Painel de Políticas Públicas do Câncer
VoltarEstudos apontam desigualdades no diagnóstico e tratamento do câncer de pulmão no Brasil
Dois estudos publicados recentemente evidenciam importantes desigualdades entre os sistemas público e privado no acesso ao diagnóstico e ao tratamento do câncer de pulmão. Mais especificamente, os estudos focaram no diagnóstico e acompanhamento de pacientes com câncer de pulmão não pequenas células (CPNPC) com alteração no gene ALK.
O primeiro estudo foi realizado por meio de um survey com médicos oncologistas de diferentes regiões do país para avaliar o acesso aos testes moleculares e aos tratamentos-alvo. Já o segundo analisou prontuários de pacientes com câncer de pulmão ALK positivo, acompanhando seu diagnóstico, tratamento e desfechos clínicos em serviços públicos e privados. Ambos foram publicados em 2026 no JCO Global Oncology.
Acesso desigual começa na testagem
O ALK é uma alteração genética presente em aproximadamente 5% dos casos de câncer de pulmão de não pequenas células. Sua identificação é fundamental porque permite indicar terapias-alvo capazes de controlar melhor a doença, aumentar a sobrevida e oferecer melhor qualidade de vida aos pacientes.
Apesar dessa importância, o levantamento mostrou uma enorme diferença entre os sistemas de saúde. Entre os médicos que atuam no setor privado, 93,9% afirmaram que a maioria de seus pacientes consegue realizar o teste para identificação da alteração em ALK. Já entre os profissionais que atendem no SUS, apenas 43,9% relataram que a maior parte de seus pacientes têm acesso ao exame.
Na prática, isso significa que uma parcela expressiva dos pacientes da rede pública pode nem sequer descobrir que possui uma alteração molecular para a qual existem tratamentos específicos.
Medicamentos incorporados, mas ainda indisponíveis para muitos pacientes
O estudo também revelou que, mesmo quando o diagnóstico molecular é realizado, o acesso aos tratamentos-alvo permanece bastante desigual. No sistema público, apenas 7,1% dos médicos relataram que seus pacientes conseguem receber crizotinibe, primeiro medicamento disponível no SUS para pacientes com ALK positivo.
Enquanto isso, no setor privado, 75,6% dos médicos afirmaram que seus pacientes têm acesso ao alectinibe, e 60,9% ao lorlatinibe, ambos medicamentos específicos para ALK positivo de gerações mais recentes que ainda não estão disponíveis no SUS.
Relembre: O crizotinibe foi o primeiro medicamento incorporado ao SUS para o tratamento de pacientes com câncer de pulmão de não pequenas células (CPNPC) ALK positivo. Em 2025, ele foi substituído pelo brigatinibe, que passou a ser a terapia incorporada para essa indicação. Confira quais medicamentos estão atualmente incorporados no SUS.
Vale destacar também que a incorporação de um medicamento não garante que ele esteja disponível para os pacientes. O fornecimento de medicamentos oncológicos no SUS ainda enfrenta desafios importantes. Saiba mais.
Diferenças de acesso impactam diretamente a sobrevida
O segundo estudo avaliou 101 pacientes com câncer de pulmão ALK positivo tratados em 12 centros brasileiros entre 2015 e 2020. A análise mostrou que pacientes do SUS demoraram mais para receber o diagnóstico, tiveram menor acesso às terapias-alvo logo na primeira linha de tratamento e utilizaram com maior frequência a quimioterapia convencional.
Apenas 22,2% dos pacientes da rede pública receberam um inibidor de ALK como primeira linha de tratamento, contra 53,9% dos pacientes atendidos na saúde suplementar. Essas diferenças tiveram impacto direto nos resultados clínicos.
A taxa de sobrevida global em três anos foi de 87,2% entre os pacientes tratados na rede privada, enquanto no sistema público foi de apenas 61,4%. Além disso, o tempo mediano até a progressão da doença também foi muito superior entre os pacientes da saúde suplementar (40,1 meses) em comparação aos pacientes do SUS (11,3 meses).
Estes resultados demonstram que as desigualdades no acesso aos testes moleculares e às terapias-alvo se traduzem em piores desfechos clínicos para os pacientes atendidos na rede pública, reforçando a necessidade de políticas que garantam acesso oportuno tanto ao diagnóstico molecular quanto aos medicamentos já incorporados ao SUS.
Conteúdo produzido pela equipe do Instituto Oncoguia.


