Fora do SUS, mamotomia amplia desigualdade na detecção do câncer de mama, que cresce 10% em MG

Em 2008, a mamotomia, procedimento minimamente invasivo para diagnóstico de alterações na mama, passou a ser coberta pelos planos de saúde. Se à época representou um avanço na detecção da doença, quase duas décadas depois, a tecnologia segue sem incorporação ao Sistema Único de Saúde (SUS), o que faz com que pacientes da rede pública precisem recorrer a outros métodos, incluindo procedimentos cirúrgicos, apenas para obter um diagnóstico. O tema está em debate pela Sociedade Brasileira de Mastologia, que avalia a apresentação nos próximos meses de um estudo técnico à Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec), etapa inicial da análise para inclusão do procedimento na rede pública. 

Pela rede suplementar, a mamotomia, chamada de biópsia mamária assistida a vácuo, é autorizada para investigar lesões suspeitas identificadas em exames de imagem, como mamografia e ultrassom, em casos classificados como BI-RADS 4 ou 5. Essas categorias indicam alterações que exigem biópsia para confirmar ou descartar o diagnóstico de câncer. Considerada minimamente invasiva, a técnica permite a retirada de amostras de tecido por meio de uma pequena incisão e costuma ser realizada em cerca de uma hora. 

A discussão sobre a ampliação do acesso à tecnologia ganha relevância em meio ao aumento dos casos da doença. Estimativas do Instituto Nacional de Câncer (Inca) apontam que Minas Gerais deve registrar 8.430 novos casos de câncer de mama por ano no triênio 2026-2028. No triênio anterior, entre 2023 e 2025, a estimativa era de 7.670 casos anuais. Ou seja, aumento de 10% nos casos previstos. Nacionamente, o crescimento foi de 6,8%, saltando de 73.610 para 78.610. 

“É um exame extremamente valioso dentro do arsenal de diagnóstico das lesões mamárias”, explica o presidente da Sociedade Brasileira de Mastologia - regional Minas Gerais (SBM-MG), o médico Henrique Lima CoutoSegundo o especialista, ela é indicada quando é necessário obter uma quantidade maior de tecido para analisar a alteração e confirmar ou descartar a suspeita de câncer. No SUS, está disponível como solução menos invasiva a core biopsy, conhecida como agulha grossa. “Quando ela não resolve ou é inconclusiva, as opções são a mamotomia e a biópsia cirúrgica, com corte na mama, internação hospitalar e anestesia”, explica. 

Apenas em Belo Horizonte, em 2025, foram realizadas 5.531 biópsias cirúrgicas de mama na rede SUS-BH, conforme dados da Secretaria Municipal de Saúde de Belo Horizonte. “Toda vez que tem uma situação de dúvida, a biópsia a vácuo resolve no lugar da cirurgia, com a mesma eficiência. Ela substitui as cirurgias diagnósticas. Hoje, nenhuma mulher merece ou deveria ser submetida a uma cirurgia na mama, com impacto estético, cicatriz, afastamento das atividades”, afirma Couto. A mamotomia também tem indicação para microcalcificações, depósitos microscópicos de sais de cálcio inperceptíveis pelo toque. 

Na rede de saúde suplementar, a mamotomia é de cobertura obrigatória quando a mulher apresenta lesões não palpáveis, lesões menores do que 15 milímetros ou sempre que a core biopsy for inconclusiva, explica Couto. “Como ela não está incorporada ao SUS, ela não é oferecida. Temos mais um exemplo na linha de cuidados de câncer de mama, da disparidade, do grande abismo existente entre a saúde complementar do convênio e a saúde pública. E não estamos falando de uma tecnologia recente”, diz. 

Presidente voluntário da Federação Brasileira de Instituições Filantrópicas de Apoio à Saúde da Mama (Femama), o médico mastologista Luiz Ayrton Santos Júnior destaca que a tecnologia tem potencial para se somar às estratégias de diagnóstico precoce e assertivo do câncer de mama, embora deva ser uma estratégia definida junto ao mastologista, patologista e radiologista. “Pode ser uma forma de desafogar as filas de biópsia, porque o procedimento tem um diagnóstico definitivo, diferente de procedimentos de biópsia mais usados no país”, explica. 

Tecnologia pode fortalecer diagnóstico precoce 

"Só estou aqui para contar minha história porque tive diagnóstico precoce". Aos 50 anos, Ana Carolina Calabró Queiroga fala com propriedade sobre os desafios do câncer de mama. Ela passou por duas investigações da doença ao longo da vida. A primeira ocorreu em 2011, quando a doença foi identificada por meio de uma core biopsy. Na época, ela precisou passar por quimioterapia e cirurgia. Quatro anos depois, surgiu uma nova suspeita. “Era um nódulo menor, pequeno”, relembra. 

Desta vez, a core biopsy não conseguiu trazer uma resposta definitiva. Foi então que veio a indicação para realizar a mamotomia, o que evitou que ela precisasse passar por uma cirurgia apenas para investigar a lesão. No fim, o nódulo era benigno e foi retirado pelo próprio procedimento. “Eu tive esse privilégio de conseguir fazer pelo convênio. Me deixou muito mais tranquila. É muito rápido, eu fiz e já estava indo para casa”, conta. 

