Attraversiamo (vamos atravessar)
Quando se fala em tratamento oncológico, muitas pessoas ainda imaginam apenas a cena da quimioterapia acontecendo dentro de uma sala silenciosa, da cirurgia marcada no calendário, das sessões de radioterapia e os cabelos indo embora. Mas o câncer atravessa a vida de uma pessoa de uma forma muito mais profunda, extensa e silenciosa do que aquilo que se vê nos corredores de um hospital.
O tratamento oncológico não começa e termina na poltrona da quimioterapia. Ele invade a rotina, modifica planos, altera prioridades e transforma completamente a relação que o paciente passa a ter com o próprio corpo, com o tempo e com a vida.
Existe um universo invisível por trás de cada protocolo. São consultas constantes, exames repetidos, idas e vindas ao hospital, ajustes de medicações, controle de dores, náuseas, insônia, ansiedade, neuropatias, alterações hormonais e tantos outros efeitos colaterais que exigem acompanhamento contínuo. Muitas vezes, o paciente passa a tomar uma quantidade enorme de medicamentos não apenas para tratar o câncer, mas para conseguir suportar o tratamento dele.
E quando falamos em câncer de mama, não podemos deixar de fora a questão da perda da mama (algumas ainda precisam retirar ovários e útero), da possibilidade da infertilidade e a sensação de estar perdendo sua feminilidade.
E junto da toxicidade física, existe também a toxicidade financeira. Porque tratar um câncer custa caro — mesmo quando existe acesso pela saúde suplementar. Há os custos com deslocamentos, exames, medicações de suporte, alimentação específica, suplementos, terapias complementares, em alguns casos fraldas, curativos, há as perdas salariais devido afastamentos do trabalho e adaptações necessárias dentro da própria casa. Em muitos casos, a doença adoece financeiramente toda a família.
Há também as perdas que não aparecem em exames. A queda do cabelo, das sobrancelhas, dos cílios. O corpo que muda, vem as cicatrizes, o inchaço, o emagrecimento ou o ganho de peso e muitas vezes, a fadiga extrema (que muitos julgam e dizem que estamos fazendo "corpo mole"). O espelho passa a refletir alguém que muitas vezes o próprio paciente demora a reconhecer. E junto dessas mudanças físicas acontecem transformações emocionais profundas.
O câncer confronta medos que antes pareciam distantes. Aproxima a pessoa da fragilidade humana e da finitude da vida de uma forma brutal e inevitável. De repente, o amanhã deixa de ser uma certeza automática. Planos são interrompidos. Sonhos são adiados. Algumas relações se fortalecem, outras se perdem pelo caminho. Existe solidão mesmo quando há companhia. Existe medo mesmo quando há esperança.
Ao mesmo tempo, muitos pacientes descobrem uma força que jamais imaginaram possuir. Aprendem a celebrar pequenas vitórias: um exame estável, um dia sem dor, uma boa noite de sono, o cabelo começando a crescer novamente, a possibilidade de voltar a fazer algo simples da rotina.
Por isso, olhar para alguém em tratamento oncológico apenas como “a pessoa que faz quimioterapia” é enxergar só uma pequena parte da história. Existe uma batalha física, emocional, social e financeira acontecendo diariamente nos bastidores. Existe uma reconstrução constante de identidade, de prioridades e de sentido.
O tratamento oncológico não trata apenas uma doença. Ele transforma completamente a vida de quem atravessa esse caminho.
Vanessa Costa, bióloga, integrante do Comitê de Pacientes Oncoguia, mãe do Gabriel, da Luisa e do Heleno.
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