Por conta da Covid-19, Brasil pode ter 'epidemia de diagnósticos avançados de câncer'

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  • Equipe Oncoguia
  • - Data de cadastro: 12/04/2021 - Data de atualização: 12/04/2021

Por medo de contágio pelo novo coronavírus, pacientes estão deixando de fazer exames para diagnosticar câncer e, os já diagnosticados, estão interrompendo o tratamento. Segundo levantamento do Radar Oncoguia, exames citopatológicos e mamografias tiveram queda de cerca de 50% e as biópsias, que servem para confirmar a doença, diminuíram em 39% no ano passado. Especialistas explicam que atrasos no diagnóstico podem diminuir as chances de cura.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o câncer é a segunda principal causa de morte no mundo. Câncer de pulmão, colorretal, fígado, estômago e mama são os que mais matam. No ranking dos três mais diagnosticados estão, em ordem, câncer de mama, de pulmão e colorretal. O Radar Oncoguia aponta que, a cada ano no Brasil, cerca de 700 mil pessoas recebem o diagnóstico de câncer. O Instituto Nacional de Câncer (Inca) estima que mais de 46 mil gaúchos foram diagnosticados com a doença só em 2020.

Ainda que os números sejam altos, a diferença entre 2019 e 2020 é alta. Em 2019 foram realizadas 737,8 mil biópsias e, em 2020, apenas 449,2 mil. Segundo o Radar Oncoguia, as maiores quedas ocorreram nos meses de abril (-63,3%) e maio (-62,6%). “Isso acontece por várias razões, tanto porque o sistema agora está totalmente direcionado para atendimento a Covid-19, quanto porque várias pessoas estão com receio de procurar os serviços médicos”, explica o vice-presidente do Conselho Regional de Medicina do Rio Grande do Sul (Cremers), Eduardo Trindade.

“Câncer nem sempre é uma situação de urgência, mas é extremamente importante fazer diagnóstico em estágio precoce”, enfatiza a médica oncologista do Hospital Moinhos de Vento Daniela Dornelles Rosa.

Em relação ao câncer de pele, por exemplo, a redução dos pedidos de biópsia no Brasil foi de 48%. Em 2019, foram 210.032 entre janeiro e setembro. Em 2020, no mesmo período, foram 109.525.

Daniela explica que uma doença com possibilidade de cura pode evoluir e se tornar incurável em um ano. “Vamos supor que uma paciente fez sua última mamografia de prevenção em 2019. Em 2020 não fez por causa da pandemia e em 2021 também. Esse câncer que pode estar se desenvolvendo, poderia estar só na mama no ano passado, agora já poderia estar na mama e na axila e, até o final do ano, já pode estar em outros órgãos”, complementa.

Trindade acredita que esses casos não diagnosticados agora possam sobrecarregar o sistema de saúde no pós-pandemia. “O sistema não vai conseguir atender essa demanda de forma rápida no futuro. E o que mais nos preocupa como médicos é que vamos ter que tratar e operar doenças em estágios mais avançados. Uma coisa é operar um câncer de esôfago inicial e outra coisa é operar avançado.” Ele pontua que essas cirurgias e tratamentos vão demandar mais pessoas, mais leitos de UTI e mais tempo dos hospitais.

Outro problema que a oncologia tem enfrentado é o atraso nos tratamentos. Segundo a Daniela, alguns pacientes acabaram interrompendo o tratamento durante a pandemia. “As pessoas já diagnosticadas querem atrasar o tratamento, porque não querem ir ao hospital fazer radioterapia ou os exames que a quimioterapia pede”, conta.

Mas a especialista aponta que os hospitais, em grande maioria, têm áreas oncológicas separadas da área Covid, sendo seguro para os pacientes. “É muito importante manter os tratamentos sem atraso para não se arrepender no futuro. Podemos ter uma epidemia de diagnósticos avançados e de pessoas que não vão conseguir curar o câncer por conta desses atrasos e interrupções.”

Matéria publicada por Jornal do Comércio em 10/04/2021 por Yasmim Girardi.






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