Ana Carolina transformou a experiência com a doença em acolhimento. Hoje, é cofundadora, coordenadora e diretora financeira voluntária do grupo Pérolas de Minas, instituição que apoia mulheres diagnosticadas com câncer de mama. “O que eu sempre digo é: não devemos ter medo de fazer consultas. Devemos respeitar nosso corpo, mas o autoexame não substitui o acompanhamento médico”, reforça. 

O tempo de recuperação também pesa na vida das pacientes. Em um país marcado pela desigualdade entre homens e mulheres, um procedimento menos invasivo pode reduzir impactos pessoais, familiares e profissionais. “Se você tem uma mulher que não vai se submeter a uma cirurgia, isso é positivo porque ela precisa voltar à rotina o mais breve possível. Muitas vezes há necessidade de internação, vamos retirá-la do ambiente de trabalho. Esse também é um valor importante de um procedimento como esse”, afirma o mastologista Luiz Ayrton Santos Júnior. 

Para o médico Henrique Lima Couto, a discussão também passa pela forma como os impactos dessas intervenções sobre o corpo das mulheres são encarados pela sociedade. “As pacientes são submetidas a cirurgias desnecessárias. A gente vê médicos ou gestores falando que isso é o de menos. Quando, na verdade, o que acontece é que a cicatriz não está nele. Então, você vê que isso é até um machismo”, diz. 

Iniciativas levam mamotomia para rede pública em BH 

Enquanto a mamotomia segue fora da lista de procedimentos incorporados ao SUS, iniciativas em Belo Horizonte têm buscado ampliar o acesso à tecnologia. Em dezembro do ano passado, a Santa Casa BH lançou o projeto Amigas do Peito e passou a oferecer a mamotomia guiada por estereotaxia, técnica que utiliza coordenadas tridimensionais para localizar lesões profundas ou milimétricas.

Segundo a coordenadora do Centro de Diagnóstico e Tratamento da Santa Casa BH, Jamylla Rodrigues, o projeto surgiu da necessidade de ampliar o acesso ao diagnóstico precoce do câncer de mama para pacientes do SUS. “Nós já tínhamos uma demanda importante dessas mulheres com lesões identificadas, porém ainda não tínhamos um método menos invasivo para obtenção deste diagnóstico”, afirma.

Desde o início do projeto, seis pacientes foram atendidas. De acordo com a instituição, em grande parte dos casos a mamotomia permitiu evitar procedimentos cirúrgicos realizados exclusivamente para investigação diagnóstica.

Outra iniciativa ocorreu neste ano no Instituto de Oncologia Ciências Médicas de Minas Gerais (IONCM-MG), que realizou um mutirão de mamotomia para mulheres acompanhadas pelo SUS e com indicação médica para investigação de lesões suspeitas. A ação foi viabilizada por emendas parlamentares das vereadoras Marcela Trópia e Loíde Gonçalves e previa o atendimento de cerca de 200 pacientes.

Segundo Marcela Trópia, a iniciativa teve como objetivo reduzir o tempo de espera pelo diagnóstico e demonstrar a viabilidade da técnica em larga escala na rede pública. “Quando falamos de câncer de mama, o diagnóstico precoce salva vidas e reduzir o tempo de espera faz toda a diferença”, afirma. Para ela, o fato de a mamotomia estar disponível há anos na saúde suplementar e ainda não ter sido incorporada ao SUS evidencia as diferenças de acesso entre quem pode pagar por um plano de saúde e quem depende exclusivamente da rede pública.

O que dizem os gestores?

Procurado, o Ministério da Saúde afirmou que o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) do Câncer de Mama estabelece que a "investigação de lesões suspeitas pode ser realizada por diferentes métodos, definidos conforme avaliação clínica, disponibilidade assistencial e organização da rede". O documento, acrescenta a pasta, é a "referência que estabelece critérios para diagnóstico, tratamento e acompanhamento dos pacientes".

A pasta também informou que, além da core biopsy (biópsia por agulha grossa), o SUS oferece, para a investigação do câncer de mama, a "punção aspirativa por agulha fina (PAAF), conforme indicação clínica".

O ministério destacou ainda que a inclusão de novas tecnologias depende de avaliação da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec) e que "atualmente não há demanda em análise" para a incorporação da mamotomia.

A Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES-MG) afirmou que tem focado na ampliação regionalizada de acesso à atenção ambulatorial e que “a saúde da mulher é uma das prioridades da política, especialmente no que se refere ao rastreamento, diagnóstico e acompanhamento dos cânceres de mama e colo do útero”. Além disso, destacou que os Centros Estaduais de Atenção Especializada e parte das Unidades de Atenção Especializada oferecem “consultas especializadas, mamografias de rastreamento, ultrassonografias mamárias, punções por agulha fina (PAAF), punções por agulha grossa (Core-Biopsy), biópsias de mama e exames anatomopatológicos e citopatológicos”.

Já a Prefeitura de Belo Horizonte (PBH), por meio da Secretaria Municipal de Saúde, afirmou que a rede SUS-BH “dispõe de fluxos e procedimentos para o diagnóstico e tratamento das lesões mamárias, incluindo punção por agulha fina, biópsia por agulha grossa e procedimentos cirúrgicos, quando indicados”. Frisou, ainda, que “a definição da conduta é realizada de forma individualizada, conforme avaliação médica, protocolos assistenciais e necessidades de cada paciente”. 

Fonte: O Tempo

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