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Cannabis medicinal no câncer: o que é promessa e quais os reais limites

  • Equipe Oncoguia
  • - Data de cadastro: 11/08/2022 - Data de atualização: 11/08/2022



Não bastasse a dor que um tumor maligno muitas vezes provoca, há o medo e a ansiedade que, não raro, contribuem para roubar o sono. As noites mal dormidas, por sua vez, são capazes de aumentar ainda mais a sensibilidade ao mal-estar. Um câncer parece enredar a pessoa de muitas maneiras.

É natural que ela então se agarre à promessa de algo que possa tirá-la dali, ainda mais se o tratamento traz outros sintomas desagradáveis. É por essa brecha de esperança que entra a ideia de tomar medicamentos extraídos da Cannabis.

A atriz Olivia Newton-John, que morreu na segunda-feira, 8, revelou que, sem a planta, ela não teria suportado. A estrela de Grease foi diagnosticada com câncer de mama em 1992. A doença voltou algumas vezes e, em 2017, atingiu a sua espinha. Ela só voltou a caminhar sem sofrer no ano seguinte, quando passou a usar a Cannabis.

Mas o que será que os componentes dessa espécie milenar podem, de fato, oferecer ao paciente oncológico? Não falta assunto na I Conferência Internacional da Cannabis Medicinal, que começa hoje em São Paulo e vai até sábado, reunindo estudiosos do Brasil e do exterior. Mas, na minha opinião, este é um dos temas mais palpitantes na programação.

Tomara que o evento desfaça enganos propagados por gente que, até parece, viaja. A propósito, parênteses: remédios à base de Cannabis não causam barato algum, nem têm nada de recreativo. Superando preconceitos, provam cada vez mais seu potencial terapêutico — e não só contra o câncer.

A questão é que não curam de unha encravada a cisco no olho, passando por cólicas, estresse e, claro, tumores malignos, como pseudo-ativistas pregam. Não são panaceia.

"Esse marketing absurdo pode queimar uma droga promissora, mas que está longe de fazer tudo o que as pessoas falam", diz o médico Carlos Marcelo de Barros, professor de anestesiologia, dor e cuidados paliativos da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Alfenas, em Minas Gerais. "Isso não ajuda os médicos sérios que já usam esse tratamento, nem os cientistas que desejam pesquisar a Cannabis, muito menos os pacientes."

Atual diretor científico da SBED (Sociedade Brasileira para Estudo da Dor) e membro do board da Cannect, empresa criada para facilitar o acesso a esses medicamentos, ele infelizmente não estará na conferência em São Paulo. E conta que até prefere usar a expressão "tratamento com canabinoides" — os ativos extraídos da planta — do que Cannabis ou maconha medicinal.

"Isso não existe", provoca. De fato, a gente não sai por aí falando em maracujá medicinal, camomila medicinal... Se bem que isso até é o de menos perto das confusões que existem quando se trata de Cannabis — ou canabinoides — e câncer.

Não tem atividade antitumoral 
O ataque ao tumor até foi observado aqui e ali em tubos de ensaios e em ratinhos. Mas, além de rato não ser gente, eram estudos pequeníssimos. Portanto, esqueça.

Até que a ciência prove o contrário, a afirmação de haver qualquer atividade antitumoral é de má fé e induz ao erro fatal de se achar que a Cannabis substituiria as drogas indicadas pelo oncologista para derrotar o tumor. No ano passado, um único post espalhando essa notícia falsa nas redes sociais levou várias entidades médicas dos Estados Unidos e da Europa a se pronunciarem.

"Isso cria aquela fantasia de que a cura do câncer estaria sendo escondida por causa de outros interesses, o que não tem o menor cabimento", vai logo descartando o hematologista Cristiano Fernandes, membro do Comitê de Ética Médica do Hospital Nove de Julho, em São Paulo. Na conferência, ele falará sobre a atuação dos canabinoides no controle dos sintomas tanto da quimioterapia quanto do câncer em si. E, sim, nos sintomas eles ajudam um bocado.

"Nesse contexto, os canabinoides ganham cada vez mais respaldo científico", concorda Carlos Marcelo de Barros. Mas o curioso é que, se você olha estudos que analisam os efeitos sobre sintoma por sintoma separadamente, o resultado da Cannabis nunca é assim de cair o queixo. O que faz diferença é que ela age discretamente em diversas frentes ao mesmo tempo, promovendo o que os médicos rotulam de melhora global.

Não é um dos analgésicos mais potentes, mas...
"Para falar a verdade, quando é dor oncológica, os canabinoides são analgésicos muito ruins", comenta o professor Barros. Ele sabe o que fala. É o principal autor do "Tratado de Dor Oncológica"(Ed, Atheneu), obra sempre consultada nos cursos de Medicina. Mesmo assim, já prescreveu Cannabis para mais de 300 pacientes sofrendo dolorosamente de câncer. Por quê?

