Entre a culpa e a euforia
Sumida por aqui, né? Na verdade, estava vivendo a vida de forma intensa. Sabe aquela história de primeiro viver, depois postar? É mais ou menos por aí. Vivi momentos de alegria, curtição, culpa, quando resolvi em um final de semana viajar para uma feira literária, numa cidade próxima. Corre, faz reserva de hotel, compra passagem, faz mala, conversa com as crianças e deixa eles com uma amiga. O sentimento de culpa me invadiu; culpa por estar “gastando dinheiro com isso”, culpa por deixar os meninos, culpa de uma mãe que sai de casa em plena quinta-feira para outra cidade, onde já se viu?
Viajei com o coração apertado, mesmo depois de Gui, meu caçula dizer que eu merecia sair e que eles ficariam bem. Vinha martelando na minha cabeça a responsabilidade das coisas, afinal eu iria gastar uma grana que faria falta para a minha mini reforma que iniciaria na semana seguinte. Repetia para mim “você merece esse momento, não terá outra oportunidade de assistir gratuitamente um show de Vanessa da Mata e Paralamas do Sucesso”. Ah, porque diabos eu não sou um tiquinho irresponsável, pensei eu?
Muitos devem estar assim pensando “a vida é pra se viver”. Sim, mas no meio de tudo isso, existe um diagnóstico de câncer, existe uma família que depende de mim e inúmeros boletos contraídos depois que essa bagaça entrou na minha vida há quase seis anos.
Enfim, depois de seguir viagem, de enfim chegar ao meu destino, parecia que toda a vida lá fora tinha desaparecido por um passe de mágica. Sim, eu vivi aquele momento, passeei entre os vários stands, vi artesanato local, livros, trabalhos escolares, contação de histórias, chorei vendo uma orquestra de estudantes, cantei a plenos pulmões vendo o coral na praça principal da festa, ri com a peça de teatro que fazia reflexões e encenações de músicas de axé dos anos 80/90 (imagine aí Faraó e Mulher Brasileira sendo encenadas no palco, com seus trejeitos, com seus rebolados e tudo mais sugestivo que existia) enfim, anos 80 e 90 não eram para amadores e, há quem diga que a atual família tradicional brasileira, que foi criada vendo o quadro da Banheira do Gugu no Domingo Legal estava indignada. Enfim, tem gente que não entende a arte. E essa arte em praça pública me remeteu aos teatros da época do Império Romano ou ainda, o teatro Shakespeariano retratado em tantos filmes. É, a menina do interior que só tinha ido ao teatro uma vez, estava vendo uma peça encenada em praça pública, essa mesma menina que nunca vira uma orquestra se apresentar, ainda mais com adolescentes!
Quanto aos shows, sem comentários, uma Vanessa da Mata se apresentando somente com um violão, contando “causos” sobre a inspiração de suas músicas, assim como essa que vos escreve aqui conta causos de sua vida, mas ao contrário de mim, Vanessa da Mata é uma pessoa famosa, heheheh. Houve quem criticasse essa apresentação, já disse antes, a arte nem sempre é compreendida. E, fechando minha última noite de feira literária, ver Os Paralamas do Sucesso cantando tudo aquilo que ouvi quando tinha meus 4 anos de idade, com Óculos e Melô do Marinheiro, chegando aos meus 13 anos com Uma Brasileira e mais na fase adulta, ouvindo Aonde Quer que eu vá. Quem me viu naquele show pensou “essa criatura é louca”. Cantei, pulei, gritei, chorei. Esqueci ali todos os meus problemas, as minhas culpas, eu fui a Marta que como eu costumo dizer “no tempo que eu era gente”. Disse ao meu marido no final, se eu morresse agora, morreria feliz.
E acabou o milho, acabou a pipoca, volto pra vida normal, dia das mães com meus filhos e minha sogra, depois seguindo pra casa e vivendo a mini reforma que terminaria em 3 dias e ficou em 5. Mas aí é outra história, repleta de quebra-quebra, poeira e porque não, a alegria de resolver os problemas de infiltração de água na minha cozinha?
É a vida como ela é!
Marta Maria da Silva, a mãe de dois que apesar de, adora viajar e apreciar a arte em suas várias maneiras, membro do Comitê e da Rede de Pacientes Negros com Câncer do Instituto Oncoguia.
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