Entre lutos e esperanças
Viver no mundo oncológico é viver entre extremos.
É conviver com perdas, partidas, dores silenciosas, cicatrizes que o corpo carrega e outras tantas que ninguém consegue enxergar. É aprender a lidar com ausências, com despedidas que nunca parecem suficientes e com o medo de que uma história que começou tão cheia de esperança termine antes do que gostaríamos.
Mas, paradoxalmente, também é viver na expectativa.
Na expectativa de que dessa vez vai dar certo.
De que uma nova medicação vai chegar.
De que o próximo exame trará uma boa notícia.
De que o quadro poderá se reverter.
De que, apesar de tudo, ainda haverá tempo. Ah, o tempo, a eterna incógnita. Quanto tempo ainda tenho?
Confesso que, ultimamente, os lutos têm ocupado um espaço grande demais na minha vida. E não há como se acostumar com isso. Não dá para não sentir. Não dá para não sofrer. Não dá para não pensar na família de quem partiu, nas histórias que ficaram pelo caminho, nos sonhos interrompidos.
E, inevitavelmente, não dá para não me projetar.
Às vezes me pergunto: o que fazer?
Me afastar das amizades que o câncer me trouxe para não correr o risco de perder?
Viver a minha vida vendada, com antolhos, escolhendo não olhar para aquilo que está tão perto?
Mas a realidade está aí.
O câncer mata.
Essa é uma verdade dura, que não pode ser romantizada ou ignorada.
Mas existe uma outra verdade que também precisa ser dita: há muita vida em quem convive com o câncer. Há vida nos dias bons e nos dias difíceis. Há vida nas amizades que nascem no meio do caos, nas gargalhadas dentro de um hospital, nos abraços apertados, nos planos feitos para depois. Há vida em quem segue. E há vida, muita vida, em quem conseguiu passar por todo processo e hoje tenta se reencontrar no pós câncer.
Talvez seja esse o equilíbrio impossível que precisamos aprender a viver: reconhecer a finitude sem deixar que ela nos roube o presente.
Porque eu não quero fechar os olhos para a realidade. Quero apenas não permitir que ela me impeça de enxergar tudo aquilo que ainda pode acontecer.
E digo isso com toda a propriedade que 13 anos de tratamento oncológico me concedem:
A esperança não é ingenuidade.
A esperança é necessidade.
É escolha.
É resistência.
É o que nos faz continuar acreditando que, apesar de tudo, ainda pode dar certo.
Que os lutos não sejam maiores do que a vida.
Que o medo não seja maior do que a esperança.
E que, enquanto houver vida, a gente nunca deixe de esperançar.
Sigo esperançando!
Vanessa Costa, bióloga, integrante do Comitê de Pacientes Oncoguia, mãe do Gabriel, da Luisa e do Heleno.
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