países de renda baixa, como o Brasil, diz o médico. Nos Estados Unidos, por exemplo, projeções indicam que após a pandemia haverá cerca de 10 mil mortes a mais por câncer de mama e de cólon nos próximos dez anos.

Barrios diz que a partir de agora, com o aprendizado trazido pela covid-19 para os sistemas público e privado de saúde, é possível olhar para frente e rever o planejamento. “Estamos colocando o câncer como um problema importante daqui para a frente”, afirma. “O fundamental, sabendo que vai ter mais casos e vai morrer da gente por causa do que aconteceu nesses últimos dois anos, a gente vai ter que preparar o sistema de saúde. Isso não vai ser uma surpresa.”

O câncer já é a principal causa de morte em mais de 400 municípios brasileiros e as projeções antes da pandemia indicavam que iria superar doenças cardiovasculares e se tornar a maior causa de óbitos do país até 2030. Com o impacto da covid, é possível que isso ocorra mais cedo, diz Barrios.

Mudanças nos esquemas terapêuticos, como prevenção à covid, também contribuíram para a situação. As medidas foram tomadas visando a segurança dos pacientes contra a covid, mas afetaram o controle do câncer.

O artigo publicado na “The Lancet Oncology” mostra a redução no tratamento por quimioterapia em 2020 e diminuição ou modificação nos esquemas de tratamento. Um exemplo: o paciente teria de fazer quimioterapia a cada 21 dias, mas a sessões eram marcadas apenas para seis ou oito semanas depois. “Esquemas de quimioterapia que deixavam o paciente com a imunidade muito abalada foram modificados”, explica Werutsky. A ideia era evitar que as pessoas ficassem ainda mais vulneráveis ao coronavírus.

Mudanças assim ocorreram no mundo inteiro. A American Society of Clinical Oncology (Asco, associação americana de oncologia clínica) e a European Society for Medical Oncology (Esmo, sociedade europeia de oncologia clínica) fizeram recomendações internacionais para esse tipo de adaptação: atrasar cirurgias e radioterapias, abrandar esquemas de tratamento mais pesados, adotar quimioterapia por via oral em alguns casos, inverter sequência entre quimio e cirurgia, entre outras.

Um estudo do Instituto Nacional do Câncer do México mostrou que os pacientes que enfrentaram essas mudanças no tratamento tiveram uma piora de sobrevida. Nos casos em que a doença se encontrava mais avançada, o câncer progrediu mais depressa. Já quem não teve modificações no tratamento teve uma resposta melhor.

Isso ocorreu porque o tempo é o principal fator no tratamento da doença. “O câncer é uma doença que precisa de uma identificação e um diagnóstico”, explica Werutsky. “Tem que ser feito no prazo mais curto possível. Quando mais rápido se detecta, melhor os resultados do tratamento.” Para ele, a prioridade para o Brasil, no curto prazo, é preparar o sistema de saúde, tanto SUS quanto convênios privados, para melhorar o rastreamento e diagnóstico precoce de câncer pelos próximos dois anos.

“A solução é complexa, porque certamente o problema já existia antes. O que estamos é passando por uma situação em que o problema fique mais evidente”, comenta Barrios. “A solução, para mim, envolve comprometimento de muitos agentes, mas tem uma questão que é a mais importante, que é a de liderança. E o governo tem que assumir esse papel. Não cobro do governo a solução, mas a liderança para procurar a solução.” Segundo ele, essa liderança nunca foi exercida.

Barrios defende que o câncer seja tratado como causa importante de mortes no país. Ele reclama que a mídia dá mais visibilidade para as mortes no trânsito e não olha para o problema do câncer, “que mata dez vezes mais”.

“O que a gente precisa no Brasil é que exista um incentivo, não recursos, que facilite os estudos acadêmicos em câncer, estudos com baixo custo e que consigam ser desenvolvidos de uma forma mais fácil, seguindo as recomendações éticas e regulatórias”, complementa Werutsky. Segundo ele, na pandemia o Brasil mostrou capacidade de fazer pesquisa. O país participa hoje de 5% dos estudos abertos de câncer no mundo todo. É pouco, poderia ser 20%, diz, mas nunca a contribuição foi tão grande. Por isso o incentivo seria bem-vindo.

Fonte: Valor Econômico 






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