Segundo o professor, apesar de existirem receptores para canabinoides ao longo de todo o percurso nervoso da dor — do local onde ela surge até o cérebro —, os estudos que focam só nesse sintoma mostram que o alívio acaba sendo mínimo.

"No entanto, nos trabalhos que avaliam o contexto geral, a história é outra", garante. "A pessoa dorme menor, fica menos ansiosa e menos deprimida, sente menos enjoo, come melhor. E, nesse estado, é como se notasse menos a dor que sente, aumentando o limiar da percepção."

A médica especializada em neuro-oncologia Paula Dall Stella — outra palestrante do evento, integrante do Núcleo de Cannabis Medicinal do Hospital Sírio Libanês, em São Paulo — afirma que isso muitas vezes possibilita a diminuição na dosagem de opioides, remédios inevitáveis diante da quase imbatível dor oncológica. "Só que eles têm efeitos adversos, como a constipação ", lembra.

Além disso, os opioides sempre oferecem o risco de diminuir perigosamente os batimentos cardíacos e o ritmo da respiração. Mas não existe a mesma ameaça com os canabinoides, quando eles entram junto no protocolo até para evitar que a dor se intensifique — e que, consequentemente, a dose de opioides aumente.

É que, apesar de existirem receptores para essas moléculas por quase todo o sistema nervoso central e pelos nervos periféricos, eles não estão presentes no tronco cerebral, que transmite os comandos para os órgãos vitais. Logo, diferentemente dos opioides, os canabinoides não calam a ordem do cérebro para o coração e os pulmões funcionarem direito.

Também não é a primeira opção para as náuseas, mas...
Nos Estados Unidos, a FDA (Food and Drug Administration) já liberou, é não é de hoje, uma medicação sintética criada a partir da Cannabis para tratar náuseas e vômitos em pacientes oncológicos. "Mas ela não é a primeira linha, ou seja, é para ser prescrita quando já usei todos os outros remédios e o paciente continua nauseado."

De acordo com o médico, estudos que compararam a Cannabis com placebo mostraram que a planta funciona muito mais do que o remédio falso. Seu efeito praticamente empata com o de medicamentos mais antigos para o estômago embrulhado, aqueles que dão uma soneira danada. "Mas provavelmente perde para as drogas contra náuseas de última geração", acredita Fernandes, já que ainda não há trabalhos colocando os canabinoides e elas lado a lado.

Qual a vantagem então? "Os canabinoides fazem mais do que cortar o enjoo. Eles aumentam o apetite e evitam aquela perda de peso debilitante que vemos em alguns pacientes", responde o hematologista.

Não pode ser para qualquer um Prescrever medicamentos à base de Cannabis exige estudo. A planta possui mais de 120 canabinoides. Dois deles são os mais investigados pela Medicina — o THC e o CBD, que têm efeitos distintos. Eles podem ser combinados em diferentes proporções conforme o objetivo — ou não.

"Médicos sem experiência costumam errar, inclusive prescrevendo subdoses que não produzem efeito terapêutico", lamenta Paula Dall Stella. 

Outro risco é do medicamento extraído da Cannabis interagir com as drogas para combater o tumor. "Há dados de que os canabinoides atrapalhariam a ação do nivolumab", exemplifica o professor Barros, referindo-se a um imunomiológico usado no melamona. "Se essa é a indicação do oncologista, eu não vou dar nada extraído da Cannabis."

Aliás, o diálogo entre o médico procurado para tratar a dor ou outro sintoma oncológico com canabinoides e o oncologista precisa ser constante. "Até porque ainda desconhecemos possíveis interações com outros quimioterápicos. É necessário ficar atento a reações em cada caso."

Ajuda na maioria das vezes 
Apesar disso, muita gente se beneficia. Se temos receptores para canabinoides por todo o corpo — formando o sistema endocanabinoide — é porque produzimos moléculas muito parecidas. "Esse sistema se equipararia ao estabilizador de um avião. Ele mantém nosso organismo em equilíbrio", explica professor Barros.

Essa é a hipótese para explicar a melhora na qualidade de vida dos pacientes e o que justifica recomendar canabinoides até mesmo no início do tratamento oncológico, deixando o paciente mais apto a enfrentá-lo.

"Os canabinoides são sempre um adjuvante, um reforço", sublinha o cirurgião geral Rafael Pessoa, diretor médico da Cannect e outro palestrante da conferência. "Seria como uma partida de futebol em que cada remédio é um jogador com uma função no campo. A Cannabis é apenas um deles, não ganha o jogo sozinha", diz. Mas pode marcar gols. A torcida é grande.

Fonte: UOL Viva Bem



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