Sem desviar o olhar do câncer

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  • Equipe Oncoguia
  • - Data de cadastro: 14/02/2022 - Data de atualização: 14/02/2022

São quase dois anos de quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) anunciou que o mundo vivia uma pandemia. Depois de diferentes ondas, nos vemos hoje em meio às incertezas por trás da Ômicron. Ao longo da semana, mais de mil mortes diárias com a assinatura desta variante. Com isso, o impacto da Covid-19 ainda se dá nos mais diferentes setores, com grande peso nas doenças crônicas, em especial no câncer.

Em documento publicado no Dia Mundial do Câncer (4 de fevereiro), a OMS destacou o catastrófico impacto que a pandemia teve nos últimos dois anos no diagnóstico de novos casos de câncer. Os números são alarmantes. Durante os meses iniciais da pandemia, o diagnóstico de tumores invasivos caiu 44% na Bélgica; na Itália, os exames colorretais diminuíram 46% entre 2019 e 2020; e na Espanha o número de cânceres diagnosticados em 2020 foi 34% menor do que o esperado.

A própria OMS, ao realizar a Pesquisa Global Pulse, indica que no último trimestre de 2021 houve uma interrupção no cuidado do câncer (exames de rastreamento e tratamento) de 5% a 50% em todos os países do mundo. Essa situação (embora tenha melhorado desde o primeiro trimestre do ano passado, quando os serviços foram interrompidos em mais de 50% em 44% dos países e entre 5% a 50% no restante) refletirá negativamente por anos.

Anualmente, são mais de 19 milhões de casos no mundo (625 mil no Brasil) e cerca de 10 milhões de mortes por câncer. O atraso no diagnóstico, consequentemente, refletirá em aumento das taxas de óbitos nos próximos anos. Busquei na epidemiologia, mais especificamente nos números do Painel Oncologia Brasil/Datasus, a resposta para aquilo que eu observava na prática clínica durante a pandemia. Houve queda no volume de diagnósticos dos cânceres exclusivamente masculinos? Os números mostraram que sim, o diagnóstico de câncer de próstata, pênis e testículo, por exemplo, diminuiu significativamente no Brasil.

Em nosso recorte, verificamos os primeiros nove meses de 2021 e comparamos ao mesmo período de 2019 — ou seja, antes e durante a pandemia da Covid-19. Em relação ao câncer de próstata, os diagnósticos caíram 56% (de 31.398 casos, em 2019, para 13.850, em 2021). Em relação ao câncer de pênis, 31% (de 786 para 540), e câncer de testículo, 38% (de 1.407 para 865).

É um cenário extremamente preocupante. Ainda mais quando sabemos que os homens, tradicionalmente, já cuidam menos da saúde comparado às mulheres. E, parafraseando a OMS, o impacto catastrófico por aqui é iminente, pois o diagnóstico mais tardio de tumores está relacionado a pior prognóstico, a tratamentos mais agressivos e caros e com pior resultado. Além dos custos diretos dos tratamentos, temos o custo irreparável de vidas humanas perdidas.

O caminho para que esta rota seja corrigida é conhecido. Porém, precisamos saber como trilhá-lo. Considerando todos os tipos de câncer, 4 entre 10 casos são prevenidos quando se evita os fatores de risco. Se a população mundial deixar de fumar, por exemplo, 8 entre 10 tumores de pulmão deixarão de existir (e vale ressaltar que o tabagismo está associado com mais de uma dezena de tipos de câncer). Com vacinação contra HPV e Papanicolau é possível erradicar o câncer de colo do útero. Somado a isso, temos rastreamento indicado para câncer colorretal (com exame de colonoscopia, que retira pólipos, pequenas lesões pré-malignas que, removidas, não evoluem para câncer), mamografia (para diagnóstico precoce de câncer de mama) e os exames de PSA e toque retal (para diagnóstico precoce de câncer de próstata).

Toda atenção com a Ômicron e os novos rumos da pandemia, mas sem desviar o olhar para o avanço do câncer. O conhecimento está disponível e devemos usufruir dele.

Por Gustavo Guimarães

Fonte: O Globo 






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