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Por que os homens têm mais câncer que as mulheres?

  • Equipe Oncoguia
  • - Data de cadastro: 23/09/2019 - Data de atualização: 23/09/2019


Câncer em homens é mais agressivo e com pior prognóstico que o seu correlato em mulheres. (iStockphoto/Getty Images)

Homens vivem menos que mulheres. Sabemos disso há mais de século. Mas é possível que você não saiba que, apesar de terem menos tempo para desenvolverem câncer, metade dos homens terão câncer na vida, contra um terço das mulheres. Por muito tempo, essa diferença já era percebida por médicos e epidemiologistas, mas era atribuída exclusivamente a fatores ambientais ou a hábitos de vida. Afinal, durante a maior parte do século XX, homens fumaram muito mais que mulheres. Homens bebem mais que mulheres também e estão expostos a trabalhos com substâncias mais cancerígenas, como mineração, indústria naval ou de telhas de amianto.

Nas últimas décadas, em diversos países do mundo, certos tipos de câncer diminuíram mais em mulheres que em homens, como é o caso do câncer de colo de útero, graças à vacinação contra o HPV. 

Cerca de uma década atrás, diversos médicos passaram a se perguntar se as coisas eram tão simples assim. O neuro-oncologista Josh Rubin, da Washington University, nos Estados Unidos, contou que na sua experiência de 25 anos a maioria dos casos com tumores cerebrais na infância era em meninos. E ele não tinha como botar a culpa disso em fatores ambientais. Ele buscou com mais afinco essa informação a respeito de subtipos diferentes de câncer que podem ocorrer em homens e mulheres (ou seja, deixou de lado tumores de mama, ovário, útero ou próstata, por exemplo) e descobriu que por décadas, a incidência de diagnóstico de câncer, em quase todos os subtipos, é mais comum em homens, a despeito de mudança de fatores ambientais, alimentares ou culturais.

Câncer em homens também era mais agressivo e com pior prognóstico que o seu correlato em mulheres.

O Dr. Rubin foi ao seu laboratório e realizou um experimento muito importante em 2014, utilizando-se de camundongos machos e fêmeas: células do sistema nervoso normal expostas a um tipo de hormônio com potencial cancerígeno, transformavam-se mais rápido e eram mais agressivas nos camundongos machos.

Essa informação era intrigante e dava novos contornos à questão de que porque homens têm mais câncer de intestino ou de estômago, ou de sarcomas ou leucemias e linfomas, que mulheres? Afinal esses tumores não tem um forte fator ambiental que poderia ser colocado na conta da maior exposição de homens do que mulheres.

Não é só hormônio
Você deve estar pensando agora: isso tudo tem a ver com hormônios… Pois é, esses cientistas pensaram nisso também. E não estavam satisfeitos em botar a culpa nos hormônios e seguir em frente. Muita gente já se perguntava se outros fatores que não conhecemos poderiam auxiliar nessa questão. E de fato, muitos fatores que não conhecíamos até alguns meses atrás podem auxiliar não só na resposta da diferença de câncer entre gêneros, mas também nos auxiliar a encontrar mais alternativas no combate à doença.

Quem sabe a diferença não poderia estar nos genes? 

Um dos trabalhos mais fascinantes foi realizado por um grupo de gigantes na pesquisa médica há pouco mais de um ano: A Escola Médica de Harvard, junto com o Instituto Broad e o Massachusetts Institute of Technology (MIT), juntaram esforços e foram atrás de genes localizados no cromossomo X. Mulheres nascem com duas cópias do cromossomo X e homens com uma cópia do cromossomo X e outra de um cromossomo menor e diferente no seu conteúdo genético (o cromossomo Y). Para evitar que os genes do cromossomo X sejam ativados de forma duplicada em mulheres, logo após a fecundação, um dos cromossomos é inativado por um processo químico que não é irreversível. 

O que os cientistas dessas instituições descobriram é que no cromossomo X há genes com capacidade de controlar diversas atividades celulares (genes supressores de tumores). Esses genes são chamados coletivamente de EXITS.  Um dos genes EXITS estudado, chamado de KDM6A, quando sofre alguma mutação permite com que células se tornem mais invasivas e dividam mais rapidamente (algo bem ao gosto de células cancerosas). Imagine que um homem, que possui apenas uma cópia do gene KDM6A, sofra uma mutação nesse gene. Bem, ele vai perder um mecanismo de proteção valioso para suas células. Um mecanismo anti-câncer. 

Se esse dano ocorrer em uma mulher, no entanto, e aí está a novidade do artigo publicado no respeitadíssimo periódico Nature Genetics, ela é capaz de ativar aquela cópia que está silenciosa desde que ela era um embrião. A vantagem de ter os genes EXITS em dose dupla poderia ser uma explicação elegantíssima para a questão da maior frequência e gravidade de câncer em homens do que em mulheres.

Genes EXITS
Claro que esta não deve ser a única explicação. Temos ainda que entender porque células femininas processa a quebra da glicose em velocidade diferente das células masculinas. Temos também que buscar uma justificativa para entender porque mulheres e homens metabolizam diferentemente medicamentos anti-cancer. 

São vários fatores concorrendo mais dois pensamentos ficaram comigo ao terminar de ler o trabalho: será que quando testarmos medicamentos novos não deveríamos separar grupos masculinos e femininos no estudo? Pelo menos até ter certeza que o efeito do sexo não é grande o suficiente para poder gerar respostas muito diferentes. O segundo pensamento me pareceu ainda mais interessante. Como exatamente os genes EXITS agem? Poderíamos usar o conhecimento derivado de como eles nos protegem contra o câncer (especialmente as mulheres), para desenvolver outras estratégias de tratamento?

Tenho certeza que muita gente já pensou nos questionamentos que fiz e deve estar trabalhando nessas questões. Mas é ótimo saber que pressupostos e certezas acumulados em uma época sobre certo fenômeno biológico ou científico, serão questionados na seguinte e que esse fenômeno é inerente da própria incerteza da ciência. Isso nos obriga a seguirmos humildemente questionando as verdades estabelecidas. É um grande aprendizado.

Fonte: Veja

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