Químio mais suave: médica cria novo protocolo contra enjoos

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  • Equipe Oncoguia
  • - Data de cadastro: 10/08/2022 - Data de atualização: 10/08/2022

A quimioterapia é a salvação para muitas das pessoas que têm câncer. Os efeitos colaterais, porém, costumam ser penosos. Entre os mais incômodos, estão a perda de cabelo, que aflige principalmente as mulheres, e as náuseas (geralmente seguidas por vômitos intensos).

"Até mesmo os remédios chamados antieméticos, capazes de diminuir os enjoos, podem causar outros desconfortos", diz a oncologista Camilla Rebouças, finalista do Prêmio Inspiradoras 2022 na categoria Inovação. O coquetel padrão consiste em quatro medicamentos, incluindo doses muito altas de corticoide, que normalmente geram edemas, inchaço, aumento da glicemia, alteração de humor e do sono e até perda óssea.

"Diminuir os desconfortos é fundamental para melhorar a qualidade de vida de quem está em tratamento de câncer", diz a oncologista. 

Foi pensando em como garantir menor desgaste para as mulheres em tratamento quimioterápico que a médica desenvolveu um novo protocolo que dispensa o corticoide e, ainda assim, tem os efeitos esperados. O trabalho é fruto de uma de suas pesquisas durante o mestrado que ela faz na Faculdade de Medicina do ABC, em São Paulo.

Sem corticoide 
Para comprovar a eficácia do protocolo que estava propondo, a oncologista acompanhou 50 pacientes ao longo de um mês. Elas estavam em tratamento de câncer de mama no hospital São Camilo Oncologia (antigo Instituto Brasileiro de Controle do Câncer), em São Paulo. Alguns estudos anteriores já haviam testado o coquetel com doses reduzidas de corticoide, mas o remédio nunca havia sido retirado completamente.

"Isso me deu segurança para cortar 100% da droga no esquema e testar o resultado, que foi muito positivo. Podemos afirmar que o corticoide não é necessário", explica Camilla. A pesquisa mostrou que o controle das náuseas foi o mesmo com e sem corticoide. Praticamente metade (46%) das pacientes não apresentaram nenhum episódio de náusea ou vômito.

O desafio para conduzir o estudo foi a dificuldade de recrutar voluntárias em meio à pandemia de Covid19. Num período em que a pesquisa clínica sofria ataques, Camilla teve que convencer as pacientes de que não havia riscos. "Foi preciso mostrar que elas não eram cobaias, mas pessoas colaborando com a avaliação de um novo tratamento dentro de princípios éticos", diz.

Os achados podem contribuir também para o avanço de uma outra área bastante promissora no tratamento de câncer: a imunoterapia. Ela consiste basicamente em combater a evolução dos tumores a partir da ativação do sistema imunológico do paciente. Só que a prática é incompatível com o uso de corticoides, pois eles atuam no sentido contrário, suprimindo o sistema imunológico.

No São Camilo Oncologia, onde a médica fez residência, conduziu o estudo e agora atua como oncologista - ela também atende em outros dois hospitais que recebem pacientes de câncer da rede pública - , já existe um projeto para avaliar a adoção do novo esquema contra náusea e vômito.

Cada instituição tem liberdade para escolher seus protocolos. "Essas mudanças são lentas, os serviços de oncologia precisam ainda conhecer o estudo. Mas pacientes com algum risco pelo uso do medicamento, como aqueles com diabetes grave ou com osteoporose, podem se beneficiar muito com essa descoberta", afirma.

Destaque no maior congresso de oncologia
O estudo de Camilla tem chance de chegar às mãos oncologistas não só do Brasil, como do mundo. Ele foi, afinal, apresentado no congresso da American Society of Clinical Oncology (Asco), o mais importante do mundo na área, que aconteceu em junho, em Chicago. Além disso, foi escolhido pela Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC) como um dos cinco trabalhos brasileiros de maior impacto no evento.

"Foi a primeira vez que tive a dimensão externa desse trabalho. Fui abordada por pesquisadores de universidades do mundo todo, que pediam meu contato", diz Camilla, que comemora também a possibilidade de impactar mais pessoas com seus achados.

Um destaque importante: na Asco deste ano, apenas 25% dos autores principais das pesquisas apresentadas eram mulheres.

"A pesquisa de Camilla é muito relevante. Agora queremos estender para um número maior de mulheres", afirma Lílian Arruda, chefe do núcleo de pesquisas da Rede São Camilo, coordenadora da residência médica em oncologia do hospital São Camilo Oncologia.

A médica, que acompanhou de perto o trabalho de Camilla - "Ela é uma grande promessa da nossa ciência" - enfatiza o quanto o controle dos sintomas é significativo para mulheres em tratamento contra o câncer de mama. "Precisamos buscar tratamentos mais empáticos porque não é só um mal-estar, não é só um cabelo. Em mulheres que enfrentam o tratamento, esses sintomas ganham uma dimensão muito maior."

Baiana de Vitória da Conquista, Camilla se formou em medicina em Salvador. Durante a graduação, já sabia que queria seguir a carreira de pesquisadora. Ao fazer um estágio em um centro de pesquisa oncológica, percebeu que era nessa área que queria se aprofundar.

"Naquela oportunidade, vi a história natural do câncer sendo transformada. Foi quando surgiu, por exemplo, a imunoterapia para melanoma, até então, incurável", lembra a pesquisadora. É nesse tipo de exemplo que ela se inspira para continuar trabalhando. "O que me motiva é pensar que posso conseguir algum impacto por meio de uma pesquisa. É como se eu cumprisse meu propósito."

Fonte: UOL Universa






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